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sexta-feira, 23 de abril de 2021

Black Hammer: Era da Destruição Parte II


Era da Destruição parte II é o último arco (e encadernado) de Black Hammer, uma história em quadrinhos criada e roteirizada por Jeff Lemire com artes de Dean Ormston e cores de Dave Stewart publicada pela Dark Horse em 2016 e trazida ao Brasil pela editora Intrínseca à partir de 2018. Nesse derradeiro volume temos a finalização de toda o enredo da fazenda. O fechamento das pontas soltas na trama e o desenvolvimento de todos os mistérios que já tinham sido esclarecidos, mas que precisavam de uma resolução. Assim finalmente temos as consequências de tudo o que ocorreu antes em uma conclusão anticlimática e que pode ser um tanto indigesta para a maioria dos leitores.   

Para maiores informações sobre os encadernados anteriores, leia nossa resenha Black Hammer: Origens Secretas, Black Hammer: O Evento e Black Hammer: Era da Destruição Parte I. Se você também quiser saber mais sobre a criação desta brilhante obra e de seus autores leia também Black Hammer: Apologia ou Desconstrução dos Super Heróis?    

Iniciando esse encadernado temos uma estória fora (de certa forma) da trama principal com a arte diferenciada de Rich Tommaso. Um quadrinista francês ganhador do Eisner em 2008 por “Melhor Trabalho Inspirado na Realidade” com Black Star: A Verdadeira História de Satchel Page. Aqui seus traços estilizados dão um sabor inesperado ao título e marcam muito bem a saída do enredo central indo por um outro caminho que para um leitor menos atendo pode parecer duas edições que servem apenas para enrolar a estória enquanto se prepara para uma possível finalização épica. 



Entretanto, acredito, que esse não é o caso. Tal início conta sobre a tentativa do Capitão Weird em voltar para a realidade depois dos eventos bombásticos do encadernado anterior (primeira parte de Era da Destruição) onde ele encontra personagens de histórias em quadrinhos que; ou ficaram apenas na imaginação dos seus autores não aparecendo em publicação alguma; ou tiveram uma participação bem menor que o planejado nas estórias que surgiram. É uma estória de contar estórias, uma meta linguagem provavelmente em homenagem ao Homem Animal de Grant Morrison ou à uma certa biblioteca no Sonhar de livros que nunca foram escritos em Sandman de Neil Gaiman. Mas se analisarmos bem tudo que ocorre tá a última edição deste quarto volume podemos interpretar que pode ser muito mais.  

Por enquanto vamos apenas destacar que é sempre bom ver quando Weird vira o protagonista, pois gera estórias estranhas, mas cheias de exploração e com muita imaginação. São sempre picos criativos, mas o enredo principal tem que caminhar e depois do “frescor” deste início temos que voltar a Spiral City e para a conclusão desta saga. E essa volta, também dos artistas originais, marcam uma cidade agora representada com muito mais detalhes... e decadente.  

Isso não é à toa. Spiral City agora pode representar não mais uma cidade fictícia de super heróis, mas um local bem real em que os sonhos e devaneios de seres poderosos cruzando os seus não tinha mais lugar. Talvez seja uma representação de que aquelas histórias em quadrinhos que tanto amamos não tem mais sentido no mundo atual e pessimista ao qual vivemos. Uma hora amadurecemos e devemos deixar para trás toda aquela ingenuidade, por mais nostálgica que seja.  

Para isso Lemire volta ao início. Não cronologicamente, mas um retorno ao enredo ou ao estado inicial das coisas. Novamente os super heróis tem que se reunir e descobrir o que houve. Abandonar uma vida comum e voltar ao extraordinário para resolver os mistérios de como foram parar nesta situação mais uma vez. No entanto, agora também existe a ameaça do retorno do seu grande algoz... O Antideus trazendo certa urgência a demanda atual.  



Muitas são as críticas que justamente nessa reta final voltamos a estaca zero e concordamos com todas elas. Mas é interessante perceber que agora, conhecendo bem todos os protagonistas, o leitor acaba se identificando ainda mais e torcendo pelos heróis de uma maneira mais próxima e intima. O que leva a questão que talvez Black Hammer não seja uma História em Quadrinhos de grandes e complexas tramas com enredo bem elaborado e impactante. Talvez o objetivo do autor desde o início seja contar uma estória de personagens. Talvez seus protagonistas sejam mais importantes do que o próprio enredo e que tudo não passe apenas de pano de fundo para que vejamos tais super heróis sendo desenvolvidos enquanto passam pelos obstáculos da trama. O que realmente interessa aqui é o que acontecerá com eles e como a relação entre os mesmos irá se desenrolar daqui para frente.  

O iminente confronto com o Antideus também traz um paradoxo terrível ao grupo. Sua volta as memórias e condição de super heróis é justamente o que trará o vilão de volta, pois um equilíbrio deve ser mantido e se tivermos super poderes do lado do bem, algo poderoso também se levantará do lado maligno.  

Assim teremos mais um dilema a ser resolvido e talvez seja o maior anticlímax desta saga. Tudo é resolvido não com combate épico final, mas de uma maneira simples, porém dolorosa aos super heróis. Mais uma vez temos várias críticas a forma de como Black Hammer conclui seu enredo, mas é inegável que podemos interpretar e refletir sobre esse final de várias maneiras.  



Ao voltar a fazenda abandonando o super heroísmo, para que deste modo o inimigo não retorne, pode ser visto como uma desistência e de certa forma... uma derrota. É uma interpretação muito plausível e com suas razões bem sólidas. Todo esse arco parece indicar um amadurecimento dos personagens que deveriam se movimentar diante da apatia da vida pacata. Parecia que a ideia era ser contra o conformismo que nos acostuma a situações de tal maneira que não queremos mais mudanças; não por serem ruins, mas por puro comodismo. Assim voltar a fazenda parece uma atitude reacionária de um retorno derrotista a estagnação.  

Para os personagens talvez realmente seja, mas para a estória pode ser uma forte mensagem que tudo muda e que devemos deixar as coisas do passado no passado. Em uma obra que homenageia as histórias de quadrinhos de super heróis, talvez a mensagem seja que não faz mais sentido aqueles personagens que nunca envelhecem ou morrem causando reinícios infindáveis nas linhas cronológicas de seus próprios universos afim de que suas origens sejam mais uma vez recontadas e adaptadas para uma nova época ao invés de simplesmente criarem novos personagens que substituam os antigos. Talvez a intensão dos autores seja mostrar que esse apego nostálgico aos mesmos protagonistas prejudica a narrativa da estória a ser contada limitando muito seu enredo e deixando o leitor afastado de novas experiencias com a nova arte sequenciada. Afinal são apenas os velhos super heróis que voltam a fazenda deixando em Spiral City a mais jovem super heroína cuja a presença não traria de volta o antigo vilão de um remoto passado.  

Existe um sentimento muito forte de descanso merecido nas ultimas páginas da publicação. Algo como se fossem veteranos voltando de uma guerra avassaladora como heróis ao qual tudo que precisam agora é justamente uma vida pacata para enfim... se acomodar e passar seus derradeiros dias. Muito foi exigido deles e, enfim, agora eles podem colher os frutos de uma boa vida comum. Temos então um dos temas mais trabalhados por Lemire em seus materiais, incluindo neste desde o início, uma ode a vida pacata no campo. A cidade interiorana que é o destino perfeito para que se cure os traumas do passado e uma a aposentadoria dos grandes homens e mulheres.  



Assim, apesar de muito controverso, vemos um final muito significativo para uma saga que tinha apenas como propósito homenagear as histórias em quadrinhos de super heróis e acaba por ser bem mais profunda que normalmente vemos em tais estórias. Uma reflexão sobre as responsabilidades que adquirimos em uma árdua e longa vida de batalhas constantes, sejam externas ou internas e a chance de conseguir um derradeiro e merecido descanso depois de todas as demandas e desventuras que o destino nos reservou. Black Hammer é homenagem, crítica e reflexão não apenas aos quadrinhos, mas a nós mesmos seus leitores. Com certeza um dos melhores materiais já produzido pelos amantes da nova arte e muito bem vindo a qualquer tipo de leitor.  

segunda-feira, 22 de março de 2021

Black Hammer: Era da Destruição parte I


Era da Destruição é a primeira parte do terceiro arco (e encadernado) de Black Hammer, uma história em quadrinhos criada e roteirizada por Jeff Lemire com artes de Dean Ormston e cores de Dave Stewart publicada pela Dark Horse em 2016 e trazida ao Brasil pela editora Intrínseca em 2018. Nesse novo volume temos o desenrolar da grande reviravolta não apenas na trama, mas também em sua narrativa fazendo que a estória evolua significativamente onde muitas das perguntas dos arcos anteriores são respondidas dando uma guinada no enredo apontando para seu inexorável desfecho que deve acontecer ainda no próximo e último volume desta brilhante saga da nova arte.  

Para maiores informações sobre os encadernados anteriores, leia nossa resenha Black Hammer: Origens Secretas e Black Hammer: O Evento. Se você também quiser saber mais sobre a criação desta brilhante obra e de seus autores leia também Black Hammer: Apologia ou Desconstrução dos Super Heróis?    

Assim tínhamos tudo para ter um encadernado que serviria de transição apenas ligando um ponto ao outro da estória, mas não é o que acontece aqui. Temos uma continuidade digna da publicação em que somos guiados pelas investigações da Black Hammer (ou Lucy Weber). E, apesar de parecerem bem confusas no início, finalmente chegam em algum lugar e podemos ser surpreendidos com algumas revelações e entender melhor qual é o verdadeiro papel de alguns personagens na trama que foi criada desde o primeiro volume.  

Houveram muitas críticas sobre esse volume, mas receio que boa parte delas seja o estranhamento que causa na mudança quase sutil de narrativa onde temos dois volumes que praticamente servem para desenvolvimento de personagens com a trama tendo seu desdobramento bem lentamente, mas agora temos uma evolução significativa de toda intriga cujo enredo se destaca bem mais na estória que os próprios personagens já apresentados.  

A trama se torna, finalmente, protagonista e o primeiro problema que podemos refletir sobre isso é que se a estória não for entregue a contento, principalmente as revelações desde volume, pode gerar uma decepção aos leitores que, não tem mais uma narrativa que priorizava os personagens bem construídos que tanto foram amados e bem quistos. No entanto, minha leitura é que isso não ocorreu, pois, toda a construção de personagem tem uma significância marcante para entender a reação de cada um as revelações e as motivações que os levaram a agir como agiram, dando uma continuidade coerente a trama apresentada. 


Outro ponto é que as revelações funcionaram totalmente e não decepcionam nem um pouco. Nem com a mudança narrativa que teremos a partir de agora perde o ritmo, muito pelo contrário. Já era imaginado que tudo seria diferente do que prevíamos e que o enredo tomaria mesmo outro caminho. 

Enredos investigativos, quando bem trabalhados, podem se tornar mais interessantes do que qualquer gênero narrativo e é o que acontece aqui. Embora as loucuras e metáforas subjetivas que ocorrem no início deste volume poderiam ter deixado tudo confuso demais, acabou por apresentar uma fábula ainda mais complexa e cheia de camadas mostrando que esse universo é ainda muito maior do que foi, e talvez, será apresentado.  Esse recurso gera uma sensação incrível de verossimilhança que constrói um universo coeso e crível onde não fica a impressão que tudo ali foi criado apenas para uma história em quadrinhos curta.  

Provavelmente este seja o volume que mais apresenta possibilidades para que outras estórias sejam narradas nesse mundo criado por Lemire ao mesmo tempo em que o autor extrapola as homenagens a nona arte cruzando algumas linhas que não tinham sido feitos até aqui, como algumas auto referências e a brilhante citação a obra de Neil Gaiman chamada Sandman, uma das maiores histórias em quadrinhos de todos os tempos.  

Temos então um amadurecimento do que tinha sido apresentado até então que, só seria possível pela empatia criada aos protagonistas de Black Hammer, antigos e novos. E mesmo sendo movidos agora pelo enredo, reagem de maneira convergente às suas personalidades construídas até este ponto e, apesar das revelações mostrarem outras facetas mais profundas dos mesmos, isso ocorre de maneira muito natural e fluída demostrando uma habilidade incrível de Lemire não apenas como criador de estórias, mas também como seu condutor narrativo.  

Toda história de mistérios tem o sério risco de decepcionar quando perguntas começam a ser respondidas e todo um esforço se faz necessário para que a qualidade continue e que depois dos mistérios mais importantes sejam revelados ainda exista interesse no consumidor desta obra. O autor o faz de uma maneira incrivelmente satisfatória demonstrando que todo o emprenho e preparação árdua, como foi considerado em nossa primeira resenha de Black Hammer, foi essencial para construir uma série consistente e de alta qualidade. 


As revelações importantes antes do final não estragam, de forma alguma, a experiência de leitura nem desmotiva o seu leitor pela obra, pois Lemire sabe bem como construir a tensão e mesmo que aqui a pergunta principal, de como os super heróis tenha vindo parar na fazenda, tenha sido finalmente respondida, ainda não sabemos como eles irão resolver os problemas de tal implicação os levou aquele local e ponto terminando o encadernado com um baita gancho ainda mais instigante que as reviravoltas finais dos arcos anteriores. 

Assim tais respostas também trazem consigo dilemas morais, de muitas formas, inexoráveis que impactam profundamente não apenas os personagens como todo, mas também o rumo que o enredo os levará a partir de agora. Esses impasses e reveses são muito característicos de histórias em quadrinhos de super heróis se firmando como mais uma homenagem ao gênero, agora não apenas ao estilo visual ou narrativo, mas também as suas próprias abordagens, mostrando a desenvoltura e, talvez, genialidade do autor em questão.  

Todas as tramas e subtramas apresentadas, todos os meandros de intrigas e revelações que os personagens percorrem, e alguns causam, e toda a linha tortuosa, mas bem fundamentada, que Lemire constrói não faz de Black Hammer uma publicação impar apenas entre seus próprios títulos (que aliás são quase sempre espetaculares) ou entre as histórias em quadrinhos de super heróis que o autor homenageia. Não. Essa produção se destaca também entre toda a nona arte seja para o grande público (mainstream) ou para poucos (underground).  


Temos aqui, neste terceiro volume, mais uma oportunidade de apreciar um dos melhores quadrinhos já produzidos e mais uma defesa de que Lemire é um dos maiores argumentistas e criadores de arte sequenciada da atualidade. É mais uma chance para perceber que estamos em mãos de um material que realmente mereceu os prêmios que recebeu e a aclamação de muitos leitores. Uma daquelas histórias em quadrinhos que eleva o respeito à sua arte ao mesmo tempo que tem a possibilidade de agradar não apenas críticos e profundos conhecedores, mas aqueles que nuca se depararam com a apreciação de uma revista em mãos.  

E que venha o último volume!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Black Hammer: O Evento


O Evento é o segundo arco (e encadernado) de Black Hammer, uma história em quadrinhos criada e roteirizada por Jeff Lemire com artes de Dean Ormston e cores de Dave Stewart publicada pela Dark Horse em 2016 e trazida ao Brasil pela editora Intrínseca em 2018. Nessa continuação temos o desenrolar da grande reviravolta que aconteceu ao final do arco anterior com novos e, por vezes, imprevisíveis desdobramentos onde nos aprofundamos ainda mais no enredo apresentado anteriormente ao mesmo tempo que a trama evolui a pontos que o leitor sequer poderia imaginar.  

Para maiores informações sobre o encadernado anterior, leia nossa resenha Black Hammer: Origens Secretas e se você também quiser saber mais sobre a criação desta brilhante obra e de seus autores leia também Black Hammer: Apologia ou Desconstrução dos Super Heróis?   

Este segundo encadernado consegue manter toda a qualidade do arco passado ao qual foi tão aclamado (e premiado) aprofundando mais nos mistérios que cercam o enredo sem entregar demais rumando à uma finalização posterior, e provavelmente, reveladora. A trama agora é conduzida e guiada pela nova personagem que chega na fazenda e, diferente dos heróis já cansados e quase acomodados à sua situação, ela dá um novo gás as investigações dos mistérios da fazenda Black Hammer, mas principalmente de Rockwood, o vilarejo próximo.  

Assim, somos apresentados a detalhes não antes percebidos, mas que faz toda a diferença na estória dando um ar de mistério ainda não alcançado antes. Somos chamados a investigar juntos as bizarrices e estranhezas do lugar refletindo sobre a natureza não apenas das localidades, mas também dos motivos para que os super heróis de Spiral City tenham parado ali e o que os prendem.  

Tudo isso em uma narrativa precisa dos criadores da obra que encantam o leitor no desenvolvimento da trama e revelações do seu passado, pois aqui ficamos sabendo mais sobre como se deu o chamado O Evento e os motivos para super heróis independentes estarem ali lutando juntos. No entanto, a estória ainda consegue nos surpreender, também, no aprofundamento dos personagens já apresentados no encadernado passado criando ainda mais camadas e tornando o leitor mais “intimo” gerando maior identificação a afinidade com os protagonistas. 



Um dos destaques fica por conta de Barbalien, que já era extremamente cheio de nuances e agora tem sua narrativa evoluindo em momentos de muita coragem do personagem, ao mesmo tempo que nos apiedamos dele em seus momentos de frustações, que acaba o conectando mais ainda a sua grande amiga Gail, A Menina de Ouro que agora passa por acontecimentos muito próximos ao que ocorreu no passado do alienígena gerando uma identificação mútua de amizade e cumplicidade, talvez, impar a todos os personagens da trama.  

Podemos também acompanhar o outro lado de Abraham Slam onde podemos ver alguns dos momentos mais sombrios de seu passado que o levaram a radicalizar em seu conceito de combate ao crime influenciado por algumas verdades ditas a ele no arco anterior. O mesmo ocorre com o Coronel Weird em que visitamos algumas de suas sombras além de termos revelado melhor o passado de sua companheira robótica Talky Walky, uma personagem um pouco negligenciada até aqui, mas que ganha um destaque bem maior agora.  

Aliás a edição sobre como o Coronel encontrou Talky Walky é a única desenhada por outro artista, o escritor e quadrinista espanhol David Rubín que além de trabalhar com várias histórias em quadrinhos também é animador envolvido em alguns longas metragens como O Espírito da Floresta de 2008 e um dos fundadores do coletivo de quadrinhos Polaqia. Embora exista uma boa justificativa para a arte mudar nesta edição, Rubín consegue emular bem os traços de Ormston não causando estranheza ao leitor e nos brindando com desenhos belíssimos. 



Entretanto a cereja do bolo deste encadernado talvez sejam as revelações do passado do poderoso super herói Black Hammer. Como construído anteriormente, em outros personagens, Lemire usa também aqui de referências ao universo dos quadrinhos para compor seu personagem que tem influências das revistas do Thor (também um pouco de Quarteto Fantástico) da Marvel Comics: bem como dos Lanternas Verdes e dos Novos Deuses do Quarto Mundo da editora DC Comics em uma clara homenagem ao mestre Jack Kirby em suas estórias com enredos especiais e cósmicos em uma mistura orgânica de fantasia e ficção científica.  

Tudo isso amarrado ainda em uma narrativa que faz uma leve referência ao Blacksploitation, um movimento artístico estadunidense iniciado nos anos 70 que tinha como caráter priorizar a comunidade afro-americanos como consumidora de cultura trazendo personagens (e, por vezes, autores) negros gerando maior identificação com os mesmos. Assim Black Hammer não é apenas afrodescendente, mas traz consigo todo um universo de poderes e entidades cósmicas também negras.  

Para saber mais sobre Blacksploitation leia a nossa resenha Luke Cage e a Questão da Representatividade Negra. 



Assim, mais uma vez, nos identificamos rapidamente com o personagem sentindo o peso de suas responsabilidades e rapidamente compreendendo as dificuldades dele de manter sua vida de super herói em escala cósmica com a vida comum de pai de família. Aqui está uma das maiores qualidades deste material, dar dilemas bem comuns e cotidianos a super heróis tornando-os mais humanos e falhos trazendo a estória para a vida dos leitores. 

Jeff Lemire é um mestre em transitar entre o espetacular e o mundano, algo não inédito nos quadrinhos, mas utilizado aqui com incrível habilidade e equilíbrio fazendo um enredo orgânico que o leitor se identifica com a própria vida ao mesmo tempo que tem elementos fantásticos absurdos, mas críveis pela própria técnica narrativa de alta qualidade.  

Muitos podem entender este arco como apenas uma continuação. Uma extensão do encadernado anterior que serve não mais como a transição da estória onde o enredo se desenvolve mais um pouco, personagens são aprofundados à medida que novos vão surgindo. Talvez seja realmente isso. No entanto, os autores o fazem com uma maestria espetacular entregando o suficiente para manter o leitor preso a trama que claramente foi bem construída em todo o tempo que foi maturada como projeto e desenvolvimento.  

Logo é muito difícil que os apreciadores da estória até aqui se decepcionem com esse arco e não tenham um certo grau de ansiosidade para saber como vai ser o desenrolar deste enredo tanto quanto o que ocorrerá com estes personagens que foram tão bem apresentados a ponto de que em tão poucas edições já tenham carisma e identificação profunda para aqueles que tenham acompanhado a jornada até aqui.