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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Flor de Lótus


O rio levava suavemente as pétalas brancas de cerejeira enquanto provocava um ruído baixo que acalmava os dois. Mestre e Aluno. Ambos contemplavam a beleza da natureza e o espetáculo que os Deuses lhes proporcionavam aquele dia.
Entretanto era outra flor alva que chamou a atenção do discípulo. Perto da beirada do rio estava uma, apenas uma, Flor de Lótus. Era lindo ver as flores caídas da árvore tocá-la delicadamente.
O espadachim respirou fundo. Fechou os olhos e tentou se harmonizar mais uma vez com o universo à sua volta. Meditou. Descobriu que não conseguia manter a mente vazia, como deveria, pois vinha sempre a imagem da Flor de Lótus.
Abriu os olhos.
- Mestre?
- Sim?
- Não consigo meditar!
- Por quê?
- Não me sai da mente aquela Flor de Lótus...
O aluno apontou para a flor e o mestre olhou admirado que tal beleza tinha sido percebida por seu jovem samurai e não por ele mesmo!
- Uma Flor de Lótus! – exclamou o velho mestre. – Sabia que esta planta é considerada sagrada na Índia?
- Não!
- Claro que não sabia! Não é mesmo?
O discípulo abaixou o rosto envergonhado. Era bom com a espada. Considerado o melhor de todo Japão. No entanto, faltava-lhe a cultura que era exigida dos outros samurais, pois tinha se dedicado muito ao caminho da espada.
- Não se preocupe! – tranqüilizou o mestre. – Vou lhe contar a história.
O velho se sentou, com as pernas cruzadas, em frente ao jovem. Era uma postura estranha, pois a forma respeitosa de um samurai se sentar era sobre os joelhos. O espadachim titubeou, mas fez o mesmo.
- Essa flor, meu jovem, está ligada ao grande Buda. Existe uma base para se sentar, esta que estamos usando, que é chamada pelos indianos de postura da Flor de Lótus. Foi assim que Buda atingiu seu estado mais elevado e chamamos esta forma aqui de Seiza no Kamae. Mas desconfio que esta base seja anterior ao budismo.
O aluno tentou manter a posição, mas percebeu o quanto era difícil. Perseverante, continuou firme tentando imitar seu mestre que voltou a falar:
- A mística sobre essa planta está na forma que ela cresce. Veja! – o velho apontou para a planta – A Flor de Lótus nasce na beirada do rio, em meio a toda lama. Mesmo assim ela desabrocha, sobre a água, ainda branca e límpida!
- Impressionante! – surpreendeu-se o discípulo. – Como se a sujeira que tem em sua volta não maculasse suas pétalas!
- Exatamente! – animou-se o mestre. – Exatamente! Mesmo que todo o mal nos cerque, que todas as impurezas nos rodeiem, devemos ser como a Flor de Lótus! Devemos sempre nos manter puros!
- Sim, eu entendo!
- Este é o caminho da espada! O caminho da perfeição! O caminho do guerreiro!
- Bushido!
- Correto! Diminua, reflita e aprenda!
Ambos se levantaram em silêncio. Estavam cansados. O aluno imaginava que as lições tinham acabado naquele dia, mas o mestre sabia que sempre existiam mais a aprender. Caminharam calmamente para a ponte a fim de voltar à vila.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Cerejeira


O grande guerreiro estava sentado taciturno em frente à exuberante árvore de cerejeira. Era talvez o mais hábil dos samurais do Imperador. Um especialista na técnica de Iaijutsu, ou saque rápido com sabre. O mais mortal dos estilos de luta.
Ali, sentado sobre os joelhos, ele meditava sobre as palavras de seu mestre, que se encontrava logo atrás, imaginando se estava no caminho certo. O caminho da espada!
Tinha vencido muitos inimigos e eram tempos negros aqueles realmente, mas era conhecido como o melhor dos espadachins de seu tempo. Isso o fazia ser um homem orgulhoso e confiante, algo que vinha preocupando seu mestre.
Lentamente ele abriu os olhos e viu as flores alvas que delicadamente descansavam sobre os galhos finos, mas firmes, da Cerejeira. O vento soprava tão suavemente que ainda não tinha derrubado nenhuma daquelas lindas pétalas no chão.
O guerreiro ficou impaciente e resolveu golpear o tronco da árvore com o cabo de sua espada.
Surtiu efeito!
As flores começaram a cair pelo impacto do golpe e finalmente o homem se pôs de pé e golpeou novamente a fim de cortar as flores que caíam suavemente.
Mas as pétalas foram levadas pelo vento do norte e, como se fosse uma ação deliberada, desviaram do fio da lâmina do samurai.
Aquilo não estava certo! Ele estava errando em algo e, voltando a se sentar, contemporizou sobre sua falha. Logo percebeu que sua falta estava em golpear duas vezes, uma para fazer as flores caírem e outra para golpeá-las.
Sim! Muita energia era perdida no primeiro golpe. O espadachim deveria esperar pacientemente que o próprio vento derrubasse as pétalas. Devia deixar a natureza seguir seu curso.
O samurai fechou os olhos e pôde sentir o vento percorrer-lhe a face. Ouviu o sibilar do canto dos pássaros e o som das águas límpidas do rio próximo que não passava de um confortante sussurro. O guerreiro pôde sentir a natureza em sua volta expandindo seus sentidos. Sua alma tocou o espírito da Cerejeira e finalmente ele se tornou uno com o universo em sua volta.
Percebeu que tudo estava ligado. O bosque, a árvore e ele eram uma coisa só.
Assim pôde sentir claramente o vento norte soprar e ouviu o ruído das pétalas se desprendendo da Cerejeira tão nitidamente que quase podia vê-las.
O golpe foi desferido de forma perfeita. Mais rápido que os olhos de seu mestre, mas mesmo assim nenhuma das flores foi arrebatada no ar como pretendia o habilidoso samurai...
- Não está certo! – bradou o espadachim. – O que me pede é impossível!
- Por quê? – perguntou o mestre – Não seria mais obvio que você esteja em falta com seu treinamento?
- Sim! – respondeu o discípulo admirando a Cerejeira. – Mas a natureza é poderosa demais, não me envergonho de ter sido derrotado por uma força tão esplêndida!
- Então uma árvore derrotou o maior guerreiro de seu tempo?
- Claro, pois está na Cerejeira a alma de um samurai!
- Sim, de fato! – concluiu o ancião. – És apenas uma parte do todo. O maior dos homens do Imperador, mas ainda passível de ser derrotado! Ninguém é imbatível como seu ego imaginava. Diminua, reflita e aprenda!
Os dois, mestre e aluno, ficaram a contemplar as pétalas de Cerejeira que delicadamente caíam sobre o rio e tingiam as águas anis de uma tonalidade alva e pura como as nuvens que desafiavam o azul celestial...