sábado, 31 de dezembro de 2016

Projetos para 2017


        
Toda virada de ano, geralmente, costuma a ter dois rituais característicos e cíclicos que demonstra muito sobre a nossa noção de como se passa o tempo.  É natural nessa época e faz parte da cultura ocidental e talvez até mundial. O ano novo é um momento de reflexão e de renovação, ou seja, é um momento que paramos um pouco para contemporizar sobre o passado e também é um período de fazermos os projetos para o futuro, usando o primeiro de janeiro como um marcador para mudanças que queremos ou gostaríamos de realizar.      
Um divisor entre o antigo e o novo.
O ano de 2016 foi, com certeza, um ano bem atípico, onde muitos até o consideram “ruim” esperando com alegria a mudança anual. Particularmente o primeiro semestre desse ano foi cheio de problemas em todas as esferas, mas acabou por concretizar uma máxima que aprendi na publicidade...
Problemas são sinônimos de oportunidades!
O segundo semestre, para mim, foi uma profusão de reviravoltas que somadas em um contexto final foram bem mais positivas que a negatividade do inicio do ano e isso se refletiu muito no projeto desse blog.
Houve um ressurgimento na execução do Contador de Histórias e uma mudança temática clara de textos e ensaios literários e reflexivos livres para resenhas e discussões temáticas sobre Histórias em Quadrinhos.
Mudanças sempre são bem vindas e nunca fez parte ter um blog preso a uma só temática buscando não apenas diversidade nos temas, mas também termos formas mais ecléticas de como expor e produzir conteúdo.
Assim como primeira “reflexão sobre o passado” para uma melhor “projeção do futuro” podemos entender que o Contador de Histórias deve fazer mais isso... contar histórias. Seja como resenhas, poemas, contos e críticas sempre propondo questionamentos e reflexões sobre assuntos atuais e da cultura pop sem ser limitado pelos temas trabalhados ou pela temporalidade.
Claro que depois de contemporizar sobre esse ano temos muitos projetos para 2017 que estão entre novos projetos e a manutenção dos que se manterão após a virada do novo ano.
Continuaremos com o Guia Definitivo de Leitura dosX-Men analisando cada fase importante da equipe mutante dos quadrinhos em seu contexto histórico e com informações extras dos bastidores das publicações bem como seus responsáveis e a receptividade do público.
Teremos uma retomada dos contos e poemas que eram dominantes nos primeiros anos do blog em diversos temas e formas como era característico aqui. Assim poderemos apreciar material totalmente próprio bem como as reflexões livres que ainda fazem a maior parte dos textos do Contador de Histórias.
Continuaremos a produzir e publicar análises temáticas sobre quadrinhos (e séries) propondo reflexões sobre temas atuais e pertinentes como foi o caso da ”Jessica Jones e os relacionamentos Abusivos” e o “Homem Animal e o ativismo ecológico”. Alguns desses textos já estão sendo elaborados como o “Justiceiro do anti-heroísmo à psicopatia” que deve discutir sobre a geração cultural de contestação das leis no combate à criminalidade nos anos 70 e 80 bem como a insatisfação da opinião pública estadunidense sobre a Guerra do Vietnã. Logo depois também teremos um texto que levantará questionamentos sobre a homossexualidade sendo retratada nas histórias em quadrinhos dos X-Men principalmente no tocante da personagem do Homem de Gelo.   
Também teremos novos projetos como o “Lendo...” que discutirá, edição por edição, uma mensal importante da arte seqüenciada como Miracleman, que virá no inicio do ano e o mangá Lobo Solitário que virá logo depois e ambas com o devido tratamento de contextualização histórica. Futuramente também entrará nesse projeto a aclamada Watchmen que será analisada cada uma das 12 edições. Esse projeto é bem diferente do Guia de Leitura, pois visa cobrir todos os aspectos da obra e não apenas resenhar para guiar o leitor a buscar novas revistas para ler.
Finalmente é uma meta possível (e não são todos os projetos de virada de ano?) que apareçam resenhas criticas não apenas de Histórias em quadrinhos, mas também de livros e filmes que não tem super heróis com tema expandindo ainda mais o blog Contador de Histórias e suas discussões.
Por fim agradecemos a todos que leram e opinaram sobre os textos publicados nesse ultimo semestre de 2016, pois o blog cresceu muito e desejamos um ótimo 2017 para todos e que todos os projetos, nossos e de vocês se realizem plenamente.

Obrigado e Feliz Ano Novo!

sábado, 3 de dezembro de 2016

Gênese Mutante - Parte 01 do Guia dos X-Men



Análise da primeira parte do Guia Definitivo dos X-Men que compreende toda a fase inicial dos mutantes escrita por Stan Lee,  publicada nos Estados Unidos nas revistas The X-Men do número 01 ao 19, durante o período de 1963 à 1966. Teve Jack Kirby como desenhista nos números 01 ao 11; Alex Toth na edição 12 e Werner Roth a partir da 13. Foi publicada no Brasil na integra na coleção Biblioteca Histórica Marvel – Os X-Men volumes 1 e 2 e em partes na Coleção Histórica Marvel – Os X-Men volumes 1,2,3 e 4; ambas pela editora Panini.



Chegava, em setembro de 1963, nas bancas de revistas e lojas especializadas dos Estados Unidos a mais nova história em quadrinhos da editora Marvel Comics.  Os “mais incomuns super heróis de todos” faziam sua estréia na revista The X-Men 01 (posteriormente rebatizada de The Uncanny X-Men) e já contava com o “argumento sensacional” de Stan Lee e os “desenhos dinâmicos” de Jack Kirby, os criadores da equipe mutante e já aclamados pela Casa das Idéias.
Jack Kirby era chamado de “o arquiteto do impossível”! Um verdadeiro gênio e visionário entre os desenhistas da arte seqüenciada que lhe rendeu a alcunha merecida ou o apelido carinhoso de “O Rei”. O quadrinista definiu o gênero dos super heróis para sempre, instituindo os padrões artísticos das histórias em quadrinhos estadunidenses posteriores e fazendo seu legado permanecer vivo até os dias de hoje, tornando-se uma referencia para os artistas da atualidade.
Stan Lee talvez seja o nome mais importante da indústria dos comics e criador da maioria dos principais super heróis como Homem Aranha, Hulk, Quarteto Fantástico e boa parte dos Vingadores. Lee é a escarnação da fórmula ou estilo Marvel, ou seja, além da narrativa diferenciada e diálogos afiados, também temos uma maior caracterização dos personagens que, apesar de representar o bem e o super heroísmo, também tinham seus problemas pessoais e humanos, fazendo com que os leitores se identificassem mais com eles do que com os protagonistas, quase deuses, da editora concorrente. Stan Lee escreveu os X-Men desde a primeira revista até o número dezenove que formam exatamente a fase analisada nesse texto.
Hoje podemos dizer que os temas mais importantes abordados pelas revistas dos filhos do átomo sejam o racismo e a inclusão de alguns indivíduos (minorias) na sociedade, mas embora estivesse sutilmente presente desde o primeiro quadrinho, Lee e Kirby não tinham elaborado esses questionamentos com mais profundidade em suas criativas mentes ou simplesmente não colocavam de forma tão direta.
Inicialmente os mutantes seriam apenas um facilitador para se explicar a origens dos poderes de novos heróis e vilões. Logo teríamos a existência de uma nova raça no Universo Marvel, o homo superior (termo pseudocientífico criado por Stan Lee), que já nasceriam com habilidades extraordinárias e que, geralmente, se manifestariam na puberdade. Logo, não mais precisariam de explicações mágicas como Thor e Dr. Estranho; científicas como Homem de Ferro e Capitão América; ou acidentais como o Homem Aranha, para as origens dos super poderes.
Entretanto, é justamente quando seus autores refletiram sobre como as pessoas receberiam esses novos personagens e sensíveis as discussões que estavam ganhando força no contexto dos Estados Unidos nos anos 60 é que perceberam que tinham criado personagens realmente “diferentes de todos os outros” e que questões quase nunca abordadas pelas histórias em quadrinhos até então. Agora poderiam ser centrais com os fabulosos X-Men.



Justamente está nesse contexto o movimento de luta pelos direitos civis que marcou a década de 1960 gerando repercussões sociais até hoje na cultura americana ocidental. Impulsionados pela situação em que os afro-descendentes se encontravam nos Estados Unidos e que, afinal, não tinha melhorado muito desde o final da escravidão, esses movimentos sociais estavam explodindo. Talvez influenciados pelos pioneiros da busca pela igualdade racial como o intelectual W.E.B. DuBois que escrevia sobre a “condição de casta subordinada” em que os negros viviam no inicio do século XX e se tornou o primeiro afro-americano a ganhar o título de PHD pela Universidade de Harvard.
Muito se criticou sobre a segregação que havia nesses cem anos após a Guerra de Secessão (ocorrida entre 1861 a 65), mas foi na década de 1960 que os movimentos sociais cresceram em número e se tornaram influenciadores de toda uma geração que buscava melhores condições para minorias oprimidas pela sociedade estadunidense, incluindo os negros que uma vez ameaçados nas regiões agrárias do Sul dos Estados Unidos, acabavam fugindo por melhores condições no Norte do país, mas encontravam se não perseguições e assassinatos, uma forte resistência social e racista que os separava das comunidades brancas reservando ao afro-americano a uma categoria de piores empregos e quase nenhuma ascensão econômica e social.
As leis estadunidenses reforçavam essa separação que rebaixava o cidadão afro-descendente em uma espécie de “apharteid americano” que muito incomodava as comunidades oprimidas e eclodiu nos movimentos sociais dos anos 60 em várias vertentes, pacifistas ou violentas, mas que buscavam o mesmo objetivo de igualdade e influenciariam não apenas aos negros, mas também teria repercussões em muitas culturas do continente americano e, posteriormente, quase todo o ocidente. 
Foi com esse olhar sensível para essas lutas e percebendo a mudança na sociedade que seria gerada por esse momento histórico que Stan Lee e Jack Kirby plantaram a semente da reflexão sobre o racismo e inclusão, ou reclusão, das minorias na sociedade que viria a ser tão presente nas estórias dos pupilos do professor Charles Francis Xavier e colocaria os X-Men em um patamar muito além de simples super heróis dos quadrinhos, chegando a ser o sucesso editorial mais expressivo da Marvel Comics nos anos 80 e 90.
Claro que hoje podemos ver influências diretas e indiretas desse período nas revistas dos mutantes bem como as atitudes conciliadoras do Professor X que simulavam os discursos de Martin Luther King Jr, um líder pacifista do movimento de luta pelos direitos civis e seguidor dos ideais de Desobediência Civil, criada por Henry David Thoreau e cujo o pioneiro em prática teria sido Mahatma Gandhi que também inspirou a criação e desenvolvimento de Charles Xavier, mas este em aspecto físico (Xavier e Gandhi tem, ambos, uma mente brilhante, mas são fisicamente frágeis) além de espiritual.
 Até mesmo os vilões são associados aos discursos e ideais da época, como Erik Magnus Leinsher, também chamado de Magneto (pois possuía poderes magnéticos), o principal antagonista dos X-Men. Magnus tem como sua contraparte histórica o ativista Malcolm X, também um líder afro-americano do movimento pela luta dos direitos civis, mas que tinha um caráter mais radical que Luther King. No entanto, posteriormente nos faz refletir sobre a legitimidade do uso da violência no contexto de revoltas e revoluções e se Magneto realmente seria um vilão.
Interessante perceber que, se o Mestre do Magnetismo teve sua narrativa cada vez mais se aproximando a Malcolm X, talvez sua Irmandade de Mutantes possa ter se assemelhado, na mesma proporção, com o movimento dos Panteras Negras, um grupo que teve como inspiração o líder radical negro. Logo, mais uma vez podemos ver o embate de como esses movimentos se articulam e que método seria mais “correto” a se fazer, o pacifismo do Professor X ou o radicalismo de Magneto uma discussão muito real e pertinente para os anos 60 de lutas e movimentos de Luther King e Malcolm X.
Obviamente nos primórdios dos fabulosos X-Men essas referencias eram eclipsadas por estórias de ação ingênua e aventuresca bem típica da Era de Prata das histórias em quadrinhos que tinham peso mais de entretenimento do que consciência social, pois muitas questões eram perigosas de serem abordadas devido ao famigerado Comics Code Autority que censurava os comics e não permitia que temas mais pesados fossem abordados em revistas ditas para os jovens e as crianças da época.



O código surgiu muito impulsionado pelo livro Seduction of the Innocent em que o psiquiatra Frederic Wertham expõe sua tese sobre como os quadrinhos dos Estados Unidos fugiam muito da noção moralidade e ética da sua época e que influenciava sua juventude à delinquência.
Assim as primeiras aventuras dos “adolescentes mais incomuns de todos os tempos” tinham a narrativa já clássica de ter um vilão novo a cada revista e gerando, ao mesmo tempo, antagonistas esquecíveis como o teleportador Vanisher ou Unus o Intocável, mas também firmou ícones da vilania das revistas mutantes como Blob, O Fanático Cain Marko e a Irmandade dos Mutantes com seu emblemático e poderoso líder Magneto que se tornaria um dos principais personagens de toda a franquia dos filhos do átomo.  São esses últimos que quebravam a narrativa de “vilão do mês” tendo uma profundidade maior em sua caracterização e que sempre voltavam mais fortes ou com planos melhores para atormentar a vida dos pupilos do professor Xavier.



Ao mesmo tempo, podemos perceber que apesar do código de censura, Stan Lee foi introduzindo temas mais profundos, mesmo que sutilmente, nas caracterizações mais densas dos personagens que tinham problemas reais como a auto-estima afetada de um Henry “Hank” McCoy que não gostava de ser chamado de “Fera” ou Ciclope, que era o órfão Scott Summers, e que era também assombrado pelo perigo de suas rajadas ópticas. Logo, eram personagens ingênuos como era exigido, mas com uma complexidade além do comum que formam o alicerce para as estórias futuras sem tanta censura e que poderiam abordar enredos mais delicados de maneira mais explicita.
Curioso perceber que o mesmo ocorreu com a equipe de super heróis Patrulha do Destino da editora concorrente, a National Comics (ancestral da DC Comics) que tinham a mesma abordagem inicial de “heróis mais estranhos de todos” e, por isso mesmo, desajustados, mas que tinham estórias mornas no inicio até alcançarem toda uma reviravolta posteriormente com o “afrouxamento” do Comics Code Autority e roteirizados pelas mãos de Grant Morrison.
Justamente sob a batuta de Stan Lee temos a, talvez, maior genialidade, dos primórdios dos X-Men em traçar uma linha delicada e tênue entre o espírito aventuresco de uma época que se exigia histórias em quadrinhos que “não seduziriam os inocentes”, como sugeria o psiquiatra Werthan em seu livro, ao mesmo tempo em que estavam conectados ao contexto e questões que explodiam nos Estados Unidos naquela década de forte repressão e luta por igualdade de direitos.
Assim o grande mestre da Marvel Comics aprofundava a personalidade de seus personagens até onde podia, trazendo temas mais pesados com uma narrativa pontual e de sensibilidade impar, condizente a sua genialidade. Somos mostrados a um Magneto terrível e claramente maligno trajando roupas vermelhas com “pequenos chifres” em seu elmo querendo dominar a raça humana que ele enxerga como inferior, bem como temos um amadurecimento do antagonista revelando seu ódio pelo racismo a medida que a estória evolui tornando-se mais densa a medida que chegam mais revistas dos mutantes nas bancas.



Um ótimo exemplo dessa profundidade pontual se mostra na oitava revista dos X-Men quando o Homem de Gelo e o Fera estão nas ruas de Nova Iorque e encontram uma criança em perigo encima da caixa d’água de um prédio. Com o infante podendo cair a qualquer momento, Hank McCoy, ignorando até mesmo sua identidade secreta, decide usar seus dons mutantes para subir pelas pareces do edifício e salvar o garoto. A população acompanhando tudo o que acontecia pelas ruas deduz corretamente que Hank seria um mutante e decide atacá-lo movidos pelo ódio ao diferente e ao desconhecido. É demais para o intelectual McCoy que, indagando os motivos da equipe estar tão disposta a salvar justamente aqueles que os odeiam e questionando o sonho de Charles Xavier em uma coexistência pacifica entre mutantes e humanos, acaba (não por muito tempo, é verdade) abandonando seu grupo mutante.



Stan Lee mostra cada vez mais suas intenções com os jovens superdotados trazendo não apenas questões sociais da época (que por si só já destacariam muito suas estórias), mas também vários temas “na moda” do período como ficção cientifica, medo nuclear, aventura de exploração em paraísos selvagens perdidos e, claro, a eterna luta do bem contra o mal.
Outro contexto histórico recorrente nas histórias em quadrinhos da editora Marvel e claramente presente nos primórdios dos X-Men é a da Guerra Fria (1947 a 1991). Ora, não é um paralelo ao período tendo um Professor X preocupado não apenas em localizar mutantes para fazê-los compreender seus poderes e assim, quem eles são, mas também buscando recrutá-los para sua equipe antes que Magneto os convoque para a Irmandade dos Mutantes. Logo, uma referencia obvia aos “países estratégicos” que eram financiados pelos Estados Unidos capitalistas para que não se tornassem comunistas e, assim, aliados à União Soviética. Uma corrida armamentista e, as vezes, intelectual que foi responsável por encontrar e financiar cientistas e estudiosos para cada eixo que tinha um duplo objetivo. Atrair mais para sua ideologia e não permitir que a outra tivesse controle sobre aquele local específico ou descoberta científica.
Inexoravelmente não demoraria muito para a narrativa inocente e clichê fossem dando espaço para um aprofundamento das estórias e dos próprios personagens, heróis ou vilões, como o ótimo exemplo do arco do antagonista Lúcifer. Um antagonista até esquecível que seria mais um “vilão do mês” se não fosse pela narrativa de suspense bem orquestrada por Stan Lee que vai introduzindo o super vilão aos poucos e revelando seu passado ligado ao líder mutante Charles Xavier de forma intrigante e permanente. A mesma idéia é repetida poucas edições depois com o dito meio irmão (na verdade irmão adotivo) rancoroso do Professor X chamado Cain Marko, o Fanático, que se tornou um dos oponentes mais interessantes e imbatíveis dos X-Men até os dias atuais.
O Fanático traz ainda narrativas diferenciadas como uma desculpa para mostrarem um pouco da origem do professor Xavier, mostrando sua trágica infância com o meio irmão (fazendo jus a escolha dos autores pelo nome Cain) e esse arco aproveita para introduzir melhor os X-Men no Universo Marvel com aparições singelas do Demolidor e mais importantes como o Tocha Humana do Quarteto Fantástico. Claro que essas aparições combinadas já haviam ocorrido antes, como o caso da revista Tales of Suspense 49 em que o X-Man Anjo (Warren Worthington III) encontra o Homem de Ferro (Antonny “Tonny” Stark) e na própria revista dos mutantes The X-Men 09 com o surgimento dos Vingadores, mas não tinha sido tão bem trabalhado como agora contendo não apenas personagens, mas elementos das outras publicações da Casa das Idéias, como as famosas Faixas de Cyttorak (entidade presente nas estórias do Dr. Estranho) trazendo os elementos de crossover que fazem tão reconhecível a fórmula Marvel não quadrinhos e mais recentemente no cinema.
Também devemos destacar o clima colegial nas estórias da equipe mutante, onde os pupilos de Xavier são alunos de sua escola para jovens superdotados sendo treinados e até, eventualmente, se formando com direito a beca e diploma. Charles faz às vezes de professor exigente e “linha dura”, apenas da aparência frágil, que “não tolera atrasos” e testa constantemente seus estudantes chegando muitas vezes a abalar o limite emocional dos X-Men quando finge perder os poderes ou desaparece de vez em quando deixando os filhos do átomo perceberem que já podem caminhar sozinhos, e sem sua tutela constante, explorando a qualidade de Ciclope como líder de campo da equipe.
Próximo ao final da fase de Stan Lee temos os melhores representantes do amadurecimento da narrativa dos “jovens mais estranhos de todos”, o advento dos Sentinelas. Robôs de combate autoconscientes criados pelo antropólogo Bolivar Trash para conter a ameaça mutante que o próprio alardeou nos jornais sendo responsável pela histeria ante-mutante. Temos novamente todo um clima de Guerra Fria com um paralelo aos comunistas e ao macarthismo gerando, pelas palavras do próprio Professor X, uma caça as bruxas aos homo superior. Os Sentinelas representam, também, mais um exemplo da influencia da ficção cientifica nas estórias dos X-Men, principalmente quando se rebelam contra seu criador e chegam a conclusão lógica que para proteger os humanos dos mutantes deveriam governar o mundo e escravizar à todos. 



Estão nesses fatores; como trazer heróis e vilões com dilemas humanos e assim cultivar uma identificação maior com os leitores no melhor estilo Marvel, por abordar temas delicados e tensos em uma época de proibição e censura e por nos fazer refletir sobre questões que estavam em evidência no período e no contexto em que foram lançados; é que fazem dos fabulosos X-Men um diferencial importante para as histórias em quadrinhos e que se não tinham toda a popularidade e vendas nessa primeira fase como teriam bem posteriormente, temos aqui toda a base daqueles que seriam alguns dos super heróis mais aclamados não apenas pelos leitores de quadrinhos, mas por toda uma cultura pop que gerou filmes, desenhos, livros e uma verdadeira legião de fãs em todo o mundo.




Aguardem a segunda parte do Guia Definitivo dos X-Men: Ascensão Mutante!

domingo, 20 de novembro de 2016

Luke Cage e a Questão da Representatividade Negra


                Luke Cage é o terceiro personagem da Marvel Comics a ganhar uma serie própria da Netflix e, como foi nas revistas dos anos 70, é o primeiro personagem negro de histórias em quadrinhos a ter um título próprio. Esse fator, por si só, já faz a série se destacar entre os demais, junto com as musicas, o Harlem e um pouco da cultura Afro-americana, fazem com que Luke Cage tenha como tema principal não os super-heróis fantasiados, mas a representatividade negra em vários espectros narrativos.
            A série retrata a vida fictícia de Carl Lucas (Lucas Grant nas HQs originais e ambos alter-egos de Luke Cage) um ex-presidiário que passou por uma experiência cientifica na ilha-penitenciária de Seagate em troca da redução de sua pena, mas algo dá “errado” e Luke, interpretado por Mike Colter que já havia aparecido em Marvel’s Jessica Jones, acaba adquirindo poderes de super força, certo grau de regeneração e o mais marcante, pele invulnerável a quase qualquer tipo de ferimento.
            Entretanto, Cage não quer se tornar um super herói, principalmente devido à morte de sua amada Reva Connors, interpretada por Parisa Fita-Henley, e que também já havia aparecido na série da Jessica Jones. Assim ele foge da prisão e volta para o bairro do Harlem em Nova Iorque tentando, infrutiferamente, levar uma vida pacata trabalhando em uma famosa barbearia do parente da falecida Reva chamado de Henry Hunter, ou carinhosamente “Pop”, interpretado pelo excelente ator Frankie Faison.
            A série marca mais uma parceria do canal de streaming Netflix com a editora Marvel Comics e agora tendo o brilhante Cheo Hodari Coker como desenvolvedor, roteirista e showrunner.
Assim como nas séries anteriores, Luke Cage também é um personagem de Histórias em Quadrinhos e foi criado em 1971 por Archie Goodwin, George Tuska e John Romita sobre as idéias inovadoras de Stan Lee que queria “entrar na onda” dos filmes do inicio da década de 70 que tinham agora personagens negros, escritos para um publico negro por diretores e roteiristas negros.
Esse era o contexto do chamado Blaxsploitation.
A expressão veio da junção das palavras Black que significa preto ou negro e Exploitation que significa exploração, ou seja, Exploração Negra, mas no sentido de priorizar a comunidade negra dos Estados Unidos como consumidor principalmente de filmes, mas depois também de séries, livros e até histórias em quadrinhos. Esse se tornou um movimento com grande apelo e importância, pois os afro-americanos além de não se sentirem representados pelo cinema da época, os produtores viram uma chance de explorar toda uma cultura que ainda não tinha sido mostrada a contento.


Assim esse inovador estilo já contava com expoentes filmes como Sweet Sweetback de Melvin Van Peebles e Shaft de Gordon Parks, ambos também lançados em 1971 tendo como inspiração os antigos Race Films e indo na contra mão da industria hollywoodiana que na época raramente colocava negros como protagonistas em filmes ou, se colocava, era algo bem longe da realidade em que viviam os afro-americanos nesse período. Pouco depois o Blaxsploitation passou por uma fase antropofágica, muito semelhante a escola literária modernista brasileira, que visava pegar filmes já existentes e colocar protagonistas negros como foi Blácula (1972) de William Crain, The Black Godfather (1974) de John Evans e O Mágico Inesquecível (1978) de Sidney Lumet que, esse último, fez muito sucesso na época por contar com a participação especial de Michael Jackson e era praticamente o Mágico de Oz com personagens negros.
Entretanto, a questão não era apenas trazer personagens negros como protagonistas ou buscar atores, autores e diretores afro-descendentes para ter uma melhor caracterização dessas criações, mas também buscar toda a cultura afro-americana como contexto e enredo para que assim a comunidade negra finalmente pudesse se sentir representada no cinema, televisão ou qualquer outra mídia cultural.
Logo a Marvel Comics, que sempre tentava se manter atualizada as questões de seu contexto, trouxe na primeira revista de história em quadrinhos com um negro como personagem principal e tentou não apenas ter um personagem afro-descendente, mas levar como pano de fundo a cultura negra dos afro-americanos. Na verdade a empresa já tinha inovado com o primeiro personagem negro das HQs, o Pantera Negra, mas este, até então, aparecia como coadjuvante nas revistas do Quarteto Fantástico e por ser africano não havia uma identificação direta com os leitores dos Estados Unidos.
Assim Luke Cage vive no Harlem, bairro da cidade de Nova Iorque que nos anos 70 estava abandonado a degradação pelo Estado e embora vivesse no meio de as gangues criminosas e com criminalidade alarmante. Muitos bairros da periferia novaiorquina passavam pelos mesmos problemas como o caso do Bronx que também foi palco de explosões culturais que iniciaram um movimento artístico-cultural genuinamente afro-americano como o Hip Hop que acabou trazendo um pouco de paz aos jovens que tentavam fugir da violência e drogas que os cercavam de todas as maneiras, da mesma maneira que, tardiamente, se buscou reconstruir o Harlem.


O Harlem também seria explorado pela série da Netflix quase como um personagem próprio. A identidade do bairro novaiorquino é trazida de forma ainda mais marcante que foi trabalhada nas antigas HQs do personagem nos anos 70 e, embora tenha sido atualizada para os dias de hoje, trás antigas questões como a reconstrução do bairro e uma apologia a sua própria cultura.
Tudo isso novamente se entrelaça com o blaxploitation que a série parece trazer de volta com tantos atores, produtores e diretores negros bem como trazendo a cultura afro-americana representada pelo Harlem de maneira natural e sem muitos estereótipos não “denegrindo” ou romantizando demais os personagens negros que na série figuram tanto como heróis e vilões.
Talvez esteja na trilha sonora e nas músicas os melhores exemplos da cultura afro-americana sendo explorada na série, onde cada capítulo é dedicado a uma música ou álbum famoso que passa por alguns espectros da musica negra estadunidense sendo representada não apenas pelo Rap, como geralmente acontece nesses casos, mas também com o Soul, Blues e Jazz. A música não figura apenas como trilha, mas os cantores e bandas acabam realmente aparecendo na série, principalmente se apresentando no Harlem’s Paradise, a boate do vilão Boca de Algodão.
Todos esses detalhes trazem uma melhor imersão à narrativa da série e faz com que seja considerada uma das melhores, em termos de produção, desenvolvida pela Netflix para os super heróis da Marvel Comics. São músicas que não apenas embalam a cenas de drama e ação ou que são apresentadas apenas de forma comumente reduzida e até banalizada, como é recorrente em muitos filmes e séries. Em Luke Cage as músicas são apresentadas evidenciando que a cultura negra dos Estados Unidos é incrivelmente rica e diversificada. 
Assim sendo, a série da Netflix acaba tendo uma importância enorme e se tornando muito mais que apenas uma adaptação de super heróis das histórias de quadrinhos da Marvel Comics. Sua importância se mostra na representatividade, pois não apenas um garoto negro poderia se identificar melhor pelo personagem ser de sua etnia, como o Pantera Negra, por exemplo, mas mais que isso, Luke Cage era da periferia dos Estados Unidos e isso o trazia bem mais próximo do público.
Era um negro do Harlem vestido com moletom e capuz, que a mídia e a sociedade o colocaria como estereótipo de bandido, mas aqui Luke era um herói ou parafraseando o vilão da série, era o Capitão América do Harlem.
Na mesma forma que os quadrinhos dos anos 70 buscaram uma maior representatividade negra, a série da Netflix também vai pelo mesmo caminho buscando além das referencias quadrinísticas, mas tendo a sensibilidade de entender como esse tema estava em foco nos dias de hoje, recriando e modernizando a representatividade do blaxsploitation junto a temas mais atuais, talvez esperando ter o mesmo efeito ocorrido no passado. Um garoto negro pode muito bem sair do cinema tendo o Capitão América como herói, mas agora poderia ter um herói muito mais parecido com o jovem também, um protagonista que, como ele, poderia ser preconceituosamente confundido com um marginal comum andando pelas ruas.


Assim Luke Cage se torna a alma do Harlem e, apesar de todos os esforços do Boca de Algodão em desmoralizá-lo, o bairro se identifica com Luke fazendo os episódios da segunda metade da série sejam vibrantes e servindo como uma alegoria perfeita para a intenção dos produtores em mostrar a importância e atualidade da série de modo muito semelhante ao contexto do lançamento dos quadrinhos originais.
A busca do proprietário do Harlem’s Paradise e vilão Stokes, brilhantemente interpretado por Maharshala Ali, em destruir a imagem moral do herói pode ser a única resposta que o antagonista tinha de derrotar um Luke indestrutível e muito mais poderoso que ele mesmo. Faz parte da narrativa construída pelas séries da Netflix onde cada vilão parece ter um foco de ataque, como Fisk atacou a imagem do Demolidor ou Killgrave agredia psicologicamente a Jessica Jones, mas no caso do Boca de Algodão o ataque moral se encaixa perfeitamente na idéia de representatividade e evidencia os preconceitos e tentativa quase impossível de alguém da periferia viver alheio ao meio de ilicitude e buscar um caminho mais honesto.
A representatividade realmente é o foco da série, como deveria ser, e mesmo tendo um protagonista mulherengo, e assim sendo, de narrativa muitas vezes machista, temos várias mulheres fortes sendo representadas quase sem os clichês do gênero. Temos, como exemplo de heroína, uma policial chamada Misty Knight, interpretada pela Simone Missick, que é honesta em uma corporação corrupta e de sexualidade bem resolvida; bem como temos a vilã manipuladora e política Mariah Dillard que encontrou na atriz Alfre Woodard uma interpretação perfeita.
Estão em todos esses esforços; a música e o tema buscando e modernizando suas origens bem como toda a homenagem a cultura afro-americana, o que fazem Luke Cage estar entre as melhores séries da Netflix e, se não tem uma estória tão envolvente como as outras da parceria com a Marvel, está é a de melhor produção sem dúvidas. Uma importância social que amarra todo o enredo da mesma forma que fizeram em Jessica Jones, mas em uma produção ainda mais bem trabalhada e acertada.
Infelizmente vários aspectos dos quadrinhos foram esquecidos como fato de Luke ter sido um Herói de Aluguel, ou seja, oferecendo sua ajuda por um preço. Temos pequenas referencias a isso na série, mas Luke não chega a atuar como tal. Este fator pode muito bem ter ocorrido devido à busca pelo foco da representatividade, mas é triste ver o quanto o personagem poderia ter crescido durante os episódios se partisse do ponto de cobrar pelo seu auxilio e talvez perto do final ser um herói sem essas amarras ou apenas nunca exigir pagamento das pessoas do Harlem como nas HQs. Poderia ser um desenvolvimento que tornaria a primeira metade da série menos parada e buscaria já uma referencia com a próxima série do Punho de Ferro, pois esse era o parceiro de Luke nas estórias dos Heróis de Aluguel.


No entanto, talvez tenhamos que parabenizar e agradecer que os produtores não tenham usado todas as referencias dos quadrinhos e passado bem longe da fase da Marvel Max do personagem. Embora tenha sido escrito pelo brilhante roteirista Brian Azzarello, Luke Cage do selo adulto da Marvel não teve poucas edições a toa. Arcos cheios de preconceitos de uma periferia estereotipada que nos traz estórias fracas e com nenhuma intimidade ou reconhecimento com as comunidades negras estadunidenses. Foi à contramão de tudo que tinha sido construído com o personagem e devidamente esquecida em revistas posteriores. Quem sabe a série ter bebido da fonte blaxsploitation e colocado produtores não apenas negros, mas que entendem da realidade do Harlem e a revista buscar um ótimo roteirista, mas de outra realidade, não nos faz refletir ainda mais sobre a importância da representatividade?
Finalmente temos mais uma ótima série baseada em histórias em quadrinhos; se não pelo roteiro, mas pela produção e importância; que nos traz bem mais do que combates e referencias super heróicas, mas questionamentos importantes que tinham tanto significado nos anos 70 e continuam até hoje martelando sobre a importância da representatividade e os espaços que os negros têm na cultura pop.     

domingo, 30 de outubro de 2016

Guia Definitivo dos X-Men



Os Fabulosos X-Men apareceram pela primeira vez nas Histórias em Quadrinhos em sua própria revista da Marvel Comics em setembro de 1963. Criados por Stan Lee e Jack Kirby, esses jovens superdotados já nasceriam com poderes que se desenvolveriam na puberdade como uma forma mais simples e menos trabalhosa de se explicar de onde vêm os poderes desses novos super heróis e vilões. No entanto, a história acabou por enveredar por temas mais profundos como aceitação e racismo que logo ficou como enredo principal e condutor das estórias dos mutantes e alcançando temas mais atuais como o da representatividade não apenas étnica, pois os personagens seriam usados como uma analogia para todos os tipos de minorias perseguidas.
Uma discutição muito presente nos anos 60 que até hoje tem importância enorme na sociedade e cultura tanto dos Estados Unidos como no Brasil.
Entretanto muitas mudanças ocorreram no universo dos “mais incomuns super heróis de todos os tempos” e, principalmente, para aqueles que os conheceram mais recentemente, é complicado acompanhar toda sua cronologia confusa e cheia de reviravoltas nesses mais de cinqüenta anos de publicações que já foram o principal título da editora e seu universo rendeu inúmeros filmes, desenhos e até uma série.
Logo se faz necessário um guia de leitura, mas não como muitos que são encontrados facilmente na internet, pois além de apresentar as principais fases e sagas dos filhos do átomo, também cabe comentar cada etapa com uma contextualização histórica do período lançado e com criticas pontuais levando em conta a repercussão de cada estória e as suas influencias na cultura pop.
Assim esse guia trará os arcos principais desenvolvidos por alguns dos melhores argumentistas e roteiristas da Marvel Comics como Stan Lee, Chris Claremont, Mark Waid, Grant Morrison, Joss Whedon, Brian Michael Bands entre outros. Visitaremos estórias clássicas dos primórdios da super equipe passando por arcos como Dias de um Futuro Esquecido, A Saga da Fênix Negra, O Massacre dos Mutantes, Programa de Extermínio, A Era do Apocalipse, Massacre, E de Extinção, Surpreendentes X-Men, até a fase da Nova Marvel.
O objetivo desse guia não será esmiuçar cada enredo cheio de spoilers e detalhes da trama, mas resenhar cada arco para que ajude aqueles que não puderam acompanhar a toda essa cronologia, bem como relembrar ou ajudar no acesso as publicações mais icônicas ou marcantes da equipe dos pupilos de Charles Xavier.
Todas organizadas de forma cronológica com informações extras que ajudam muito no entendimento, ou melhor aproveitamento das HQs revelando os objetivos de cada autor, contexto histórico do período que influenciou nas revistas e relevância para o cenário das Histórias em Quadrinhos.



Primeira Parte do Guia Definitivo dos X-Men - A Gênese Mutante


Aguardem as futuras postagens com o marcador GUIA DOS X-MEN...

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Alias: Jessica Jones - Feminismo e os Relacionamentos Abusivos



Jessica Jones é uma série da parceria Marvel e Netflix sobre uma ex-heroína fracassada que tenta reconstruir sua vida depois de um trauma muito profundo onde busca consolidar sua nova carreira de detetive particular. Sentindo-se culpada por um passado terrível  que abala seu equilíbrio e afeta profundamente sua autoestima tornando-a muito fraca para bebidas e desenvolvendo uma personalidade sínica ao melhor estilo de Humphrey Bogart em Casa Blanca (1942). De fato a série usa muitos elementos dos antigos filmes Noir mostrando que uma estória de super heróis pode ser bem peculiar para as atuais produções tanto televisivas como cinematográficas.
A mesma idéia diferenciada se mostra na história em quadrinhos de Brian Michael Bands e Michael Gaydos chamada Alias onde a série se baseou. Assim, em meio a uma Marvel cheia de exageros heróicos, Bands mostrou um roteiro afiado que buscava um tema mais personalista e cheio de palavrões com a ajuda de Gaydos que tinha um traço mais sóbrio e realista com trejeitos do cotidiano que não condizia com que a Marvel Comics fazia na época, mas também não poderia ser totalmente descartado.
Aproveitando, então, o fim do Comics Code Authority que censurava os quadrinhos desde a década de 50 a editora resolveu criar seu próprio código de classificação etária para suas revistas. Inspirada no selo Vertigo da editora concorrente é criado em 2001 o selo Marvel Max onde poderia comportar quadrinhos mais adultos como a nova Jessica Jones e antigos personagens como Luke Cage, Viúva Negra e posteriormente o Justiceiro poderiam migrar para um selo que comportassem melhor suas estórias e enredos mais urbanos e profundos.
Entretanto, ao mesmo tempo que temos uma atmosfera mais madura e realista em Alias com, até mesmo alguns elementos Noir, Bands se esforça muito para colocar sua nova personagem Jessica Jones dentro do Universo Marvel recorrendo a aparições diretas do Capitão América, Miss Marvel e do Demolidor, por exemplo. Chegando a criar um passado de Jessica como a super-heroína Safira parte integrante dos Vingadores e digna de um uniforme apertado e brega como eram na época. Nessas estórias de origem o desenhista Michael Gaydos chega a perfeição emulando os traços dos antigos mestres Steve Ditko e Jack Kirby que desenhavam vários heróis Marvel e fizeram muito sucesso nas décadas de 60, 70 e 80.
Foi nesse contexto que Jessica Jones surgiu na série Alias, a primeira da Marvel Max, com sua narrativa detetivesca, lindas capas de David Mack onde Bands e Gaydos puderam mostrar que é possível fazer uma estória adulta e profunda tentando fugir dos clichês de super heróis, mas que mesmo assim não precisaria criar todo um universo a parte criticando os quadrinhos mainstrem da época e ao mesmo tempo participando do mesmo sendo quase autoral e marginal.
Michael Bands teve a sensibilidade de criar uma personagem feminina forte sem cair no péssimo atalho de colocá-la masculinizada e ainda abordando temas pertinentes como o feminismo, mas sem levantar uma bandeira ou fazer da personagem uma militante, o que poderia encontrar resistência dos leitores e exageros. Jessica apenas reage com uma intolerância natural ao sexismo em várias situações infelizes do nosso cotidiano como na memorável cena que a detetive se vê questionando revistas ditas escritas para o publico feminino que contem uma forte expressão da ditadura da beleza e obviamente conta com o desagrado de Jones e uma auto reflexão.



O feminismo é assim abordado suavemente e por vezes com mais profundidade e força bem como a personificação de Jessica sendo uma mulher forte de liberdade sexual e trajando roupas (ou em posições) nada sensualizadas que, além de sua importância e representatividade, acaba por render narrativas ótimas que fariam Bands ser reconhecido como um ótimo escritor e fez Alias ganhar dois Harveys e ser indicada a dois Eisners.
No entanto, é apenas no arco final da história em quadrinhos, Púrpura, que somos apresentados ao maior antagonista de Jessica Jones, Zebediah Killgrave. Personagem já antigo da editora Marvel e vilão do Demolidor, apesar do poder absurdo de convencer as pessoas de fazer o que ele quer, Homem Púrpura nunca tinha sido muito bem aproveitado até esse momento.
Killgrave acaba se tornando a personificação do homem machista em um relacionamento abusivo onde seu próprio poder faz uma alegoria para o domínio que alguns homens exercem sobre a mulher nesse tipo deturpado de relação adquirindo controle de tudo sobre a parceira sempre a diminuindo e ditando suas ações.
Talvez por ser uma mulher, Melissa Rosemberg, a desenvolvedora, ou simplesmente por vir depois, assim em outro contexto e com mais reflexão, a série da Netflix teve uma maestria muito maior em abordar os Relacionamentos Abusivos na figura do vilão e desenvolveu o Homem Púrpura, aqui interpretado pelo brilhante David Tennant, com muito mais profundidade e qualidade.
Deixou-se de lado a metalinguagem e quebra da quarta parede que Killgrave faz nos quadrinhos, responsável pela critica clara as estórias de super heróis, junto com a pele púrpura para entrar um vilão que vai crescendo no decorrer do desenvolvimento da série dando uma sensação cada vez mais claustrofóbica e angustiante sem ao menos aparecer nos primeiros episódios.
Até nisso a Netflix acerta mostrando lentamente todo o trauma de Jessica, muito bem interpretada pela Krysten Ritter, que sua paranoia se justifica e aumenta a medida que percebe seu antagonista por traz de todo enredo tornando uma ótima oportunidade para mostrar o abalo psicológico que um relacionamento abusivo pode causar nas mulheres até mesmo anos depois do ocorrido. É aqui que entendemos muito da personalidade da protagonista e torna esse o principal de muitos acertos da adaptação sobre a obra original.
Tanto nos quadrinhos como na série do canal de streaming o Homem Púrpura era um personagem muito difícil de trabalhar, pois foi criado em meio um período muito exagerado e até infantil dos quadrinhos. Nada de errado nisso, mas esse não era o tom que se queria agora em uma estória mais madura. Ainda mais com o sucesso avassalador de Vincent D’Onofrio ao interpretar o Rei do Crime Wilson Fisk em Demolidor, a série imediatamente anterior da parceria Marvel e Netflix.
Mais que contratar o ótimo Tennant o roteiro tinha que ser muito bem pensado e a resposta foi toda essa atmosfera criada para revelar o vilão e a forma inteligente, perigosa e esguia que ele se mostrou na série até seu desfecho inexorável nos últimos episódios e que também serviu para mostrar ainda mais um tema feminista, o empoderamento da personagem principal.
Jessica Jones fragilizada por tudo que Killgrave a fez passar, sem autoestima e com pecados do passado em que ela acreditava ser a responsável, tinha que enfrentar seu antagonista apesar de todo o pavor que ele a fazia sentir. Não era apenas um desafio de lutar contra o vilão, mas uma reflexão de seu próprio papel no mundo e um enfrentamento de todos seus medos internos, pois o Homem Púrpura não apenas a violentou, como é melhor explicado nos quadrinhos, mas mais bem trabalhado na série de como isso perturba Jessica. Mas como a personagem mesmo diz, ela foi abusada não somente fisicamente, mas muito psicologicamente.
Essa talvez seja a sensibilidade trazida pela Rosenberg na estória e com certeza o melhor da série em comparação aos quadrinhos. Falar sobre abusos, violência a mulher e estupro de uma maneira tão respeitosa e não apelativa para ter audiência. Se precisarmos falar de estupro, se isso é fundamental tanto na estória como no contexto atual, falaremos de todas as formas possíveis, mas com maturidade e sem querer apenas chocar o público levianamente.
Esse é muito dos acertos da Netflix bem como sua relação com Luke Cage que poderia ser mais uma armadilha para desviar o foco da narrativa, mas acabou por se tornar um de seus pontos fortes. O personagem interpretado por Mike Colter é antigo nos quadrinhos, bem mais que Jessica e poderia a primeiro momento tomar pra si as atenções ou pior ainda, poderia acabar pro representar o velho clichê do cavaleiro que salva a mocinha, mas esse não é o caso. Jessica, apesar se seus sérios problemas, não é uma mocinha indefesa que precisa ser salva. No entanto, Cage poderia cair no vicio de narrativa contrário que muitas estórias com mulheres fortes acaba tendo. Cage poderia ser a mocinha em perigo salva pela paladina Jessica Jones, mas isso também não ocorre, pois seria um erro terrível dada a força e invulnerabilidade não apenas física pelos poderes de Luke, mas pelo seu próprio caráter. Logo a série o trata como deve ser, ou seja, um personagem coadjuvante. Nem salva Jéssica e nem é resgatado por ela. Apenas está ali pela sua importância na trajetória da heroína sem ser diminuído e sem eclipsar a protagonista em mais uma mostra da maestria dos autores da série.
Luke Cage é importante, mas não o responsável pela emancipação de Jessica Jones.
Outros personagens da série são igualmente profundos e bem equilibrados como a advogada Jeri Hogarth interpretada pela Carie-Anne Moss que faz uma mulher poderosa e homoafetiva, mas mesmo assim é passível de defeitos. Tem uma amante traindo sua esposa e com certeza tem sérios problemas com as relações de poder chegando a se mostrar superior e humilhando suas parceiras. Logo, de certa forma, também mostra outra faceta de um relacionamento abusivo.



Talvez seja em relacionamentos abusivos o tema principal da série, pois mais personagens aparecem relacionados a esse contexto em todas as suas formas, como os vizinhos de Jessica, o policial Simpson que é interpretado por Wil Traval e que também é um personagem inspirado nos quadrinhos chamado Bazooka (vilão do Demolidor), mas principalmente a personagem de Rachel Taylor chamada Patricia “Trish” Walker.
Embora Trish também seja uma personagem distinta das revistas da Marvel a personagem parece muito inspirada na melhor amiga de Jessica nas HQs a Miss Marvel da época chamada Carol Denvers, pois ambas são personagens fortes e muito determinadas, mas Trish parece ter algum histórico de um antigo relacionamento também abusivo que ela deve ter vencido em algum momento do passado e talvez tenha colaborado com sua personalidade marcante e cheia de iniciativa.
Ao mostrar tantas mulheres nesses terríveis relacionamentos, na maioria das vezes como vitimas, mas algumas vezes, mesmo que poucas, também como controladoras ambiciosas e condutoras de abusos como o caso da personagem de Moss que apesar de ser uma perseguidora de justiça tem sua visão nublada pelo próprio ego inflado e corrompido pelo pequeno poder que possui.
Logo percebemos que a profundidade que o quadrinista Brian Michael Bends criou nos 28 números da revista Alias foi profundamente ampliado pela  desenvolvedora Melissa Rosenberg na série Jessica Jones da Netflix trazendo uma obra impar que se não foi melhor produzida que seu irmão mais velho Demolidor, tem temas a assuntos muito mais maduros, diferenciados e importantes para o público.

A representatividade que Jessica Jones trás não é simplesmente em ter uma super heroína forte, não sensualizada ou pior, masculinizada em meio a cultura pop nerd que já mostrou ser muito preconceituosa e machista. Se fosse apenas isso a série já seria impar na cultura pop, mas a serie da parceria Marvel e Netflix teve a sensibilidade de trabalhar temas tão pesados e complicados de abordar usando uma narrativa bem colocada e muito bem elaborada por parte dos desenvolvedores e produtores tal qual foi em 2001 com a criação do selo Marvel Max e a obra original Alias.

sábado, 17 de setembro de 2016

Homem-Animal de Grant Morrison e o Ativismo Ecológico



Grant Morrison comandou a que é considerada a melhor fase do Homem-Animal nas revistas The Animal Man 01 a 26 e na revista Secrets Origins 39 e, como seria conhecido do autor posteriormente, todas suas estórias são uma profusão de temas ligados por um fio condutor nem sempre muito visível ou claro para os leitores.
Temas filosóficos, a quebra da quarta parede, dramas familiares, o multiverso, alienígenas, xamanismo, desenhos animados, a busca pelos próprios ideais e conquistas pessoais entre outros são abordados por Morrison, mas talvez o mais importante e seu objetivo principal esteja em algum lugar entre a defesa dos animais, ecologia e vegetarianismo.
Tais assuntos poderiam muito bem cair no clichê, já que os temas ecológicos estavam ganhando força no final dos anos 80 e nos anos 90, ou poderiam ser abordados de maneira superficial, forçada e piegas, mas com certeza não é o que acontece em Homem-Animal.
O Ativismo Ecológico é abordado de maneira crua, embora gradual, que vai se tornando cada vez mais visceral na narrativa e faz o leitor se sentir entrando em um verdadeiro atoleiro de sujeira das industrias alimentícias e de corporações que fazem pesquisa cientifica com animais. Com certeza é um tema muito forte e a liberdade que Morrison teve para trabalhar veio muito do momento que os quadrinhos passavam naquela época.
Os leitores dos Estados Unidos já estavam se saturando das mesmices de revistas de super-heróis e buscavam novas leituras. No entanto, a Inglaterra via seu florescimento de novas historias em quadrinhos com abordagens diferenciadas mesmo para temas heróicos e alguns autores estavam ganhando muita notoriedade.
Assim, a DC Comics decidiu investir nesses novos quadrinistas em uma iniciativa que futuramente seria chamada de Invasão Britânica. A editora contratou esses autores para escrever nos Estados Unidos entregando apenas personagens de segunda linha não muito expressivos que estavam para serem cancelados e assim podiam trabalhar com mais liberdade e originalidade do que fariam com os heróis principais da empresa.
Foi quando Allan Moore escreveu em O Monstro do Pântano, Neil Gaiman em Sandman e consecutivamente Grant Morrison foi escrever em Homam-Animal. Claro que todos fizeram um sucesso tremendo tornando seus nomes e as revistas muito aclamadas pelos leitores e de tão diferenciadas eras as estórias que a DC Comics acabou criando um novo selo de publicação chamado Vertigo para temas mais adultos e alterando para sempre o mercado de Histórias em Quadrinhos.
Grant Morrison pode então testar toda sua genialidade em temas que nunca um super herói alcançou e transformou o duble de cinema suburbano e caçador nas horas vagas, Buddy Baker em um ativista da causa dos animais, defensor da vida natural e vegetariano de maneira orgânica que faz o leitor não apenas se divertir com a revista, mas também refletir sobre questões tão pertinentes naquele momento e que está presente hoje em dia. Até mesmo quando o personagem surta e briga com sua própria esposa para não mais trazer carne para dentro da sua casa, os leitores entendem totalmente o que o faz agir de maneira tão radical.
O autor faz com que o Homem-Animal busque conciliar seu papel como pai de família que tem que ajudar no sustento da casa e ao mesmo tempo ser um super herói famoso e buscar o seu sonho que é entrar para a Liga da Justiça. Morrison também o faz encontrar com seu lugar no mundo criando uma empatia com os animais, que antes eram apenas a fonte dos super poderes do personagem, e que agora Buddy Baker os enxerga como seus iguais e tão merecedores de viver em felicidade no mundo como qualquer outro ser humano.
Esta comparação entre animais e o chamado humano atinge sua maestria quando Grant Morrison trabalha na origem do Homem-Animal o colocando em meio a experiências alienígenas que despertaram seus poderes em uma clara alusão as experiências cientificas que mutilam animais na desculpa que querem avançar no combate a doenças com novos “milagres” farmacêuticos.
A forma que Buddy Baker é jogado, sem chance de escolha ou reação, a essas experiências nos faz refletir na maneira fria e muitas vezes cruel como tratamos os animais e as questões de preservação da natureza. Assim como não nos importando com o destino do próprio planeta em que vivemos e dos seres outros em que o compartilhamos de forma tão abrupta e leviana.

Reflexões e ponderações que trás um gosto amargo em nossa boca e faz a estréia de Grant Morrison no mercado estadunidense de quadrinhos ter sido tão aclamada e sendo tanto a base da popularidade do personagem como de seu próprio autor que, no final das contas, talvez seja mais uma interpretação de metalinguagem deliberada do próprio Grant Morrison presente em Homem-Animal.

sábado, 27 de agosto de 2016

X-Men: A Saga da Fênix Negra e a Apologia a Pena de Morte


A fabulosa saga dos “Filhos do Átomo” iniciada em setembro de 1979 e teve sua polêmica conclusão um ano depois na The Uncanny X-Men 137. Escrita por Chris Claremont, que estava se consolidado como autor definitivo dos “heróis mais estranhos de todos” com ajuda no roteiro de John Byrne que já tinha se destacado também como desenhista da revista dos mutantes.
Era literalmente a porta de entrada para os anos 80 e toda uma revolução que ambos iriam fazer nas Histórias em Quadrinhos fundamentando o alicerce para que a equipe de Charles Xavier se tornasse literalmente o “carro chefe” da Marvel Comics e que resultou em toda a popularidade dos X-Men anos 90.
Não é segredo para ninguém que A Saga da Fênix Negra é um dos arcos mais bem quistos tanto entre os fãs dos mutantes bem como de toda Marvel. Nesse exato um ano de mensais dos X-Men figuram sempre em posição privilegiada entre qualquer lista das melhores revistas tanto da editora Marvel quando de Histórias em Quadrinhos no geral e não é para menos.
Uma das obras principais dos “Filhos do Átomo” que levou não somente os X-Men a enfrentar uma das piores ameaças do Universo Marvel, pois a entidade cósmica destruidora de galáxias conhecida como a Fênix não era “apenas” uma ameaça inexorável, mas também tinha possuído e mantinha como receptáculo a então mais querida de todos os membros da equipe... Jean Grey, a Garota Marvel.
Para os X-Men enfrentar a Fênix Negra era ao mesmo tempo enfrentar sua melhor amiga e esse dilema permeou toda a Saga gerando um paradoxo terrível entre combater um de seus membros ou deixar que toda a existência fosse ameaçada. Uma dicotomia moral ainda pior para o líder de campo da equipe mutante chamado Ciclope, pois este estava entre o amor de sua vida e todo sonho e ética heróica em que ele mesmo foi construído.
Tudo fica ainda mais complicado na fatídica The Uncanny X-Men 135 em que a Fênix Negra para se “alimentar” acaba por devorar uma estrela que era como o Sol para todo um planeta alienígena habitado que acaba por conseqüência também sendo destruído no processo, ou seja, a Garota Marvel tinha cometido um genocídio horrendo com o poder quase absoluto que tinha naquele momento.
Tão conhecida é essa história em quadrinhos como também é o seu controverso final. Estampada em todas as reimpressões encadernadas e de luxo pelo mundo. Hoje um chamariz para novos leitores... Jean Grey, a Fênix Negra morre.
Morre condenada pelo crime inaceitável de exterminar toda uma civilização planetária apenas para restaurar suas energias. Acusada e julgada pelo Império Intergalático Xiar e defendida pelos X-Men, mas mesmo assim sentenciada e executada a Pena de Morte.
Durante uma entrevista os autores relatam que tinham outros planos para a Garota Marvel. Falam que como ela estava praticamente possuída por uma entidade desconhecida vinda de algum ponto da imensidão do espaço, a jovem mutante não tinha consciência dessas ações e não era totalmente responsável.
Entretanto Jim Shooter, então editor da Marvel Comics não compartilhava da mesma visão e acreditava que a Fênix Negra e conseqüentemente sua hospedeira,Jean Grey, deveria morrer para “pagar pelos seus atos” de crueldade desumana.
A qualidade ou não desse final foi muito debatido durante anos fazendo legiões de fãs pedirem a volta da Garota Marvel e forçando a editora a trazê-la de volta de uma forma pouco crível e bem questionável. No entanto, é justamente a questão da punição que a personagem mutante recebe que nos leva a reflexões mais profundas sobre nosso entendimento de justiça.
Chris Claremont revela em entrevistas posteriores que faria Jean Grey lembrar para sempre dos crimes que tinha cometido possuída pela entidade cósmica e esses fantasmas a perseguiriam de forma avassaladora para o resto da vida. Uma punição que muitos veriam como bem mais apropriada.
Então porque a Pena de Morte?
Qual é o momento em que a Cultura Ocidental entendeu a morte como justiça e, o mais importante, depois de tantos debates sobre a reintegração de ex-criminosos na sociedade ainda temos o autoproclamado, maior representante da democracia não só praticando a Pena de Morte como tendo sua defesa na maioria da população hoje.
Nos Estados Unidos 34 dos seus 50 estados ainda possuem a pena capital e em alguns casos é executado com alarde e tendo as famílias lesadas pelos condenados assistindo quase como um estranho espetáculo. No entanto, podemos observar que essa prática está na Cultura Estadunidense por influências bem mais antigas.
A Pena de Morte está presente desde a Antiguidade tendo como representantes a Grécia e Roma Antiga, ou seja, algumas das culturas geminais do ocidente. Antes disso o famoso Código de Hamurabi, talvez o primeiro conjunto de leis escritas, já prevê a pena capital para quase 30 crimes diferentes na região da Mesopotâmia desde aproximadamente o século XVIII a.C.
Essa pratica sobreviveu durante toda a Idade Média, seja como justiça dos lordes feudais como suas contrapartes religiosas dentro do Tribunal do Santo Ofício ou simplesmente Inquisição. Bem como foi muito lembrada pelos reis absolutistas na Idade Moderna e continuou “expandindo” no Período do Terror ou na França pós revolução e inicio da Idade Contemporânea, apesar de pensadores iluministas como o italiano Cesare Beccaria defender a pena capital como lei tirânica.
Logo A Saga da Fênix Negra pode ser vista como uma representação cultural do senso de justiça estadunidense que entende como legitimo a Pena de Morte para determinados delitos. Crimes vistos como hediondos pela sua sociedade que além de não ser passível de recuperação do detento, deve ser apreciado pelas vitimas sendo quase como uma vingança dos honestos e justos. Uma visão em que o Estado e Justiça devem punir o criminoso e não reintegrá-lo a sociedade.
Claro que naquela época como hoje os Estados Unidos ainda discutem sobre a viabilidade da Pena de Morte e cada vez mais seus estados tem abandonado a pena capital como método meramente eficaz, pois a Pena é aplicada justamente nos estados mais violentos gerando outro paradigma ideológico. Será que esses estados são mais violentos justamente por ter a Pena de Morte ou por serem violentos é que se faz necessária tal pena capital?
A chamada Cultura de Pena de Morte, ou seja, visão de justiça como punição ou vingança das vítimas, está presente e se perpetuou por muito tempo no Ocidente (e digo Ocidente apenas como um corte geográfico que gerou a revista em questão, pois a pena de morte também é aplicada deliberadamente por uma profusão de instituições de justiça orientais) quase ignorando todas as discussões levantadas pelos Direitos Humanos e até antes mesmo, sobre a redenção e a crença da reintegração social.   
Assim o arco A Saga Da Fênix Negra é um fruto de manifestação cultural gerado em um contexto estadunidense de justiça e que pode nos fazer refletir, mesmo que não intencionalmente ou indiretamente, sobre os dilemas e teorias sobre entender ou não a pena capital como modo legitimo de justiça.

Podemos observar então, a importância da indústria cultural para a formação do cidadão incluindo no tocante das Histórias em Quadrinhos, uma vez tão subestimada até mesmo como forma de arte e hoje parece ser revisitada como genuína manifestação artístico-cultutal seja dentro do seu período histórico ou como meio de educação a apreciação.