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terça-feira, 6 de abril de 2021

A Liga


Aquilo era exatamente a materialização dos seus maiores e mais íntimos medos.  Finalmente tinha acontecido e ele não podia fazer nada para deter seu destino. Claro que a dor era quase insuportável, mas apesar de toda aquela aflição pungente sua consciência refletia amargamente sobre sua desgraça. Não havia nada o que fazer. A assimilação era derradeira como a morte, mas se seus estudos estivessem certos... aquilo era bem pior que a morte.  

E por todos os deuses e entidades cósmicas... como a dor era inexorável.  

Aquela liga metálica gélida entrava por seus poros com uma maleabilidade impossível enquanto corroía seus órgãos internos dilacerando sua alma em pecados. Avançava pela sua pele queimando a sua carne e consumindo desordenadamente cada cédula se multiplicando em nano máquinas agressivamente incontroláveis como um câncer, mas que substituía cada célula saudável em outra biotecnológica... talvez sintética.   

Apesar de todo sofrimento, sua mente se mantinha nitidamente sã ao que acontecia...  uma clareza estranha que só poderia provir da própria máquina que o dominava. Já tinha encontrado outros assim... assimilados... e todo seu estudo não conseguiu determinar se eles eram mecânicos ou vivos. Aquilo o que mais o assustava. Estava se transformando em um robô? Em um sintosóide? Era algo que não conseguia classificar e nem nomear... algo nunca visto... 

O último estágio da assimilação era o cérebro. Claro. Bem como uma máquina pensaria. Aquilo dominaria sua mente quando esta percebesse que não havia nada mais de humanidade nele. Quando percebesse que era seu esforço impotente de permanecer vivo... mas... ele, apesar de toda aquela desolação não se sentia morrendo... não se sentia o mesmo... se sentia outra coisa.  

Então que sua consciência é bombardeada de pensamentos. Pensamentos da máquina.  

A assimilação derradeira.  

Aquilo não era a morte, muito pelo contrário, era uma transcendência. Um estado de consciência que era a busca de todas as religiões humanas. O de finalmente tornar-se algo maior. Algo melhor. Finalmente o próximo estágio da evolução não apenas humana, mas da vida. 

 Não apenas da Terra, mas do Universo. 

Ele sabia agora que todas as suas memórias não desapareceriam como palavras escritas na areia. Suas experiências não sumiriam ao relento da morte. Não seriam mais esquecidas pelas eras vindouras da nascente do tempo. Elas permaneceriam na Liga. Todos os assimilados permaneceriam na Liga.  

Agora ele se conectava a todas as memórias daqueles que já existiram antes e agora permaneciam ligados à aquela corrente única de conhecimento universal. Eram todos imortais em uma colmeia de alvéolos inseparáveis por uma aliança cognitiva eterna que não orbitava sobre uma consciência central, mas todos faziam parte de uma consciência central.   

Eram todos o centro e as extremidades.  

Ele agora era a Liga como os que vieram antes dele e os que ainda virão. Todos eram a Liga e nós éramos a Liga. Não havia mais o indivíduo ou o coletivo... era maior que aquilo... todos eram tudo e tudo era... 

A Liga.  

sexta-feira, 8 de março de 2019

Capitã Marvel e a Representatividade Feminina


Carol Susan Jane Danvers é uma personagem fictícia criada pelos quadrinistas Gene Colan e Roy Thomas para a editora Marvel Comics em 1967. A heroína teve várias encarnações e nomes diferentes em suas várias fases bem confusas e com grande diversidade de roteiristas e artistas, mas inicialmente ela surgiu para ser apenas uma coadjuvante nas revistas do Capitão Marvel e logo acabou  se tornando o par romântico de Mar Vell capitão e membro da raça alienígena Kree.
Nesse início Carol não passava de parte de um triângulo amoroso entre ela, o Capitão Marvel e outra personagem chamada Una. Aqui Danvers ainda não tinha super poderes, mas era renomada major da Força Aérea dos Estados Unidos, sendo inclusive exímia piloto, chegando a trabalhar para C.I.A.  (Central Intelligence Agency) ao lado de personagens famosos da editora como o Wolverine. No entanto, foi em um trabalho posterior como chefe de segurança da N.A.S.A. (National Aeronautics and Space Administration), em uma instalação no Cabo Canaveral, que a personagem conheceu o Capitão Marvel e assim figurando o título do herói alienígena.
Entretanto com o fortalecimento da Segunda Onda do Feminismo (iniciada ainda nos anos 60 e mais evidenciada nos anos 70) os editores da Marvel Comics, principalmente Stan Lee, viram uma oportunidade de atrair mais leitoras para as histórias em quadrinhos. A Casa das idéias sempre foi relacionada por ter enredos de vanguarda e por destacar os movimentos sociais à medida que ocorriam nos EUA e no mundo ao seu redor. Logo era esperado que cedo ou tarde a editora buscasse criar uma forte personagem feminina como ícone, aos moldes da Mulher Maravilha heroína da concorrente DC Comics.


Essa postura da Marvel sempre é vista como ideológica e, por vezes de viés doutrinador, mas, na verdade, está muito mais relacionada simplesmente com as vendas da revista, buscando sempre novos leitores em grupos de pessoas que normalmente não lêem quadrinhos, aumentando exponencialmente os lucros da editora. Logo se entendeu que era necessária, pelo contexto da época, a criação de verdadeiro símbolo feminino para ser a nova super heroína da Casa das Idéias.
Assim Mary Skrenes ficou responsável por dar forma a uma nova personagem que seria uma garçonete chamada Loretta Petta que se transformava em super-heroína, ou seja, uma personagem totalmente original. No entanto, a idéia foi recusada pela editora que incumbiu a outro roteirista a uma nova proposta.  Gerry Conway então resgatou a modesta coadjuvante Carol Danvers transformando-a em não mais que versão feminina do Capitão Marvel, chamada de Miss Marvel, que teria ganhado seus poderes pelas ações do vilão Yon-Rogg, um outro alienígena da raça Kree. Na ocasião, Carol tinha sido seqüestrada pelo inimigo ( o que geralmente acontecia com as namoradas SOS heróis) e durante a explosão, causada pelo facínora com seus raios Psico Magnitron, o Capitão Marvel tentaria protegê-la com o próprio corpo, mas a radiação acabou misturando seu DNA Kree com o da Carol concedendo a ela parte de seus poderes.


Surgia então Miss Marvel (primeira encarnação heróica de Carol Danvers) que, pelas mãos de Gerry Conway e John Buscema ganhava um título próprio em 1977. Uma das primeiras super-heroínas dos quadrinhos, mas que falha como representação feminina ao elaboraram uma origem totalmente dependente de um patrono homem, sendo apenas sua versão mulher, e com roteiros no mínimo desastrosos que a personagem sofreria nessa primeira fase.
Uma integrante sem muito destaque dos Vingadores, Miss Marvel teria dupla personalidade no inicio (Carol humana comum e a Miss Marvel super-heroína Kree) que geravam vários problemas. No entanto, talvez o pior arco de histórias da personagem seja quando ela foi abusada sexualmente por um vilão chegando inclusive a engravidar e sendo levada para se casar com seu estuprador. Uma história tão mal construída onde, em Avengers 200, nem mesmo os Vingadores foram colocados para ajudar a amiga abduzida pelo seu algoz, que a levou para o Limbo, uma outra dimensão.
Entendemos assim que apesar da Marvel Comics ter tido a iniciativa de criar uma super-heroína para sua editora, a Casa das Idéias não soube bem como trabalhar com uma personagem feminina e, provavelmente, buscando toscamente eliminar Miss Marvel jogando-a literalmente no limbo. Mas logo o, já aclamado roteirista dos Fabulosos X-men, Chris Claremont resolve, no inicio dos anos 80, resgatar Carol Danvers trazendo justiça a uma heroína tão maltratada, inclusive fazendo-a confrontar os Vingadores mostrando sua hipocrisia ao deixá-la nas mãos de tão vil algoz.


Agora Miss Marvel apareceria nas revistas dos Filhos do Átomo sendo bem melhor trabalhada como apenas o quadrinista de um título que tratava sobre preconceito poderia escrever.  Nessa fase Carol se transformaria na heroína chamada Binária (sua segunda encarnação) pelos desenhos de Dave Cockrun iniciada na Uncanny X-Men 164 de 1982, ampliando seus poderes como nunca e fazendo parte de aventuras cósmicas como integrante do grupo espacial Piratas Siderais.  
A popularidade da personagem foi crescendo aos poucos e no final dos anos 90 a editora percebeu que já era hora da Carol voltar de suas aventuras no espaço e figurar mais uma vez aos Vingadores, agora em sua terceira encarnação heróica chamada de Warbird pelas mãos do aclamado George Pérez e Kurt Busiek na que seria uma das melhores fases dos assim chamados Heróis mais Poderosos da Terra.
Carol Danvers cada vez mais foi ganhando maior destaque com uma editora cada vez mais empenhada em torná-la a super-heroína principal da Marvel Comics e uma adversária digna para a concorrente da DC Comics, Mulher Maravilha. Foi sendo elaboradas histórias mais profundas, e com dilemas humanos e sofrendo conseqüência de seu passado ao melhor estilo Marvel, como quando ela tem que lidar com alguns transtornos devido a confusão mental que sua encarnação de Binária acarretou, chegando ate mesmo ao alcoolismo. Ela venceu com ajuda de amigos como Tony Stark (Homem de Ferro) que também tinha sofrido com o mesmo problema de excesso com bebidas alcoólicas.
A idéia de fazer dela, apesar de humana, uma melhor representação feminina que foi tomando forma, mesmo que vagarosamente. Foi ficando cada vez mais claro que a personagem deveria crescer ainda mais para ser um destaque não apenas nos quadrinhos, mas também em outros projetos da Marvel.


Foi então que em 2012, Carol passaria por mais uma e derradeira mudança. Por conselhos de ninguém menos do que o Capitão América, a personagem passaria a assumir o manto do herói que a inspirou adotando o nome de Capitã Marvel (sua última encarnação. Trazida pela quadrinista Kelly Sue Deconnick com titulo próprio, já que não há mais um Capitão Marvel na editora (vale salientar que o título em inglês, Captain Marvel,não tem gênero).  
Agora a Carol Danvers estaria na frente de importantes sagas da Casa das Idéias sendo uma das personagens principais da Marvel Comics visando uma representação feminina mais respeitosa e condizente com o contexto atual, mas ainda falhando com algumas decisões editoriais, como sendo colocada praticamente como vilã em na saga Guerra Civil II, por exemplo.


Entretanto, não se pode negar a importância do papel da Capitã Marvel para a representatividade feminina mesmo com tantas histórias controversas em seus altos e baixos. A personagem é praticamente indispensável para uma análise de como a mulher tem sido representada nas histórias em quadrinhos de super-heróis nas ultimas décadas e nos mostra como os leitores ainda reagem a uma protagonista feminina que, principalmente, não se encaixa mais no padrão de mulher hiper sexualizada tão comum nas histórias em quadrinhos.
A Capitã Marvel hoje raramente é representada em posições constrangedoras e usa um uniforme mais pratico (e mais condizente com seu histórico militar) que não, necessariamente, evidencia suas curvas. Ela é uma personagem que prova seu valor por ser heróica e não por ser um desejo sexual. Até mesmo sua origens sofreu mudanças para retirar o total Complexo da Costela de Adão gerado pela heroína ter recebido os poderes acidentalmente de uma figura masculina.  
Carol vence e alcança lugares onde tradicionalmente apenas os homem conseguiam chegar e o faz mostrando muita força e personalidade sendo reconhecida pelos seus colegas como uma igual e não sendo inferiorizada momento algum por ser mulher e nisso, devemos reconhecer, a Marvel Comics tem acertado muito.
Entretanto, por um lado temos uma personagem extremamente importante que levanta temas muito relevantes da nossa sociedade, em quase uma auto critica, mas por outro lado temos historias quase sempre ruins de roteiro em sua trajetória que acabaram acarretando em ainda mais preconceito com a imagem das mulheres no meio quadrinístico, seja por pura implicância machista de alguns leitores ou seja simplesmente por arcos mal escritos que gerava um protagonismo forçado da super heroína em uma elaboração raza demais para ser crível.  
Talvez a maior importância das histórias em quadrinhos da Capitã Marvel é perceber claramente que boas histórias não são feitas apenas por colocar superficialmente determinados personagens levantando uma bandeira sem qualquer profundidade ou conhecimento de causa, mas sim de boas histórias que podem sim ter suas criticas sociais. No entanto, essas questões devem ser construídas com seriedade e principalmente com bons quadrinistas que realmente se dediquem a contar, além de ótimas histórias, enredos que ainda traga importantes reflexões sobre nossa sociedade.
É assim que se constrói uma boa narrativa gráfica.
Temos ainda, infelizmente, uma legião de fãs que parecem não terem entendido que o público algo da personagem não são necessariamente eles, mas sim leitores de quadrinhos diferentes do usual e não há problema nenhum com isso, pois estes sempre tiveram uma profusão de personagens para se sentirem representados. Carol Danvers (agora Capitã Marvel) foi desde o inicio criada para conversar e se identificar mais com o público feminino que ainda não tinham muitas opções de representatividade. Tudo isso traz uma maior diversidade de leitores e mostrando perspectivas cada vez mais diferentes evoluindo todo o contexto narrativo da Nona Arte.



A Capitã Marvel, em todas as suas encarnações, quase nunca retratada da maneira correta, mas teve um esforço quase louvável de atrair garotas para as histórias em quadrinhos onde elas possam se sentir finalmente representadas em um meio repleto de preconceitos e machismos, que não é nada mais de um micro reflexo de nossa própria sociedade. Talvez essa seja a verdadeira importância da personagem na atualidade, pois ao mesmo tempo que nos faz refletir como pessoas, também busca uma melhor representatividade feminina no real cenário de cultura nerd e pop. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Justiceiro do Anti-Heroísmo à Psicopatia


Sempre foi muito complicado escrever sobre a maioria dos personagens de história em quadrinhos, pois geralmente sua revista é antiga e simplesmente vários autores passaram pelo personagem onde cada um quis deixar sua marca nas revistas. Ainda mais um personagem famoso e relativamente antigo como o Justiceiro que teve vários dos grandes autores e artistas da Marvel Comics em seu título e tem mais de quarenta anos de existência na editora.
Logo, Frank Castle, como qualquer personagem antigo dos quadrinhos, tem uma verdadeira profusão de caracterizações de acordo com seus roteiristas mudando tanto sua personalidade bem como o tom e clima de suas histórias. Podemos ter um enredo mais investigativo em seqüências detetivescas como escrito por Greg Rucka; ou histórias de violência crua e brutal como na fase do aclamado Garth Ennis; um Justiceiro estrategista militar que tenta sobreviver em um mundo cheio de super heróis e super vilões como com Nathan Edmondson ou até mesmo mais recentemente escrito pela ótima Becky Cloonan que transforma Castle em uma máquina de matar com todo o clima dos antigos filmes de assassinos em série. Mas não importa. Existem características fundamentais no personagem que formam o alicerce de suas histórias que permeiam o íntimo de sua personalidade, talvez desde sua criação nos anos 70 sendo tratado com mais profundidade ou não pelos quadrinistas, no entanto, sempre presente.
O anti-heroísmo e a psicopatia.

O Justiceiro (The Punisher) foi um personagem criado por Gerry Conway, Ross Andru e John Romita na revista da editora Marvel chamada The Amazing Spider-man de número 129 publicada em fevereiro de 1974, que recentemente foi trazida na Coleção Histórica Marvel: Paladinos Marvel Volume 4 da editora Panini.

Nesse início Frank Castle (ou Franco Castilione) foi concebido como um antagonista para o Homem Aranha, mas rapidamente conseguiu muita popularidade se tornando o talvez maior símbolo de anti-heroísmo das comics.
Primeiramente podemos refletir um pouco sobre o que é um anti-herói, pois apesar do termo ter sido criado na Grécia Antiga, seu significado contemporâneo teve uma alteração significativa. Para os helenos na antiguidade um anti-herói era alguém capaz de atos de altruísmo e heroísmo, mas diferente dos heróis divinos do imaginário grego temos homens e mulheres cheios de defeitos e falhas sejam físicas ou em algumas vezes até de caráter. No entanto, são personagens que vencem suas limitações e acabam realizando ações dignas do reconhecimento dos Deuses. Se fossemos analisar o significado grego do termo; o Demolidor, o Homem Aranha e o Homem de Ferro seriam exemplos melhores de anti-herói, entretanto o termo é utilizado de outra forma nos dias de hoje. 

A versão contemporânea de anti-herói, esse é um personagem de qualidades bem diferentes, seria uma espécie de herói que não tem os valores consagrados do bom mocismo e se torna capaz de cruzar a linha que separa o bem e o mal para concluir seus objetivos de salvar inocentes. Realizar o que o personagem entende de correto. Logo, nas comics isso se aplica ao maior tabu dos super-heróis nas histórias em quadrinhos, ou seja, são heróis que matam.
O Justiceiro é um personagem que como qualquer herói Marvel que busca salvar os inocentes combatendo criminosos, e até super-vilões, mas ao invés de inspirar as pessoas por um código de ética e moral apurados, como o Capitão América, por exemplo, Frank Castle usa táticas de tortura e armas militares extremamente letais para atingir seus objetivos e salvar o dia no final, mesmo que seja um fim sangrento, brutal e lotados de mortes escatológicas com corpos dilacerados da bandidagem.
Assim sendo, da mesma forma que podemos encarar o Justiceiro como maior representante do anti-heroísmo contemporâneo, temos o Homem Aranha representando esse anti-heroísmo clássico de herói cheio de defeitos e dilemas bem humanos. O quão é interessante que foi justamente em uma revista do aracnídeo dos anos 70 que vimos pela primeira vez à emblemática caveira e expressão carrancuda de Frank Castle.

Então temos um personagem durão que não tem medo de usar os mesmos meios dos inimigos marginais para conseguir enfim varrer a criminalidade de sua cidade. Claro que o Justiceiro não poderia ter estórias tão ingênuas e fantasiosas como de seus colegas super heróis da editora. Suas revistas teriam que ter um tom mais realista e urbano e mesmo seus inimigos não poderiam ser espalhafatosos de uma galeria de super vilões, mas algo mais parecido com criminosos comuns como traficantes de drogas ilícitas, mercadores da morte e marginais que aterrorizam a população comum.

Todo esse conceito do Justiceiro tem, claro, um contexto histórico dos anos 70 e a descrença dos estadunidenses em suas instituições depois da opinião publica se voltar contra a Guerra do Vietnã e a permanência de seus soldados no conflito. Ora, a população dos Estados Unidos nunca tinha visto uma guerra como essa ser televisionada e ficaram horrorizados com todas as barbaridades feitas no Vietnã inclusive pelos próprios soldados dos EUA e começaram a questionar se realmente havia a necessidade de se envolverem nesse conflito e quem estaria ganhando com tudo isso na verdade. Essa descrença pelas instituições também gerou uma crise de desconforto com a figura do herói convencional com sua moral rígida e ilibada. O Capitão América não era mais tão aclamado como foi nos anos 40 em conseqüência da Segunda Guerra Mundial.

Aquele bom mocismo não era mais apreciado.
A marginalidade nas cidades, principalmente em regiões periféricas, estava em um nível altíssimo e muito se perguntava qual era o real interesse das autoridades que não davam conta da criminalidade ou simplesmente tinham abandonado a população mais pobre. Um sentimento de revolta generalizada se instaurou nas pessoas e acabou influenciando toda uma cultura que via no ícone do anti-herói alguém que poderia de fato vingar o homem de bem de toda essa sujeira e criminalidade galopantes.
Logo temos uma enxurrada de anti-herois na cultura pop dos anos 70 e inicio dos anos 80 nos Estados Unidos. Temos na literatura personagens como Ignatius de Uma Confraria de Tolos escrito por John Kennedy Toole e Huckleberry Finn do escritor Mark Twain; no cinema tivemos Harry Callahan interpretado por Clint Eastwood em Perseguidor Implacável, Travis Bickle interpretado por Robert de Niro em Taxi Drive e claro o ícone do anti-heroismo Paul Kersey interpretado por Charles Bronson em Desejo de Matar. Assim nas histórias em quadrinhos não seriam diferentes com a popularidade do Justiceiro.

Na caracterização de Frank Castle como representante da Marvel Comics para essa onda anti-heróica, temos um vigilante que age fora da lei, muitas vezes tendo que escapar da policia, torturando marginais para conseguir informação e além de matar com extrema facilidade, o Justiceiro, por vezes, é dado a atos de crueldade a lidar com bandidos em sua vingança contra a criminalidade.
Vingança, pois o Frank Castle tem em sua origem uma família morta (esposa e dois filhos) por presenciar, em um parque, uma negociação da máfia. O Justiceiro ao invés de ir atrás apenas da máfia em questão compreende que toda a classe criminosa é culpada pelo ocorrido e entende que o que aconteceu a ele poderia ocorrer a qualquer um, logo ele deveria iniciar uma cruzada contra todos os marginais que fazem o cidadão comum sofrer e para isso ele tem a mãos todo o treinamento de fuzileiro veterano da Guerra do Vietnã à sua disposição. Não teria como ser mais clichê de personagem anti-herói dos anos 70 e 80.
No entanto, o apego do personagem a vingança e não justiça (entenda que o nome original do anti-herói é Punisher, que em uma tradução impossível seria algo como “Punidor” e não Justiceiro); tanto quanto seu apelo a violência e tortura nos faz refletir se o personagem realmente é dado a ações minimamente heróicas ou simplesmente o que move Frank Castle é o fato dele ser um psicopata.

Apesar de poucas vezes, é claro que esse questionamento já apareceu em suas estórias com destaque para a fase de Garth Ennis a frente do título do Justiceiro principalmente no excelente arco Nascido para Matar (Born de 2003) nos revelando que a psicopatia de Frank Castle veio antes da morte da sua família, mas durante a Guerra do Vietna, onde ele pode extravasá-la. Assim o personagem faria o mesmo contra a criminalidade em sua volta aos Estados Unidos depois do fim da Gerra.
Entretanto, é do mesmo Ennis o arco Bem Vindo de Volta, Frank (The Gathering Storm de 2000) que o personagem, apesar de claramente ter um rancor enorme contra a criminalidade, mostra atos heróicos e até altruístas. Tudo isso como uma narrativa do quadrinista para dar mais profundidade ao personagem, mas também nos faz refletir sobre os ideais do Justiceiro e nossa relação com isso.

Será que consumir e gostar das estórias do personagem nos revela que somos tão vingativamente psicóticos como o Justiceiro ou é uma válvula de escapismo onde botamos para fora, ao ler, toda nossa revolta contra a criminalidade cada vez mais assustadoramente gritante? Compreender o personagem e até nos identificarmos com ele faz com que compactuamos com ideais proto-fascistas e que concordamos com a máxima “bandido bom é bandido morto”?
A revista do Justiceiro faz apologia ou incentiva a violência?
Acredito que a importância de um personagem como esse é justamente levantar esses questionamentos principalmente quando seus ideais são postos a prova nos faz refletir em quem somos e talvez em que tipo de sociedade buscamos. Mesmo quando não concordamos com as atitudes do Justiceiro temos nele um exemplo de como a sociedade pode acabar entendendo a justiça e a criminalidade e amadurece nossas próprias opiniões seja como sociedade, seja em nossa própria personalidade, ou seja, no entendimento de idéias divergentes à nossa.
Talvez por isso um dos mais importantes e aclamados encontros do Justiceiro com algum herói da editora seja seus, agora, vários embates com o Demolidor que quase sempre chega ao debate de idéias entre os personagens em um contraponto extraordinário entre o realismo cruel e justiça punitiva do Justiceiro e o heroísmo limpo e justiça na esperança de reabilitação do Demolidor.


 No entanto, isso seria assunto para outro texto...

sábado, 3 de dezembro de 2016

Gênese Mutante - Parte 01 do Guia dos X-Men



Análise da primeira parte do Guia Definitivo dos X-Men que compreende toda a fase inicial dos mutantes escrita por Stan Lee,  publicada nos Estados Unidos nas revistas The X-Men do número 01 ao 19, durante o período de 1963 à 1966. Teve Jack Kirby como desenhista nos números 01 ao 11; Alex Toth na edição 12 e Werner Roth a partir da 13. Foi publicada no Brasil na integra na coleção Biblioteca Histórica Marvel – Os X-Men volumes 1 e 2 e em partes na Coleção Histórica Marvel – Os X-Men volumes 1,2,3 e 4; ambas pela editora Panini.



Chegava, em setembro de 1963, nas bancas de revistas e lojas especializadas dos Estados Unidos a mais nova história em quadrinhos da editora Marvel Comics.  Os “mais incomuns super heróis de todos” faziam sua estréia na revista The X-Men 01 (posteriormente rebatizada de The Uncanny X-Men) e já contava com o “argumento sensacional” de Stan Lee e os “desenhos dinâmicos” de Jack Kirby, os criadores da equipe mutante e já aclamados pela Casa das Idéias.
Jack Kirby era chamado de “o arquiteto do impossível”! Um verdadeiro gênio e visionário entre os desenhistas da arte seqüenciada que lhe rendeu a alcunha merecida ou o apelido carinhoso de “O Rei”. O quadrinista definiu o gênero dos super heróis para sempre, instituindo os padrões artísticos das histórias em quadrinhos estadunidenses posteriores e fazendo seu legado permanecer vivo até os dias de hoje, tornando-se uma referencia para os artistas da atualidade.
Stan Lee talvez seja o nome mais importante da indústria dos comics e criador da maioria dos principais super heróis como Homem Aranha, Hulk, Quarteto Fantástico e boa parte dos Vingadores. Lee é a escarnação da fórmula ou estilo Marvel, ou seja, além da narrativa diferenciada e diálogos afiados, também temos uma maior caracterização dos personagens que, apesar de representar o bem e o super heroísmo, também tinham seus problemas pessoais e humanos, fazendo com que os leitores se identificassem mais com eles do que com os protagonistas, quase deuses, da editora concorrente. Stan Lee escreveu os X-Men desde a primeira revista até o número dezenove que formam exatamente a fase analisada nesse texto.
Hoje podemos dizer que os temas mais importantes abordados pelas revistas dos filhos do átomo sejam o racismo e a inclusão de alguns indivíduos (minorias) na sociedade, mas embora estivesse sutilmente presente desde o primeiro quadrinho, Lee e Kirby não tinham elaborado esses questionamentos com mais profundidade em suas criativas mentes ou simplesmente não colocavam de forma tão direta.
Inicialmente os mutantes seriam apenas um facilitador para se explicar a origens dos poderes de novos heróis e vilões. Logo teríamos a existência de uma nova raça no Universo Marvel, o homo superior (termo pseudocientífico criado por Stan Lee), que já nasceriam com habilidades extraordinárias e que, geralmente, se manifestariam na puberdade. Logo, não mais precisariam de explicações mágicas como Thor e Dr. Estranho; científicas como Homem de Ferro e Capitão América; ou acidentais como o Homem Aranha, para as origens dos super poderes.
Entretanto, é justamente quando seus autores refletiram sobre como as pessoas receberiam esses novos personagens e sensíveis as discussões que estavam ganhando força no contexto dos Estados Unidos nos anos 60 é que perceberam que tinham criado personagens realmente “diferentes de todos os outros” e que questões quase nunca abordadas pelas histórias em quadrinhos até então. Agora poderiam ser centrais com os fabulosos X-Men.



Justamente está nesse contexto o movimento de luta pelos direitos civis que marcou a década de 1960 gerando repercussões sociais até hoje na cultura americana ocidental. Impulsionados pela situação em que os afro-descendentes se encontravam nos Estados Unidos e que, afinal, não tinha melhorado muito desde o final da escravidão, esses movimentos sociais estavam explodindo. Talvez influenciados pelos pioneiros da busca pela igualdade racial como o intelectual W.E.B. DuBois que escrevia sobre a “condição de casta subordinada” em que os negros viviam no inicio do século XX e se tornou o primeiro afro-americano a ganhar o título de PHD pela Universidade de Harvard.
Muito se criticou sobre a segregação que havia nesses cem anos após a Guerra de Secessão (ocorrida entre 1861 a 65), mas foi na década de 1960 que os movimentos sociais cresceram em número e se tornaram influenciadores de toda uma geração que buscava melhores condições para minorias oprimidas pela sociedade estadunidense, incluindo os negros que uma vez ameaçados nas regiões agrárias do Sul dos Estados Unidos, acabavam fugindo por melhores condições no Norte do país, mas encontravam se não perseguições e assassinatos, uma forte resistência social e racista que os separava das comunidades brancas reservando ao afro-americano a uma categoria de piores empregos e quase nenhuma ascensão econômica e social.
As leis estadunidenses reforçavam essa separação que rebaixava o cidadão afro-descendente em uma espécie de “apharteid americano” que muito incomodava as comunidades oprimidas e eclodiu nos movimentos sociais dos anos 60 em várias vertentes, pacifistas ou violentas, mas que buscavam o mesmo objetivo de igualdade e influenciariam não apenas aos negros, mas também teria repercussões em muitas culturas do continente americano e, posteriormente, quase todo o ocidente. 
Foi com esse olhar sensível para essas lutas e percebendo a mudança na sociedade que seria gerada por esse momento histórico que Stan Lee e Jack Kirby plantaram a semente da reflexão sobre o racismo e inclusão, ou reclusão, das minorias na sociedade que viria a ser tão presente nas estórias dos pupilos do professor Charles Francis Xavier e colocaria os X-Men em um patamar muito além de simples super heróis dos quadrinhos, chegando a ser o sucesso editorial mais expressivo da Marvel Comics nos anos 80 e 90.
Claro que hoje podemos ver influências diretas e indiretas desse período nas revistas dos mutantes bem como as atitudes conciliadoras do Professor X que simulavam os discursos de Martin Luther King Jr, um líder pacifista do movimento de luta pelos direitos civis e seguidor dos ideais de Desobediência Civil, criada por Henry David Thoreau e cujo o pioneiro em prática teria sido Mahatma Gandhi que também inspirou a criação e desenvolvimento de Charles Xavier, mas este em aspecto físico (Xavier e Gandhi tem, ambos, uma mente brilhante, mas são fisicamente frágeis) além de espiritual.
 Até mesmo os vilões são associados aos discursos e ideais da época, como Erik Magnus Leinsher, também chamado de Magneto (pois possuía poderes magnéticos), o principal antagonista dos X-Men. Magnus tem como sua contraparte histórica o ativista Malcolm X, também um líder afro-americano do movimento pela luta dos direitos civis, mas que tinha um caráter mais radical que Luther King. No entanto, posteriormente nos faz refletir sobre a legitimidade do uso da violência no contexto de revoltas e revoluções e se Magneto realmente seria um vilão.
Interessante perceber que, se o Mestre do Magnetismo teve sua narrativa cada vez mais se aproximando a Malcolm X, talvez sua Irmandade de Mutantes possa ter se assemelhado, na mesma proporção, com o movimento dos Panteras Negras, um grupo que teve como inspiração o líder radical negro. Logo, mais uma vez podemos ver o embate de como esses movimentos se articulam e que método seria mais “correto” a se fazer, o pacifismo do Professor X ou o radicalismo de Magneto uma discussão muito real e pertinente para os anos 60 de lutas e movimentos de Luther King e Malcolm X.
Obviamente nos primórdios dos fabulosos X-Men essas referencias eram eclipsadas por estórias de ação ingênua e aventuresca bem típica da Era de Prata das histórias em quadrinhos que tinham peso mais de entretenimento do que consciência social, pois muitas questões eram perigosas de serem abordadas devido ao famigerado Comics Code Autority que censurava os comics e não permitia que temas mais pesados fossem abordados em revistas ditas para os jovens e as crianças da época.



O código surgiu muito impulsionado pelo livro Seduction of the Innocent em que o psiquiatra Frederic Wertham expõe sua tese sobre como os quadrinhos dos Estados Unidos fugiam muito da noção moralidade e ética da sua época e que influenciava sua juventude à delinquência.
Assim as primeiras aventuras dos “adolescentes mais incomuns de todos os tempos” tinham a narrativa já clássica de ter um vilão novo a cada revista e gerando, ao mesmo tempo, antagonistas esquecíveis como o teleportador Vanisher ou Unus o Intocável, mas também firmou ícones da vilania das revistas mutantes como Blob, O Fanático Cain Marko e a Irmandade dos Mutantes com seu emblemático e poderoso líder Magneto que se tornaria um dos principais personagens de toda a franquia dos filhos do átomo.  São esses últimos que quebravam a narrativa de “vilão do mês” tendo uma profundidade maior em sua caracterização e que sempre voltavam mais fortes ou com planos melhores para atormentar a vida dos pupilos do professor Xavier.



Ao mesmo tempo, podemos perceber que apesar do código de censura, Stan Lee foi introduzindo temas mais profundos, mesmo que sutilmente, nas caracterizações mais densas dos personagens que tinham problemas reais como a auto-estima afetada de um Henry “Hank” McCoy que não gostava de ser chamado de “Fera” ou Ciclope, que era o órfão Scott Summers, e que era também assombrado pelo perigo de suas rajadas ópticas. Logo, eram personagens ingênuos como era exigido, mas com uma complexidade além do comum que formam o alicerce para as estórias futuras sem tanta censura e que poderiam abordar enredos mais delicados de maneira mais explicita.
Curioso perceber que o mesmo ocorreu com a equipe de super heróis Patrulha do Destino da editora concorrente, a National Comics (ancestral da DC Comics) que tinham a mesma abordagem inicial de “heróis mais estranhos de todos” e, por isso mesmo, desajustados, mas que tinham estórias mornas no inicio até alcançarem toda uma reviravolta posteriormente com o “afrouxamento” do Comics Code Autority e roteirizados pelas mãos de Grant Morrison.
Justamente sob a batuta de Stan Lee temos a, talvez, maior genialidade, dos primórdios dos X-Men em traçar uma linha delicada e tênue entre o espírito aventuresco de uma época que se exigia histórias em quadrinhos que “não seduziriam os inocentes”, como sugeria o psiquiatra Werthan em seu livro, ao mesmo tempo em que estavam conectados ao contexto e questões que explodiam nos Estados Unidos naquela década de forte repressão e luta por igualdade de direitos.
Assim o grande mestre da Marvel Comics aprofundava a personalidade de seus personagens até onde podia, trazendo temas mais pesados com uma narrativa pontual e de sensibilidade impar, condizente a sua genialidade. Somos mostrados a um Magneto terrível e claramente maligno trajando roupas vermelhas com “pequenos chifres” em seu elmo querendo dominar a raça humana que ele enxerga como inferior, bem como temos um amadurecimento do antagonista revelando seu ódio pelo racismo a medida que a estória evolui tornando-se mais densa a medida que chegam mais revistas dos mutantes nas bancas.



Um ótimo exemplo dessa profundidade pontual se mostra na oitava revista dos X-Men quando o Homem de Gelo e o Fera estão nas ruas de Nova Iorque e encontram uma criança em perigo encima da caixa d’água de um prédio. Com o infante podendo cair a qualquer momento, Hank McCoy, ignorando até mesmo sua identidade secreta, decide usar seus dons mutantes para subir pelas pareces do edifício e salvar o garoto. A população acompanhando tudo o que acontecia pelas ruas deduz corretamente que Hank seria um mutante e decide atacá-lo movidos pelo ódio ao diferente e ao desconhecido. É demais para o intelectual McCoy que, indagando os motivos da equipe estar tão disposta a salvar justamente aqueles que os odeiam e questionando o sonho de Charles Xavier em uma coexistência pacifica entre mutantes e humanos, acaba (não por muito tempo, é verdade) abandonando seu grupo mutante.



Stan Lee mostra cada vez mais suas intenções com os jovens superdotados trazendo não apenas questões sociais da época (que por si só já destacariam muito suas estórias), mas também vários temas “na moda” do período como ficção cientifica, medo nuclear, aventura de exploração em paraísos selvagens perdidos e, claro, a eterna luta do bem contra o mal.
Outro contexto histórico recorrente nas histórias em quadrinhos da editora Marvel e claramente presente nos primórdios dos X-Men é a da Guerra Fria (1947 a 1991). Ora, não é um paralelo ao período tendo um Professor X preocupado não apenas em localizar mutantes para fazê-los compreender seus poderes e assim, quem eles são, mas também buscando recrutá-los para sua equipe antes que Magneto os convoque para a Irmandade dos Mutantes. Logo, uma referencia obvia aos “países estratégicos” que eram financiados pelos Estados Unidos capitalistas para que não se tornassem comunistas e, assim, aliados à União Soviética. Uma corrida armamentista e, as vezes, intelectual que foi responsável por encontrar e financiar cientistas e estudiosos para cada eixo que tinha um duplo objetivo. Atrair mais para sua ideologia e não permitir que a outra tivesse controle sobre aquele local específico ou descoberta científica.
Inexoravelmente não demoraria muito para a narrativa inocente e clichê fossem dando espaço para um aprofundamento das estórias e dos próprios personagens, heróis ou vilões, como o ótimo exemplo do arco do antagonista Lúcifer. Um antagonista até esquecível que seria mais um “vilão do mês” se não fosse pela narrativa de suspense bem orquestrada por Stan Lee que vai introduzindo o super vilão aos poucos e revelando seu passado ligado ao líder mutante Charles Xavier de forma intrigante e permanente. A mesma idéia é repetida poucas edições depois com o dito meio irmão (na verdade irmão adotivo) rancoroso do Professor X chamado Cain Marko, o Fanático, que se tornou um dos oponentes mais interessantes e imbatíveis dos X-Men até os dias atuais.
O Fanático traz ainda narrativas diferenciadas como uma desculpa para mostrarem um pouco da origem do professor Xavier, mostrando sua trágica infância com o meio irmão (fazendo jus a escolha dos autores pelo nome Cain) e esse arco aproveita para introduzir melhor os X-Men no Universo Marvel com aparições singelas do Demolidor e mais importantes como o Tocha Humana do Quarteto Fantástico. Claro que essas aparições combinadas já haviam ocorrido antes, como o caso da revista Tales of Suspense 49 em que o X-Man Anjo (Warren Worthington III) encontra o Homem de Ferro (Antonny “Tonny” Stark) e na própria revista dos mutantes The X-Men 09 com o surgimento dos Vingadores, mas não tinha sido tão bem trabalhado como agora contendo não apenas personagens, mas elementos das outras publicações da Casa das Idéias, como as famosas Faixas de Cyttorak (entidade presente nas estórias do Dr. Estranho) trazendo os elementos de crossover que fazem tão reconhecível a fórmula Marvel não quadrinhos e mais recentemente no cinema.
Também devemos destacar o clima colegial nas estórias da equipe mutante, onde os pupilos de Xavier são alunos de sua escola para jovens superdotados sendo treinados e até, eventualmente, se formando com direito a beca e diploma. Charles faz às vezes de professor exigente e “linha dura”, apenas da aparência frágil, que “não tolera atrasos” e testa constantemente seus estudantes chegando muitas vezes a abalar o limite emocional dos X-Men quando finge perder os poderes ou desaparece de vez em quando deixando os filhos do átomo perceberem que já podem caminhar sozinhos, e sem sua tutela constante, explorando a qualidade de Ciclope como líder de campo da equipe.
Próximo ao final da fase de Stan Lee temos os melhores representantes do amadurecimento da narrativa dos “jovens mais estranhos de todos”, o advento dos Sentinelas. Robôs de combate autoconscientes criados pelo antropólogo Bolivar Trash para conter a ameaça mutante que o próprio alardeou nos jornais sendo responsável pela histeria ante-mutante. Temos novamente todo um clima de Guerra Fria com um paralelo aos comunistas e ao macarthismo gerando, pelas palavras do próprio Professor X, uma caça as bruxas aos homo superior. Os Sentinelas representam, também, mais um exemplo da influencia da ficção cientifica nas estórias dos X-Men, principalmente quando se rebelam contra seu criador e chegam a conclusão lógica que para proteger os humanos dos mutantes deveriam governar o mundo e escravizar à todos. 



Estão nesses fatores; como trazer heróis e vilões com dilemas humanos e assim cultivar uma identificação maior com os leitores no melhor estilo Marvel, por abordar temas delicados e tensos em uma época de proibição e censura e por nos fazer refletir sobre questões que estavam em evidência no período e no contexto em que foram lançados; é que fazem dos fabulosos X-Men um diferencial importante para as histórias em quadrinhos e que se não tinham toda a popularidade e vendas nessa primeira fase como teriam bem posteriormente, temos aqui toda a base daqueles que seriam alguns dos super heróis mais aclamados não apenas pelos leitores de quadrinhos, mas por toda uma cultura pop que gerou filmes, desenhos, livros e uma verdadeira legião de fãs em todo o mundo.




Aguardem a segunda parte do Guia Definitivo dos X-Men: Ascensão Mutante!