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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sampa Noir


Olho para as apertadas frestas da veneziana que traspassa os solitários feixes de luz por uma sala tão escura e vazia como minha alma. Vejo as partículas de poeira dançarem pela quase onírica trajetória iluminada e lembro de como é podre e suja essa cidade. Esse lugar fede, mas não apenas pela urina dos mendigos e pelo lixo das ruas, mas o cheiro vem também das pessoas e de suas almas lúgubres e incrustadas de todos os tipos de devassidão, ganância desenfreada e pecado.
Uma suave garoa cai vagarosamente pelos prédios como diáfanos brilhos ao refletir as luzes artificiais que tentam, desesperadamente, deixar a noite um pouco menos sombria e lôbrega. No entanto, isso não passa de pura e simples hipocrisia, pois de nada adianta mascarar a decadência de uma cidade que se voltou para a podridão sórdida e a tristeza absoluta.
Tristeza essa que exala dos edifícios cinzentos e da paisagem nublada na cidade que nunca dorme. São Paulo tem insônia e isso se mostra nos rostos melancólicos e pálidos das pessoas que passam apenas a parasitar pelas ruas e em suas próprias vidas. Suas rotinas monótonas sempre apagam as alegrias momentâneas e cadentes dos prazeres fúteis e, por isso mesmo, viciantes. Tentam esquecer, embriagados na luxúria sem sentido, o que a cidade da garoa é, mas Sampa é o que é... inexoravelmente.
Essa é a verdade!
Pego meu maço de Hollywood do bolso e acendo um cigarro. Nunca gostei de fumar realmente, mas esse vício tem me acompanhado desde a Guerra. Era uma das poucas coisas que fazia minhas mãos pararem de tremer.
Minhas lembranças me trazem delírios de sons de disparos e explosões arrancadas violentamente do passado e vem novamente toda aquela angustia e pânico em que eu vivia, ou melhor, em que eu sobrevivia na Europa à poucos anos atrás.
Não sinto mais o sabor mentado de Lucky Strike, mas mesmo assim fumar trás certa calmaria aos meus nervos novamente levando aquele tempo de triunfo e tormento para o lugar mais obscuro da minha alma... guardando bem fundo.
Apesar do forte cheiro esfumaçado no ar e de minhas divagações sobre as mamórias da Itália eu sinto primeiro o perfume dela chegando. Depois eu escuto os passos de saltos finos e minha atenção se volta para a porta do meu escritório. Agora, de volta ao presente, posso até ver a sombra dela por debaixo da porta.
Antecipo o som das batidas na porta...
- Entre! – digo – A porta está aberta.

Então a mulher mais linda que eu já conheci entra em minha escura e vazia sala de trabalho. Parece até mesmo que a luz entra cordialmente junto aos seus cabelos vermelhos que, de alguma forma mágica, brilham como chamas tão ardentes que quase sinto o lugar esquentar pelo calor.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Lobisomem de Minas




“Em presença de tal apelação, mais brabento apareceu a peste. Ciscava o chão de soltar terra e macega no longe de dez braças ou mais. Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azevedo Furtado. Dos olhos do lobisomem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal adjacente. Tanta chispa largava o penitente, que um caçador de paca, estando em distância de bom respeito, cuidou que o mato estivesse ardendo.”
O Coronel e o Lobisomem
José Cândido de Carvalho



Era uma noite quente e fazia vários dias que não chovia naquela pequena cidade do interior de Minas Gerais. Na verdade aquela estiagem estava castigando toda e região e alguns fazendeiros estavam começando a se preocupar com suas plantações de milho, principalmente depois com a atual crise política. Todos já haviam se acostumado com tantos planos e mudanças da moeda, mas era mais a população de baixa renda da diminuta cidade que sofria tanto com o calor intenso quanto pela má administração do governo federal. No entanto, isso era o que menos preocupava a simples e velha senhora Marta Ferreira das Lourdes.
Dona Marta estava mais preocupada com seus netinhos, que acabaram de perder a mãe, vítima de tuberculose, deixando duas pequenas crianças aos seus atenciosos cuidados. A infanta mais nova, chamada Maria, tinha apenas sete anos e o mais velho que se chamava João tinha nove anos. Claro que o pai, o mecânico Lucas Ferraz Nogueira, ajudava a criá-las como podia, mas como ele trabalhava muito e acabou deixando a cargo de sua sogra a criação dos pequenos. Fora o problema com a bebida que Lucas tinha desde que a esposa faleceu, mas a senhora Marta apenas se preocupava com as crianças e como as educaria praticamente sozinha.
A avó estava contando uma estória infantil para as crianças dormirem. Tinha sido um dia duro para todos, mas os netos ainda estavam um pouco ativos demais naquela noite, talvez devido ao calor. Assim a senhora resolveu ler o que sua falecida mãe narrava para fazê-la dormir anos atrás. Era o conto da Capelzinho Vermelho e talvez não tenha sido uma boa escolha para aquele momento, mas João tinha dormido rapidamente e apenas a garotinha ainda estava acordada. No entanto, subitamente Dona Marta parou devido à voz da netinha que embora fosse delicada, acabou assustando a mulher de forma impressionante.
A pequena Maria era uma menina sempre alegre e falante, mas tinha ficado praticamente muda depois da morte da mãe, por isso a avó tinha estranhado tanto a criança falar naquele momento. Não conseguia se lembrar mais da última vez que ouviu a voz da querida neta, mas de certa forma, apesar do susto, ficou estonteantemente feliz por finalmente escutar a voz da garotinha novamente. A alegria fez com que a mulher não ouvisse o que foi dito, mas a neta repetiu:
- Ô vó, por que coisas tão ruins aconteceram com a Chapeuzim?
- Porque ela desobedeceu à mãe e foi para a floresta! – respondeu dona Marta – Não pode sair em um lugar estranho sem que os adultos saibam, minha netinha. Lembre sempre disso. É perigoso lá fora! Ocê pode encontrar o Lobo Mau...
- Vó... pra onde a mamãe foi?
A velha senhora respirou fundo. Sabia que aquela pergunta derradeira chegaria cedo ou tarde e por mais que tivesse se preparado pra ela, foi pega em total surpresa e descobriu que seria doloroso responder que sua amada filha, mãe da garotinha, nunca mais voltaria. Também causava tristeza em dona Marta falar sobre isso, pois também sentia falta dela, mas antes de tudo deveria confortar sua neta. Deveria esquecer sua própria dor para acalentar sua querida Maria...
- Minha querida... ela está no céu! Está com os anjim do Nosso Senhor.
- Ela não vai voltar mais?
- Uai, ocê vai ver ela de novo! Quando for ao paraíso também, mas não agora. Vai encontrar novamente sua mãe, mas não agora...
Dona Marta sentiu uma lágrima correr–lhe a face e não pode continuar. Suspirou profundamente e fechou os olhos tentando se acalmar. Ela não queria que sua neta percebesse a sua angústia. A carinhosa avó queria poupar a pequena Maria de mais dor e tristeza. Tudo aquilo era pesado e injusto com a menina.
- Não queria que ela fosse, vó. Eu odeio a mãe!
- Ela não teve culpa minha neta... não a odeie! É a vontade de Deus...
- Então eu odeio Deus!
Um ruído agudo de vidro sendo quebrado seguido por uma bravata rompeu subitamente o silêncio da noite e que assustou as duas, avó e neta, que pularam abaladas pelo barulho. Era o pai das crianças chegando mais uma vez bêbado em casa. Com certeza Lucas tinha passado no bar depois de ter trabalhado, se é que ele esteve realmente na oficina naquela tarde. A dona Marta olhou para o menino e viu que ele ainda dormia. Menos mal! No entanto, o garoto se moveu quando mais um estrondo ecoou pela casa. Dona Marta deu um beijo carinhoso na garotinha e foi ver seu genro antes que esse acordasse toda a vizinhança.
A doce Avó foi atravessando o pequeno quarto calma e silenciosamente. Chegou à estrada do cômodo, próximo ao corredor, e foi fechando a porta...
- Vó! – exclamou a menina – Deixa a porta aberta!
- Uai, ocê ainda tem medo do escuro?
- É...
Dona Marta não queria deixar a porta aberta, pois as crianças poderiam ouvir seu pai e perceber o estado deplorável que ele com certeza se encontrava. No fundo Lucas era um bom homem, mas a perda da esposa tinha sido demais para ele, ou melhor dizendo, demais para todos. A única que estava forte era a avó, mas mesmo assim ela sabia que era aparente, logo cairia. O que seria desta família se isso acontecesse? Quase desabou na frente de sua menina! Não, dona Marta tinha que ser mais firme. Ela contemporizou sobre a questão e resolveu ascender o abajur e assim poder fechar o cômodo adequadamente.
- Assim está melhor, minha netinha?
- Sim vovó! Obrigada!
- Amanhã é sábado! Dia de irmos ao parque, então durma logo!
- Ah, isso é bom demais da conta!
- Não é? Boa noite!
- Boa noite vó!
Resolvido o problema a avó foi cuidar de seu embriagado genro e saiu do quarto das crianças. Era algo que infelizmente estava virando uma rotina e dona Marta não gostava nem um pouco disto, mas não havia muito a se fazer agora.
A pequena Maria fechou os olhos e tentou dormir. A perda de sua mãe ainda era recente e sempre era difícil dormir. A saudade era indescritível e como em todas as noites a garotinha começou a chorar silenciosamente. No entanto, seu irmão, que nada percebeu, levantou da cama rapidamente e foi até a irmã.
- Vamos agora?
- Nem quero mais ir. – disse a pequena Maria – Não ouviu que a vó disse?
- Ah, o Paulim achou um trem lá. Falou que era da banda que tocou ontem e eu to doido ver!
- Vamos ver amanhã na aula!
- Nem! Sem chance! Quero ver agora!
- Mas e se aparecer o Lobo Mau?
- Uai! Eu mato nele com minha Espada de Greyscow!
- Sua espada? – ralhou a menina – Acha que é o He-man?
- Se não vai, eu vou sozim mesmo!
- Tá! Vou cocê, mas vou levar a Fifi!
Maria se agarrou a sua mais querida boneca, única feita de porcelana e seguiu o irmão. O casal de garotos saiu do quarto pela janela e com todo o barulho que seu pai bêbado estava fazendo, ao resistir à ajuda da sogra, não foi difícil para que os pequeninos fossem soturnos.
Ganharam rapidamente as ruas recém asfaltadas da cidadezinha em direção a casa do amigo Paulo. Um pouco longe dali, era verdade, por isso as crianças tiveram que andar muito. Entretanto estranhamente naquela noite não havia muitas pessoas andando pela cidade. Estava muito tarde e embora à iluminação fosse precária, a luz da lua cheia ajudavam muito os irmãos.
Havia um silêncio perturbador naquelas ruelas e o medo estava dominando cada vez a menina, mas o pequeno João estava corajoso andando com sua espada de plástico em punho e a confiança que apenas uma criança inconseqüente poderia ter. No entanto, o menino parou quando ouviu o som mais aterrorizador que já tinha escutado em todos os seus poucos anos de vida.
- Nó! O que é isso? – perguntou Maria – Ouviu?
- Si... Sim! – respondeu o irmão tentando recuperar a coragem – Mas não deve ser nada!
Ouviram aquele som medonho novamente e desta vez seus pequeninos ossos gelaram de tal forma que mal podiam se mover. Um som primitivo e ameaçador ecoava nas ruas da cidadezinha e mesmo as pessoas que estavam dormindo em suas casas acordaram aterrorizadas apenas para se encolherem ainda mais em seus lençóis ou se esconder covardemente para debaixo de suas camas tremendo irracionalmente em puro pânico.
O som provocava um medo avassalador!
Era um uivo tão sinistro que não poderia ser de um simples lobo comum. Havia uma força maligna naquilo, certa malícia perversa e enlouquecedora. As frágeis crianças estavam totalmente abandonadas e perdidas nas escuras calçadas da pequena cidade no interior de Minas Gerais.
João foi o primeiro a ver o vulto enorme que se formava bem na sua frente e o rosnado selvagem que aquilo produzia. Sentiu um cheiro nauseante de suor que quase causaram vertigem ao garoto. Ele tentou avisar a irmã, mas não conseguia mover um músculo sequer de seu miúdo corpo.
A criatura se movia lentamente se aproximando cada vez mais fazendo fumaça com sua respiração ofegante. O menino pode fitar os olhos dele que brilhavam em tom avermelhado e assustador.
Subitamente a coisa se moveu furiosa e de maneira muito rápida! João mal pode gritar antes de ser abatido pela bocarra daquilo. A primeira mordida foi logo na garganta que fez o garoto espernear. Garras rasgavam a carne com facilidade, mas foi apenas a segunda mordida que fez o menino finalmente tombar imóvel.
A menina naquela altura já tinha se posto a correr apavorada, mas seu caminho foi barrado pelo corpo do irmão que foi lançado contra o seu. A primeira coisa que ela viu foi sangue! Retalhado, jorrava sangue por toda parte do corpinho de João.
Apenas depois a indefesa Maria pode perceber que seu algoz já estava em pé na sua frente. A criança deu um berro alto, mas que fora abafado por mais um uivo tenebroso...


Continua...


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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A Menina que Chorava


“Estória: No sentido de conto popular, narrativa tradicional das manifestações da literatura oral em prosa. Havia a necessidade de ser empregado estória para as narrativas, os contos tradicionais, ficando História para o sentido oficial do vocábulo.”
Dicionário do Folclore Brasileiro
Luís da Câmara Cascudo



Estava tudo no mais perturbador silêncio naquela antiga escola em uma madrugada chuvosa e com trovoadas espaçadas. Mesmo assim, durante dias como aqueles o colégio deveria estar lotado de alunos do supletivo em seus corredores, mas não era o que estava acontecendo ali desta vez. Nas noites anteriores havia ocorrido um crime com um dos alunos da oitava série que naturalmente cursava de manhã.
Era Ricardo de Andrade Silveira que tinha passado a tarde inteira jogando basquete na quadra da escola e foi o último aluno a sair do vestiário naquele fatídico vinte e nove de março de ano de 1992.
Ninguém sabe ao certo o porquê do garoto ter ficado mais tempo na escola e o que o levou a subir as escadas para ir ao banheiro do andar superior. Entretanto isso não era o mais estranho no caso. Curioso e inexplicável é como alguém entrou no banheiro, matou Ricardo retalhando seu corpo e ninguém sequer ouviu o menino berrar por socorro. Apenas foi encontrado por outro aluno, do supletivo, que veio a ir ao banheiro por simples necessidades fisiológicas. Assim não é difícil entender porque aquele caso tem tido uma repercussão tão sensacionalista pela mídia e comovido tanto a misericordiosa sociedade daquela cidade.
Logo, a escola estava interditada nos dias que seguiam o crime e as aulas pararam completamente. Era para a escola estar completamente vazia, mas esse não era o caso daquele dia frio de março. A curiosidade, para o bem ou para o mal, sempre moveu os homens e provavelmente foi isso que levou dois garotos estarem da escola naquela noite chuvosa...
- Juninho? – disse um dos meninos – Acho melhor voltarmos!
- A cara... Não vai amarelar agora né? Parece boiola, meu!
- Sei lá, essa escola ficou meio sinistra depois que o Ricardo morreu!
- Para com isso! Estamos aqui por conta disso, doido!
- Não cara é sério! Vamos sair daqui!
- Já deu Carlos! Se quiser voltar é por sua conta!
- Não volta comigo?
- Nem que a vaca tussa!
- Tá bom! Vamos lá então!
Os dois garotos, que eram amigos de Ricardo, ficaram curiosos com o que aconteceu. Ao contrário do esperado que era ficaram com medo ou pelo menos comovidos com a morte do amigo, eles ficaram curiosos para ver onde seu colega morreu. Onde foi o crime mais hediondo que jamais ocorreu naquele colégio.
- O jornal disse que até parece que foi um bicho cara!
- Se a polícia pegar a gente...
- Ah, pega leve! Tá muito bolado cara.
Ambos começaram a subir a escadaria que dava acesso ao andar superior do colégio. Era onde ficavam as sétimas e oitavas séries. Apenas naquele momento os dois perceberam o quão barulhento era pisar naqueles velhos degraus de madeira envernizada. Carlos tropeçou quando ainda estava subindo e fez um estardalhaço enorme quando se estatelou no chão. Felizmente a queda não foi grande e o menino logo se levantou envergonhado.
- Ai cara, só você mesmo! – disse Júnior – Vai acordar...
O menino não teve tempo de falar, pois o barulho de passos irrompeu pelo andar superior da escola e isso assustou muito os dois. Eram sons tão fortes e claros que não davam para passar despercebidos. Aquilo gelou a espinha dos dois, mas aquela balburdia logo parou e o silêncio aterrador voltou.
- Vamos embora daqui cara!
Desta vez Júnior simplesmente ignorou o amigo e subiu correndo o mais rápido que podia sendo finalmente seguido por Carlos. O garoto queria descobrir quem estaria no andar superior e os dois chegaram rapidamente ao banheiro em que o crime tinha ocorrido. Novamente não ouviam nada e continuaram a andar furtivamente, mas notaram uma coisa realmente estranha. A luz do sanitário estava acessa! Alguém realmente tinha estado ali e aquilo não estava correto. Novamente sobre os protestos de Carlos, o menino continuou.
Entraram no local onde Ricardo havia sido assassinado e perceberam facilmente que alguém já tinha limpado todo o lugar.
- Tá vendo? – disse o medroso menino – A polícia já investigou tudo! Vamos embora!
- Meu, dá pra calar essa boca? – esbravejou Júnior – Ouviu isso?
- O que?
- Isso!
Ambos ficaram quietos e assim se pode ouvir um estranho som que não passava de um murmúrio. Parecia um lamento ubíquo que parecia estar vindo do além. Um choro tão baixo que os dois se perguntaram como tinham conseguido ouvir.
- Sabia que tinha alguém mais aqui! – disse Júnior – Acho que está em um dos sanitários! Venha!
- Cara, isso vem de todo o lugar!
- Não encana Carlos...
- Tá bom, mas pega leve. Acho que é uma menina!
- Podia ser a Karine heim?
- É ruim heim? Nem ferrando que aquele filé estaria aqui, mas se tivesse nós teríamos uma surpresa para ela né?
- Isso seria massa!
Os dois meninos foram entrando no banheiro em direção as divisórias que separavam cada privada. Júnior se abaixou para ver por baixo e não viu nenhum dos pés de nenhuma criança, quanto mais uma garotinha. Como o choro ficava mais alto e focado à medida que eles se aproximavam e o jovem foi se guiando pelo som. Ao julgar estar na porta certa ele a abriu tão repentinamente que assustou seu amigo.
Havia, sentada em cima da privada, uma menina que chorava.
Estava trajada com um vestidinho branco com detalhes azuis de algum tecido que parecia ser algodão. Estava todo rasgado e a garotinha estava com meias sujas e com um dos sapatinhos pretos desamarrados. Estava igualmente imunda e com os longos cabelos loiros todos emaranhados. Ela se sentava com as pernas dobradas e tampando o próprio rosto onde tremia e chorava parecendo ignorar que os dois estavam bem na frente dela.
Os meninos acharam aquilo estranho e não entendiam porque a menina estava lá, mas resolveram falar com ela embora não parecesse ninguém que conheciam e estava vestida com uma roupa totalmente estranha, mas parecida com um uniforme de alguma escola das redondezas.
- Garotinha?
Ela não respondeu.
- Menina, por que você está chorando?
- Por quê? – perguntou à loirinha como em não mais de um sussurro, mas olhando fixamente para Júnior com seus olhos profundos e azuis – Por que vocês foram meninos muito maus!
Os gritos que se seguiram foram tão altos e aterrorizadores que provavelmente seriam ouvidos na rua se a chuva não estivesse tão forte. Relâmpagos e trovoadas rompiam os céus enquanto o banheiro, o mesmo local que tivera sido palco da morte do pobre Ricardo, era tingindo de vermelho novamente. Um espetáculo bárbaro e insano que voltou para a escuridão do silêncio da noite...

Continua...

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domingo, 19 de setembro de 2010

A Caçada


Aquela parecia ser uma noite espetacular. Alguns diriam que estava linda como qualquer outra noite. No entanto, havia algo em especial. Eu podia sentir isso na terra, podia ver nas luzes, podia cheirar no ar. Algo distante e insolúvel, mas afetava meus sentidos avassaladoramente. Essa latente sensação permeava minha mente e enquanto contemporizava sobre o assunto, mal notava todos os olhares na minha direção que minha simples existência provocava com tanta naturalidade no “After Dark”.
Localizada no, talvez, bairro mais boêmio do Rio de Janeiro, a boate After Dark era certamente uma das casas noturnas mais tradicionais da Lapa. Embora não fosse o samba que embalava as noites ali e por isso mesmo o lugar sendo o ponto de encontro de muitos cariocas que fugiam do convencional. Por isso eu estava ali, mas não apenas para me divertir, embora realmente poderia pensar isso. Infelizmente eu estava lá para realizar a única coisa que ainda me motivava depois de tanto tempo.
A caçada.
Digo isso porque nunca gostei. Já tive medo e teve um tempo que me sentia imoral ao fazer isso, mas agora eu tenho repugnância. Caçar é algo inexorável para os filhos da noite e eu mesma já me conformei com isso, no entanto, aceitar é muito diferente de gostar. Eu odeio fazer isso, embora minha sobrevivência dependa disso e por alguma ironia do destino, sou muito boa na caçada, e essa é a horrível verdade.
Caminhava em meio a uma profusão de etnias e talvez esse seja o maior diferencial desse país. Um amontoado de pessoas de diversas origens culturais se misturava como se pertencesse ao mesmo povo. Claro que estávamos no Brasil e claro que somos uma nação, mas esse sentimento de união não é tão forte como a maioria dos mortais pensa e sinceramente me pergunto se algum dia foi.
Assim meu escolhido se revela para mim. Era um homem alto com o corpo de quem deve malhar regularmente, mas sem exageros. Simplesmente odeio homens musculosos do tipo que chamam hoje em dia de “bombados”. Tinha os cabelos loiros e olhos verdes de uma tonalidade que se tornavam azuladas dependendo da luz. Um rosto fino que estava em acordo com o padrão de beleza de hoje em dia e eu apreciava isso, pois ele representaria perfeitamente seu propósito.
Sabia que era um homem inteligente, que se chamava Carlos Luca e trabalhava com publicidade em uma proeminente agência de propaganda no Paquetá. Na verdade, eu sabia muitas coisas sobre ele, já que eu o observava havia muito tempo com a ajuda das dádivas das trevas. Sabia do seu caráter e ambição. Conhecia seus mais íntimos segredos e por isso mesmo era meu escolhido.
Carlos já me observava.
Minha beleza já tinha chamado sua atenção bem como e quando eu queria que acontecesse. Não mais precisava da distração do ambiente. Estava ali, bem na minha frente e ele me admirava com fascínio. Eu causava, além de tudo, um deslumbramento sobrenatural. Uma atração que abrangia bem mais que o mundo físico. Deveria ser uma bela visão. Talvez tenha sido uma das últimas coisas que eu aprendi a manipular, mas uma das primeiras que utilizava inconscientemente.
Sabia muito bem o quanto eu era linda, pois já era elogiada mesmo antes de meu renascimento. Era desprovida de falsa modéstia. Olhos azuis celestiais e cabelos negros profundos como a Baía de Guanabara nas noites de lua nova. Meu corpo era praticamente perfeito. Bem desenhado e de uma delicadeza que atraía impreterivelmente os homens. Normalmente minha pele era muito branca, mas fiz questão de me cuidar bem para que as cores rosadas voltassem. Eu era a própria personificação da beleza divina em meio a meras e simplórias pessoas com suas curtas vidas.
Assim eu não precisava fazer quase nada. Bastava eu ficar sentada no bar, sem pedir nada, para que meus galantes pretendentes se aproximassem. Gentilmente descartava aqueles pobres coitados que em vão tentavam algo e trocava alguns olhares com meu escolhido para que o mesmo criasse coragem de me cortejar. Claro, foi justamente o que aconteceu.
Carlos se aproximou aparentemente confiante, mas eu escutava a batida acelerada de seu coração. Sentou-se do meu lado e dirigiu um olhar penetrante a mim e com um menear suave perguntou:
- Muitas cantadas?
Esse foi o início, obtuso a meu ver, mas propício aos meus objetivos, e deixei que ele me pagasse um Daiquiri com Morango e conversamos inúmeras futilidades enquanto cedia aos poucos às suas investidas. Queria que meu escolhido imaginasse que estava no controle, que estava jogando bem e me conquistando sem perceber que era ele mesmo o manipulado. Carlos era bom nesse jogo, mas não poderia vencer uma mulher com quase duzentos anos de vida.
O rapaz se sentia perdidamente atraído por mim. Podia perceber isso com todos os meus sentidos. Eu era ardente como as chamas de uma fênix que restaurava suas paixões mais profundas. No entanto, ao mesmo tempo, eu era evasiva na medida exata para lhe dar um ar misterioso e alimentar o desejo dele. Sabia trabalhar bem com isso, pois eu também era fria como o inverno e se encontram nesta dicotomia meus maiores talentos que estavam tirando a sanidade de Carlos rapidamente.
Toquei suavemente sua perna e disse que queria ir para algum lugar mais reservado. Claro que ele aceitou imediatamente e quando partirmos da boate After Dark aprestei minha audição à cata de ouvir todos os comentários sobre nós. Falavam mais sobre a sorte do rapaz do que sobre mim mesma. Minha beleza estonteante logo se nublaria na lembrança deles e embora seja impossível me esquecer, ninguém poderá me descrever exatamente, pois serei sempre uma imagem onírica indelineável.
Partimos no carro dele e passamos por vários bairros admirando o frescor e as belezas da Cidade Maravilhosa. Ficamos um pouco em uma praia de Ipanema para que eu pudesse estimular ainda mais suas emoções e depois fomos para minha cobertura não muito longe dali. Na verdade, todo o prédio, o “Marquesa Palace Hotel”, era meu e se todos os meus negócios pudessem ser computados eu seria considerada a mulher mais rica de todo o sudeste e talvez de todo o país.
Isso faz com que eu tenha meu próprio andar no prédio, que pode ser alcançado apenas por um dos elevadores e mesmo assim é preciso ter a chave que apenas meus mais leais servos possuem. Aqueles que tentarem passar por eles descobrirão rapidamente que suas habilidades e força também são sobrenaturais.
Logo que chegamos não tive sequer a oportunidade de lhe servir uma bebida ou mandar buscar algo para comer do restaurante “Lafayette”, pois Carlos me cobiçava tanto que logo cedemos à simples luxúria. Meu escolhido logo descobriria que sou uma ótima amante, com certeza a melhor que ele jamais possuiu e isso, ligado ao fascínio que emanava de mim, fez com que minha mordida fosse prazerosa ao invés de causar sofrimento.
Excedendo ao simples sadismo, o profundo beijo dos amaldiçoados acabava liberando a libido e adrenalina dos mortais. Essa era uma realidade que dava certa vantagem na caçada, mas nem toda pessoa reagia assim. Alguns tinham uma incrível força de vontade e sempre tínhamos que trabalhar com o imaginário das nossas vítimas, e logo era imprescindível todo o jogo que eu provocara antes.
Comecei a sugar seu sangue e a satisfação que aquilo me causava era inexplicável para qualquer mortal. Era muito mais forte e intensa que qualquer coisa que tinha experimentado quando eu ainda respirava. Melhor que os prazeres físicos como o sexo e os sentimentos que acalentam o espírito como o sorriso de nossa mãe.
Larguei-o na cama e sentei tranqüilamente enquanto o belo rapaz estrebuchava, perdendo sua vida a cada segundo. Carlos estava branco pelo sangue drenado sem entender o que estava lhe acontecendo. Na verdade ele entendia. Apenas não podia acreditar no que lhe parecia óbvio naquela situação.
Eu era uma vampira.
A dor que sentia, a vertigem e o terror que percorriam todas as fibras de seus músculos era uma sensação que eu conhecia muito bem, pois já tinha passado por aquilo e mesmo que de uma forma diferente dele, era um sentimento único. Aquilo me deu certa nostalgia e, sentada em frente à vista que dava para o encontro entre as avenidas Bartolomeu Mitre e Delfim Moreira, resolvi quebrar o silêncio e falar:
- Eu podia observar bem melhor todas as constelações na minha época – disse para o rapaz às portas da morte. – Agora até aqui a vida contemporânea poluiu os céus. Claro que esse lugar não era mais que um terreno vazio, mas já havia algumas chácaras quando meu criador se mudou para o Rio de Janeiro. Era um local calmo e tranqüilo, bem diferente desses dias, mas devo confessar que o Leblon ainda possui seu charme. Talvez seja por isso que eu tenha tantas posses ainda nesse lado da cidade.
Escuto os grunhidos quase surdos de Carlos e me lembro de toda a ardência que era ter o sangue drenado desta forma, mas ele ficaria vivo se assim desejasse ou melhor, como eu, ele nasceria novamente, mas para as trevas.
- Não seja rude, meu rapaz – disse para meu escolhido às portas da morte. – Se bem que eu também fui não é mesmo? Meu nome é Lívia Bastos de Castelo Branco e tenho vivido em seu país desde 1823. Sim, respondendo sua pergunta eu sou uma vampira, mas você ainda pode viver. Poderia dizer que lhe darei a grande dádiva da vida eterna, mas nossa vida é um tormento terrível pelas sombras do submundo. Meu motivo de querer transformá-lo não é menos egoísta que o que fez meu criador a me fazer renascer, porém ao menos eu estarei contigo em seus primeiros passos e isso já lhe bastará. A dor que sente é porque a magia profana está começando a agir em seu frágil corpo e isso é apenas o início. Ainda tem vários passos para se completar o ritual, mas por boa parte dessa noite nada pode fazer a não ser sofrer, e durante esse desagradável período eu lhe contarei minha história.





Introdução do meu romance sobre vampiros no Rio de Janeiro chamado:


A Fênix do Inverno

terça-feira, 25 de maio de 2010

O Diário


“A emoção mais antiga e forte da humanidade é o medo”
H.P. Lovecraft

Inicialmente, como em todo diário, acredito, eu deveria começar por meu nome, mas antes devo avisá-lo que se você encontrou este caderno surrado por acidente feche-o agora! Pare de ler e volte à sua vidinha comum em que você não percebe nada rastejando pelas sombras. Há uma espécie de brumas que distorcem sua percepção impedindo que enxergue com clareza. Abrace isso com força e não tente fazer coisas que vão além de se voltar para casa em tempo de assistir à novela das oito. A alienação por muitas vezes é uma benção, assim mate todo e qualquer instinto investigativo que possa ter em sua personalidade. Você sabe o que a curiosidade fez ao gato...
Mesmo que não tenha sido um acidente, que abrir esse diário tenha sido de forma deliberada, mesmo que já tenha chegado à conclusão de que não estamos sós, eu insisto em adverti-lo, ainda sim, para não continuar, pois acabará chegando a um caminho sem volta. A partir daqui, mesmo que você queira, não irá mais conseguir viver no mundo com as outras pessoas, pois o véu que cobria seus olhos será retirado.
Mas desculpe minha falta de educação, devo me apresentar antes de mais nada, pois isso é um diário afinal de contas!
Meu nome é Luiz Eduardo de Oliveira Vaz e Monforte e sim, fui vítima de muitas chacotas quando era menor, mas meu nome evidencia minha descendência aristocrática mineira. Sou filho de grandes fazendeiros e antigos coronéis que comandavam a região do Sul de Minas Gerais há muito tempo e isso me rendeu passagem segura para viajar e fazer faculdade participando do Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo da Unicamp.
Era algo grande, mas eu simplesmente voltei para minha pequena Passos e seu jornal local chamado Folha da Manhã. Entretanto isso não é o mais peculiar em minha vida, pois adquiri, ao longo de minhas viagens pelo interior do Brasil, habilidades específicas de investigação que deixaria constrangido qualquer perito da Criminalística Forense. Fora meu treinamento com diversos tipos de armamentos, luta desarmada e sobrevivência. No entanto, não é em mim que você está interessado, mas nas coisas que eu não deveria ter visto, pois eu descobri coisas que ninguém deveria saber.
Sempre acreditei que quanto mais conhecimento eu obtivesse, melhor seria minha vida. Aprendi isso mesmo vivendo em uma cidade em que o pensamento conservador ainda a influencia muito, apesar do aparente progresso. Os mais velhos dizem que estudo é para quem quer virar vagabundo, mas essa mentalidade já havia abandonado as escolas. Assim meu pai custeou meus estudos e pude entrar em uma faculdade pública. No entanto, hoje eu questiono se realmente o que eu sei me fez viver melhor.
Volto a advertir que pare de ler esse diário agora! Não importa como ou o porquê você o encontrou, feche-o agora, ou melhor, ateie fogo neste velho caderno que era o que eu deveria ter feito. Faça isso e talvez, quem sabe, possa voltar à sua vida medíocre e assistir novamente aos programas de auditório no domingo à tarde sem ter a menor idéia do que o rodeia.
Escrevi este relato mais para não ficar louco do que apenas para produzir minha matéria e garantir meu Prêmio Esso de Jornalismo. Esse era meu sonho, mas isso era algo totalmente utópico, apenas devaneios da mente ingênua que eu tinha quando encontrei aquele maldito padre pela primeira vez na miserável cidadezinha de Fortaleza de Minas não muito longe de Passos. Mesmo porque eu não vou conseguir que nenhum jornal respeitável, talvez nem um tablóide, publique o que está escrito aqui. Se eu tentar provavelmente irei para um hospício e essa, devo confessar, não seria a primeira vez e provavelmente não será a última.
O que encontrará aqui vai desafiar sua razão e o que você acredita ser real. Já vi muitas pessoas enlouquecerem com esse conhecimento ao longo das minhas pesquisas e penso se eu mesmo ainda mantenho minha sanidade intacta.
Existe algo lá fora que é formado pelos medos mais íntimos das pessoas. Sua intuição está correta em ter medo da escuridão, esse é seu instinto mais primitivo e aprenda a respeitá-lo. Você sabia disso quando era menor e felizmente esqueceu-se disso quando cresceu e sua vida adulta o fez parar de acreditar no que chamavam de fantasia.
Desde o início dos tempos o homem sabe que não está sozinho e todas as culturas e religiões têm suas próprias lendas para revelar essa assustadora, mas inegável realidade. Entretanto você não encontrará a verdade aqui e digo que a busca por ela é algo impossível, pois o máximo que se consegue é vislumbrar o que realmente está em volta de nós. Indagações apenas trazem mais perguntas e a escuridão oculta somente mais sombras.
Você está certo em temer o que o acorda no meio da noite com calafrios, pois provavelmente o que fez os cães uivarem de modo tão sinistro é bem pior que sua mente limitada é capaz de imaginar e isso é justamente o que eu tenho combatido nesses longos anos, meu caro. Assim, embora você possa encontrar vários depoimentos, relatos e fotos, frutos de intensas e perigosas investigações, este não é um relato de um jornalista. Mas o diário de um caçador e, meu inconseqüente leitor, o que eu persigo está nos seus mais medonhos pesadelos...