quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Lobisomem de Minas




“Em presença de tal apelação, mais brabento apareceu a peste. Ciscava o chão de soltar terra e macega no longe de dez braças ou mais. Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azevedo Furtado. Dos olhos do lobisomem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal adjacente. Tanta chispa largava o penitente, que um caçador de paca, estando em distância de bom respeito, cuidou que o mato estivesse ardendo.”
O Coronel e o Lobisomem
José Cândido de Carvalho



Era uma noite quente e fazia vários dias que não chovia naquela pequena cidade do interior de Minas Gerais. Na verdade aquela estiagem estava castigando toda e região e alguns fazendeiros estavam começando a se preocupar com suas plantações de milho, principalmente depois com a atual crise política. Todos já haviam se acostumado com tantos planos e mudanças da moeda, mas era mais a população de baixa renda da diminuta cidade que sofria tanto com o calor intenso quanto pela má administração do governo federal. No entanto, isso era o que menos preocupava a simples e velha senhora Marta Ferreira das Lourdes.
Dona Marta estava mais preocupada com seus netinhos, que acabaram de perder a mãe, vítima de tuberculose, deixando duas pequenas crianças aos seus atenciosos cuidados. A infanta mais nova, chamada Maria, tinha apenas sete anos e o mais velho que se chamava João tinha nove anos. Claro que o pai, o mecânico Lucas Ferraz Nogueira, ajudava a criá-las como podia, mas como ele trabalhava muito e acabou deixando a cargo de sua sogra a criação dos pequenos. Fora o problema com a bebida que Lucas tinha desde que a esposa faleceu, mas a senhora Marta apenas se preocupava com as crianças e como as educaria praticamente sozinha.
A avó estava contando uma estória infantil para as crianças dormirem. Tinha sido um dia duro para todos, mas os netos ainda estavam um pouco ativos demais naquela noite, talvez devido ao calor. Assim a senhora resolveu ler o que sua falecida mãe narrava para fazê-la dormir anos atrás. Era o conto da Capelzinho Vermelho e talvez não tenha sido uma boa escolha para aquele momento, mas João tinha dormido rapidamente e apenas a garotinha ainda estava acordada. No entanto, subitamente Dona Marta parou devido à voz da netinha que embora fosse delicada, acabou assustando a mulher de forma impressionante.
A pequena Maria era uma menina sempre alegre e falante, mas tinha ficado praticamente muda depois da morte da mãe, por isso a avó tinha estranhado tanto a criança falar naquele momento. Não conseguia se lembrar mais da última vez que ouviu a voz da querida neta, mas de certa forma, apesar do susto, ficou estonteantemente feliz por finalmente escutar a voz da garotinha novamente. A alegria fez com que a mulher não ouvisse o que foi dito, mas a neta repetiu:
- Ô vó, por que coisas tão ruins aconteceram com a Chapeuzim?
- Porque ela desobedeceu à mãe e foi para a floresta! – respondeu dona Marta – Não pode sair em um lugar estranho sem que os adultos saibam, minha netinha. Lembre sempre disso. É perigoso lá fora! Ocê pode encontrar o Lobo Mau...
- Vó... pra onde a mamãe foi?
A velha senhora respirou fundo. Sabia que aquela pergunta derradeira chegaria cedo ou tarde e por mais que tivesse se preparado pra ela, foi pega em total surpresa e descobriu que seria doloroso responder que sua amada filha, mãe da garotinha, nunca mais voltaria. Também causava tristeza em dona Marta falar sobre isso, pois também sentia falta dela, mas antes de tudo deveria confortar sua neta. Deveria esquecer sua própria dor para acalentar sua querida Maria...
- Minha querida... ela está no céu! Está com os anjim do Nosso Senhor.
- Ela não vai voltar mais?
- Uai, ocê vai ver ela de novo! Quando for ao paraíso também, mas não agora. Vai encontrar novamente sua mãe, mas não agora...
Dona Marta sentiu uma lágrima correr–lhe a face e não pode continuar. Suspirou profundamente e fechou os olhos tentando se acalmar. Ela não queria que sua neta percebesse a sua angústia. A carinhosa avó queria poupar a pequena Maria de mais dor e tristeza. Tudo aquilo era pesado e injusto com a menina.
- Não queria que ela fosse, vó. Eu odeio a mãe!
- Ela não teve culpa minha neta... não a odeie! É a vontade de Deus...
- Então eu odeio Deus!
Um ruído agudo de vidro sendo quebrado seguido por uma bravata rompeu subitamente o silêncio da noite e que assustou as duas, avó e neta, que pularam abaladas pelo barulho. Era o pai das crianças chegando mais uma vez bêbado em casa. Com certeza Lucas tinha passado no bar depois de ter trabalhado, se é que ele esteve realmente na oficina naquela tarde. A dona Marta olhou para o menino e viu que ele ainda dormia. Menos mal! No entanto, o garoto se moveu quando mais um estrondo ecoou pela casa. Dona Marta deu um beijo carinhoso na garotinha e foi ver seu genro antes que esse acordasse toda a vizinhança.
A doce Avó foi atravessando o pequeno quarto calma e silenciosamente. Chegou à estrada do cômodo, próximo ao corredor, e foi fechando a porta...
- Vó! – exclamou a menina – Deixa a porta aberta!
- Uai, ocê ainda tem medo do escuro?
- É...
Dona Marta não queria deixar a porta aberta, pois as crianças poderiam ouvir seu pai e perceber o estado deplorável que ele com certeza se encontrava. No fundo Lucas era um bom homem, mas a perda da esposa tinha sido demais para ele, ou melhor dizendo, demais para todos. A única que estava forte era a avó, mas mesmo assim ela sabia que era aparente, logo cairia. O que seria desta família se isso acontecesse? Quase desabou na frente de sua menina! Não, dona Marta tinha que ser mais firme. Ela contemporizou sobre a questão e resolveu ascender o abajur e assim poder fechar o cômodo adequadamente.
- Assim está melhor, minha netinha?
- Sim vovó! Obrigada!
- Amanhã é sábado! Dia de irmos ao parque, então durma logo!
- Ah, isso é bom demais da conta!
- Não é? Boa noite!
- Boa noite vó!
Resolvido o problema a avó foi cuidar de seu embriagado genro e saiu do quarto das crianças. Era algo que infelizmente estava virando uma rotina e dona Marta não gostava nem um pouco disto, mas não havia muito a se fazer agora.
A pequena Maria fechou os olhos e tentou dormir. A perda de sua mãe ainda era recente e sempre era difícil dormir. A saudade era indescritível e como em todas as noites a garotinha começou a chorar silenciosamente. No entanto, seu irmão, que nada percebeu, levantou da cama rapidamente e foi até a irmã.
- Vamos agora?
- Nem quero mais ir. – disse a pequena Maria – Não ouviu que a vó disse?
- Ah, o Paulim achou um trem lá. Falou que era da banda que tocou ontem e eu to doido ver!
- Vamos ver amanhã na aula!
- Nem! Sem chance! Quero ver agora!
- Mas e se aparecer o Lobo Mau?
- Uai! Eu mato nele com minha Espada de Greyscow!
- Sua espada? – ralhou a menina – Acha que é o He-man?
- Se não vai, eu vou sozim mesmo!
- Tá! Vou cocê, mas vou levar a Fifi!
Maria se agarrou a sua mais querida boneca, única feita de porcelana e seguiu o irmão. O casal de garotos saiu do quarto pela janela e com todo o barulho que seu pai bêbado estava fazendo, ao resistir à ajuda da sogra, não foi difícil para que os pequeninos fossem soturnos.
Ganharam rapidamente as ruas recém asfaltadas da cidadezinha em direção a casa do amigo Paulo. Um pouco longe dali, era verdade, por isso as crianças tiveram que andar muito. Entretanto estranhamente naquela noite não havia muitas pessoas andando pela cidade. Estava muito tarde e embora à iluminação fosse precária, a luz da lua cheia ajudavam muito os irmãos.
Havia um silêncio perturbador naquelas ruelas e o medo estava dominando cada vez a menina, mas o pequeno João estava corajoso andando com sua espada de plástico em punho e a confiança que apenas uma criança inconseqüente poderia ter. No entanto, o menino parou quando ouviu o som mais aterrorizador que já tinha escutado em todos os seus poucos anos de vida.
- Nó! O que é isso? – perguntou Maria – Ouviu?
- Si... Sim! – respondeu o irmão tentando recuperar a coragem – Mas não deve ser nada!
Ouviram aquele som medonho novamente e desta vez seus pequeninos ossos gelaram de tal forma que mal podiam se mover. Um som primitivo e ameaçador ecoava nas ruas da cidadezinha e mesmo as pessoas que estavam dormindo em suas casas acordaram aterrorizadas apenas para se encolherem ainda mais em seus lençóis ou se esconder covardemente para debaixo de suas camas tremendo irracionalmente em puro pânico.
O som provocava um medo avassalador!
Era um uivo tão sinistro que não poderia ser de um simples lobo comum. Havia uma força maligna naquilo, certa malícia perversa e enlouquecedora. As frágeis crianças estavam totalmente abandonadas e perdidas nas escuras calçadas da pequena cidade no interior de Minas Gerais.
João foi o primeiro a ver o vulto enorme que se formava bem na sua frente e o rosnado selvagem que aquilo produzia. Sentiu um cheiro nauseante de suor que quase causaram vertigem ao garoto. Ele tentou avisar a irmã, mas não conseguia mover um músculo sequer de seu miúdo corpo.
A criatura se movia lentamente se aproximando cada vez mais fazendo fumaça com sua respiração ofegante. O menino pode fitar os olhos dele que brilhavam em tom avermelhado e assustador.
Subitamente a coisa se moveu furiosa e de maneira muito rápida! João mal pode gritar antes de ser abatido pela bocarra daquilo. A primeira mordida foi logo na garganta que fez o garoto espernear. Garras rasgavam a carne com facilidade, mas foi apenas a segunda mordida que fez o menino finalmente tombar imóvel.
A menina naquela altura já tinha se posto a correr apavorada, mas seu caminho foi barrado pelo corpo do irmão que foi lançado contra o seu. A primeira coisa que ela viu foi sangue! Retalhado, jorrava sangue por toda parte do corpinho de João.
Apenas depois a indefesa Maria pode perceber que seu algoz já estava em pé na sua frente. A criança deu um berro alto, mas que fora abafado por mais um uivo tenebroso...


Continua...


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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Contenda...


“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”
Friedrich Nietzsche



A tormenta tinha trazido nuvens tenebrosas e cruéis.
A vontade do Senhor caiu sobre o campo em assas e aço.
Arcanjos trazendo o crepúsculo de toda a maldade.
O punho direito de Deus em uma falange da alvorada.
E o céu se abriu sendo trespassado pelos feixes divinos.

Hostes infernais se batem contra os guerreiros da luz.
Mas nada pode refrear Seu poder incomensurável.
Inexorável como o destino e inevitável como a morte.
O medo se alastra a aqueles que trazem o terror.
E a Terra é consagrada mais uma vez para as alturas.

Não se podem compreender os desígnios da deidade.
Como entender criaturas tão magníficas e perfeitas?
A força mais pura e bela dos sete paraísos platinos.
Mas com a espada sempre suja de sangue abissal.
E os servos Dele choraram por aqueles que abateram.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A Menina que Chorava


“Estória: No sentido de conto popular, narrativa tradicional das manifestações da literatura oral em prosa. Havia a necessidade de ser empregado estória para as narrativas, os contos tradicionais, ficando História para o sentido oficial do vocábulo.”
Dicionário do Folclore Brasileiro
Luís da Câmara Cascudo



Estava tudo no mais perturbador silêncio naquela antiga escola em uma madrugada chuvosa e com trovoadas espaçadas. Mesmo assim, durante dias como aqueles o colégio deveria estar lotado de alunos do supletivo em seus corredores, mas não era o que estava acontecendo ali desta vez. Nas noites anteriores havia ocorrido um crime com um dos alunos da oitava série que naturalmente cursava de manhã.
Era Ricardo de Andrade Silveira que tinha passado a tarde inteira jogando basquete na quadra da escola e foi o último aluno a sair do vestiário naquele fatídico vinte e nove de março de ano de 1992.
Ninguém sabe ao certo o porquê do garoto ter ficado mais tempo na escola e o que o levou a subir as escadas para ir ao banheiro do andar superior. Entretanto isso não era o mais estranho no caso. Curioso e inexplicável é como alguém entrou no banheiro, matou Ricardo retalhando seu corpo e ninguém sequer ouviu o menino berrar por socorro. Apenas foi encontrado por outro aluno, do supletivo, que veio a ir ao banheiro por simples necessidades fisiológicas. Assim não é difícil entender porque aquele caso tem tido uma repercussão tão sensacionalista pela mídia e comovido tanto a misericordiosa sociedade daquela cidade.
Logo, a escola estava interditada nos dias que seguiam o crime e as aulas pararam completamente. Era para a escola estar completamente vazia, mas esse não era o caso daquele dia frio de março. A curiosidade, para o bem ou para o mal, sempre moveu os homens e provavelmente foi isso que levou dois garotos estarem da escola naquela noite chuvosa...
- Juninho? – disse um dos meninos – Acho melhor voltarmos!
- A cara... Não vai amarelar agora né? Parece boiola, meu!
- Sei lá, essa escola ficou meio sinistra depois que o Ricardo morreu!
- Para com isso! Estamos aqui por conta disso, doido!
- Não cara é sério! Vamos sair daqui!
- Já deu Carlos! Se quiser voltar é por sua conta!
- Não volta comigo?
- Nem que a vaca tussa!
- Tá bom! Vamos lá então!
Os dois garotos, que eram amigos de Ricardo, ficaram curiosos com o que aconteceu. Ao contrário do esperado que era ficaram com medo ou pelo menos comovidos com a morte do amigo, eles ficaram curiosos para ver onde seu colega morreu. Onde foi o crime mais hediondo que jamais ocorreu naquele colégio.
- O jornal disse que até parece que foi um bicho cara!
- Se a polícia pegar a gente...
- Ah, pega leve! Tá muito bolado cara.
Ambos começaram a subir a escadaria que dava acesso ao andar superior do colégio. Era onde ficavam as sétimas e oitavas séries. Apenas naquele momento os dois perceberam o quão barulhento era pisar naqueles velhos degraus de madeira envernizada. Carlos tropeçou quando ainda estava subindo e fez um estardalhaço enorme quando se estatelou no chão. Felizmente a queda não foi grande e o menino logo se levantou envergonhado.
- Ai cara, só você mesmo! – disse Júnior – Vai acordar...
O menino não teve tempo de falar, pois o barulho de passos irrompeu pelo andar superior da escola e isso assustou muito os dois. Eram sons tão fortes e claros que não davam para passar despercebidos. Aquilo gelou a espinha dos dois, mas aquela balburdia logo parou e o silêncio aterrador voltou.
- Vamos embora daqui cara!
Desta vez Júnior simplesmente ignorou o amigo e subiu correndo o mais rápido que podia sendo finalmente seguido por Carlos. O garoto queria descobrir quem estaria no andar superior e os dois chegaram rapidamente ao banheiro em que o crime tinha ocorrido. Novamente não ouviam nada e continuaram a andar furtivamente, mas notaram uma coisa realmente estranha. A luz do sanitário estava acessa! Alguém realmente tinha estado ali e aquilo não estava correto. Novamente sobre os protestos de Carlos, o menino continuou.
Entraram no local onde Ricardo havia sido assassinado e perceberam facilmente que alguém já tinha limpado todo o lugar.
- Tá vendo? – disse o medroso menino – A polícia já investigou tudo! Vamos embora!
- Meu, dá pra calar essa boca? – esbravejou Júnior – Ouviu isso?
- O que?
- Isso!
Ambos ficaram quietos e assim se pode ouvir um estranho som que não passava de um murmúrio. Parecia um lamento ubíquo que parecia estar vindo do além. Um choro tão baixo que os dois se perguntaram como tinham conseguido ouvir.
- Sabia que tinha alguém mais aqui! – disse Júnior – Acho que está em um dos sanitários! Venha!
- Cara, isso vem de todo o lugar!
- Não encana Carlos...
- Tá bom, mas pega leve. Acho que é uma menina!
- Podia ser a Karine heim?
- É ruim heim? Nem ferrando que aquele filé estaria aqui, mas se tivesse nós teríamos uma surpresa para ela né?
- Isso seria massa!
Os dois meninos foram entrando no banheiro em direção as divisórias que separavam cada privada. Júnior se abaixou para ver por baixo e não viu nenhum dos pés de nenhuma criança, quanto mais uma garotinha. Como o choro ficava mais alto e focado à medida que eles se aproximavam e o jovem foi se guiando pelo som. Ao julgar estar na porta certa ele a abriu tão repentinamente que assustou seu amigo.
Havia, sentada em cima da privada, uma menina que chorava.
Estava trajada com um vestidinho branco com detalhes azuis de algum tecido que parecia ser algodão. Estava todo rasgado e a garotinha estava com meias sujas e com um dos sapatinhos pretos desamarrados. Estava igualmente imunda e com os longos cabelos loiros todos emaranhados. Ela se sentava com as pernas dobradas e tampando o próprio rosto onde tremia e chorava parecendo ignorar que os dois estavam bem na frente dela.
Os meninos acharam aquilo estranho e não entendiam porque a menina estava lá, mas resolveram falar com ela embora não parecesse ninguém que conheciam e estava vestida com uma roupa totalmente estranha, mas parecida com um uniforme de alguma escola das redondezas.
- Garotinha?
Ela não respondeu.
- Menina, por que você está chorando?
- Por quê? – perguntou à loirinha como em não mais de um sussurro, mas olhando fixamente para Júnior com seus olhos profundos e azuis – Por que vocês foram meninos muito maus!
Os gritos que se seguiram foram tão altos e aterrorizadores que provavelmente seriam ouvidos na rua se a chuva não estivesse tão forte. Relâmpagos e trovoadas rompiam os céus enquanto o banheiro, o mesmo local que tivera sido palco da morte do pobre Ricardo, era tingindo de vermelho novamente. Um espetáculo bárbaro e insano que voltou para a escuridão do silêncio da noite...

Continua...

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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Aqueles versos escritos na areia...



Aqueles versos escritos na areia.
Juras de amor que não importam mais.
Palavras ditas que nunca foram ouvidas.
Afeto que se sentiu apenas sozinho.
Esperança abalada pela desilusão.

Aqueles versos escritos na areia.
Coração doado a mãos duras.
Sangra na falta do acalento.
Pulsando em vão por ti.
Busca por algo que nunca esteve lá.

Aqueles versos escritos na areia.
Flores que nunca foram entregues.
Planos que ficaram apenas nos sonhos.
Momento fora do seu tempo.
O fim de todas as coisas.

Aqueles versos escritos na areia.
Choro quente debaixo da água fria.
Querer bem afastado pela razão.
Grito calado pelo silêncio.
Desespero na escuridão da noite.

Aqueles versos escritos na areia.
Feitos assim para que se esqueça.
Levados pelo mar da existência.
Que temam em ficar na memória.
Perdidos em algum lugar de mim.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Contos Cotidianos


Foi lançado a segunda antologia em que eu participo no dia 26 de março desse ano, mas apenas agora os livros chegaram. Contos Cotidianos é uma coletânia de estórias sobre o dia dia das pessoas e a vida comum. Meu conto no livro chama-se Amizade, mas foi publicado nesse blog como Cotidiano. Sem mais, aqui está a sinopse do livro.

"Este espaço não tem dono. Aqui não existem amarras da ética, religião, dogmas ou qualquer outro empecilho que possa, desrespeitosamente, atrever-se a impor censura.
A liberdade e a clareza de ideias neste livro não serão como animais selvagens que necessitem ser domados, tampouco devam ser ventos a girarem moinhos. Então, que destas ideias não se façam proveito, deixando-as correrem livremente, soprarem sem direção certa, tendo na liberdade o único propósito. Refiro-me à liberdade de criação.
Estas linhas também são minhas, digo, não vêm com a agonia dos dias atribulados, embora falem sobre o cotidiano... Vêm como uma psicografia ditado por ele, quando consigo escapar das voltas do relógio e das exigências diárias, que roubam a criatividade e o tempo.
Quando escrevemos, tornamo-nos livres ou indiferente às comparações, avaliações ou julgamentos a que somos submetidos e aos quais nos submetemos constantemente... Perdemos a casca; criamos um espelho para ver o que não se enxerga na repetição dos dias.
Olhemos o cotidiano e, com criatividade narremos o que nossa observação e imaginação permita ampliar, modificar ou apenas uma prática rotineira, inserida na dureza do que parece imutável. Mergulhemos no cotidiano; escapemos também, nem que para isto tenhamos que mergulhar em águas, quase sempre turbulentas."

Sergio Prado.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O Tempo e a Lua


Raistlin Majere sentou-se pesadamente na pedra já sentindo os efeitos de sua costumeira vertigem devido ao esforço físico provocado pela longa demanda. Sua saúde estava muito debilitada, mas sempre falava para si mesmo e aos demais companheiros que era o preço a se pagar por tanto poder recebido das Torres de Alta Magia. Sua pele amarelada lhe dava ainda um maior aspecto doentio sem falar dos cabelos brancos, mas nada se comparava aos excessos de tosse. Esses eram horríveis.
O mago vermelho estava em uma caverna gelada, mas era bem mais aquecida que a paisagem lá fora. Estalactites e estalagmites frias brotavam diligentes, mas a fogueira que seu irmão prontamente acendeu deve ser o suficiente para trazer calor e luz. Um local isolado dos outros que sempre buscava para consultar seu grimório e preparar suas magias diárias. Um processo longo e dispendioso que lhe exigia muita atenção e dedicação. Gestos elaborados, palavras estranhas e componentes materiais exóticos que provocavam um efeito na trama e geravam uma determinada magia.
Entretanto, antes dele sequer pegar o livro, uma pessoa se aproximou pela entrada da caverna e isso já o irritou. Queria um tempo para si e seus novos “amigos” pareciam não quererem deixá-lo em paz. Era sempre assim e aquilo estava incomodando Raistlin de uma maneira que afetava seu físico e veio a crise de tosse.
Foi assim que Lua Dourada o encontrou. O aparente frágil arcano estava limpando a boca com seu lenço que se tingira rubro como seu robe. Aquela era uma doença eterna que o matava por dentro e estaria sempre mostrando que o poderoso mago era apenas um mortal no fim das contas.
- Veio me curar princesa exilada de Que Shu? – perguntou o alto mago – Receio que a incomode ser sacerdotisa da Deusa da Cura e andar em uma campanha com alguém tão enfermo como eu.
- Eu posso... – tentou começar ela, mas Raistlin a interrompeu com novos rompantes de tosse e se levantou ignorando-a.
O homem se afastou dela indo em direção a fogueira em chamas buscando um pouco mais de conforto e aparentemente deu certo, pois suas crises deram finalmente alguma trégua. Entretanto Lua Dourada o seguiu e sentou-se do lado dele. O arcano a encarou e viu apenas olhos amáveis. Deveria ser uma linda visão observar aquela mulher, mas o jovem não poderia vê-la da forma que os outros viam. Não podia ver ninguém da forma que os outros normais faziam. Seus olhos de íris em formato de ampulheta viam apenas a passagem do tempo e como toda a matéria se deteriora. Não era uma linda jovem que o alto mago via, mas uma mulher envelhecendo e isso o deixava ainda mais triste e pessimista. A real percepção das coisas como costumava dizer para si mesmo. Tudo está sempre morrendo.
- Porque sempre se afasta dos seus amigos? – indagou a clériga – Eu sei que algo o incomoda, mas posso ajudá-lo!
- E nada a faria tão feliz não é mesmo? – ironizou o mago – Por trás de seu aparente altruísmo está à satisfação pessoal de sanar os males de alguém como eu ou levar para o rebanho esse cordeiro desgarrado.
- Você não é maligno, o que todos falam sobre ti não é verdade. Eu sei que existe bondade em você!
- Ora, sabes de muitas coisas não é mesmo? A grande princesa dos bárbaros já sabe tudo ao meu respeito, mesmo depois do que? Alguns dias que nos encontramos pela primeira vez na Hospedaria do Lar Derradeiro? Agora tu e todos estes teus “amigos” conhecem-me perfeitamente não é mesmo? Sinto dizer querida que as profundezas da minha alma sejam bem mais espessas!
- Sei o suficiente para dizer que o que tens posso curar, mas é a ti que não queres que eu te cure.
- Parabéns, você adquiriu a incrível habilidade de perceber o óbvio!
A lenha fumegante estalou distraindo os dois e dissipando a tensão que havia sido criada pela conversa. Raistlin aproveitou o momento para se retirar e ir mais adentro das sombras da caverna. Com apenas uma palavra mágica, shirak, ele fez a bola de cristal na ponta do seu cajado se iluminar e o usou-a como um archote para que não fosse totalmente imergido na escuridão.
Lua Dourada o seguiu prontamente, pois não queria desistir ainda de seu companheiro. Não sabia se havia verdade nas palavras dele. Ela, como qualquer mulher com sua sabedoria e comprometimento, questionava-se o tempo todo. Perguntava se estava sendo útil a causa dos deuses. Perguntava se era realmente um instrumento da vontade deles.
Assim a sacerdotisa o seguiu.
Caminharam por alguns metros mais adentro da garganta da caverna e quando o frio voltou a incomodar, Raistlin parou e encarou Lua Dourada nos olhos. Aquela não era uma das visões mais agradáveis, pensou ela, mas estava focada em seu objetivo e pedindo forças a Deusa ela iniciou.
- Vocês magos se acham inteligentes e são mesmo! No entanto é uma qualidade adquirida exclusivamente pelo conhecimento. Tanto aprendem, mas pouco sabem o que fazer com isso. Os arcanos valorizam muito pouco a sabedoria.
- Entendo. – disse Raistlin – Acredito que apreciem sua intuição e capacidade de tirar deduções baseados no nada. Claro que conhecimento é inútil não é mesmo? Já que são sempre guiados pelos deuses!
- Não foi... – a clériga parou, pois apenas agora tinha entendido como suas próprias palavras soaram arrogantes. – Eu só estou tentando entender você. – agora Lua Dourada estava conseguindo ser mais humilde – Sei que acha que eu o ajudo por arrogância, mas eu realmente acho que tem um lado bom em ti e por algum motivo não mostras... talvez por...
- Medo! – completou o mago vermelho – Não acho que seja arrogância querida, mas com certeza não é altruísmo. Você ficaria muito satisfeita consigo mesma se me conseguisse “salvar”. Isso não condiz com altruísmo não é mesmo? A grande sacerdotisa da Deusa da Cura se importa mais com estar agradando sua própria divindade que com minha alma, disso tenho certeza!
- Sabe o que eu acho? – Raistlin não respondeu, mas olhou para ela atento. Assim Lua Dourada achou melhor prosseguir – Acho que você fala muito sobre mim mesmo dizendo que nos conhecemos pouco. Diz-me que não sei nada sobre você, mas sabes muito sobre mim não? Acho que fala assim pra esquivar do ponto principal de nossa conversa.
- Quer saber sobre mim? O cavaleiro já não lhe disse o bastante? Sou um arcano e por isso só posso ser maligno e ele está certo, devo ser justo, pois nada ficará entre eu e meus objetivos. Qualquer um que se opor a mim sofrerá conseqüências e isso meu irmão pode lhe dizer melhor que eu mesmo!
- Será mesmo ou isso é apenas a projeção que os outros fazem sobre você? Talvez goste dessa imagem, pois isso lhe protege como uma armadura. Se você os decepcionar logo no inicio não ficará com remorso quando abandonar aqueles que ama, mas sabe de uma coisa? Todos têm um propósito! Guiados pelos deuses ou não e o grande mago Raistlin também tem o dele e tenho certeza que é bem diferente que eu ou qualquer um de nós possamos imaginar.
- Existem sombras em mim Lua Dourada. Mais que possa imaginar e sua cruzada para me salvar falhará vergonhosamente.
- Existem sombras em você? Ora, meu caro, existem sombras em mim e no mais altruísta dos heróis de Ansalon! Tal como existe bondade no mais perverso dos corações. Acha realmente que dizer que eu falharei vai me fazer desistir?
- Não! – disse o arcano – No entanto essa sua visão maniqueísta do mundo vai fazer com que cometa erros e vai se arrepender deles no fim. Bem e mal não existem realmente, são apenas pontos de vista.
- Agora sabes do meu futuro?
- Sabe por que eu tenho esses olhos de ampulheta? Por que eu vejo o futuro e tudo se desintegrando no processo. Eu vejo a sua morte como vejo a de todas as pessoas que conheço ó grande Filha do Líder! Quando todos vêem a linda e perfeita Lua Dourada eu apenas vejo seu corpo envelhecer inexoravelmente.
Aquilo fez o coração da sacerdotisa descompassar. Ela tentou disfarçar, mas percebeu no sorriso de Raistlin que tinha falhado miseravelmente. Se o mago vermelho dizia a verdade aquilo deveria ser horrível. Ver tudo morrendo... Então a clériga o entendeu. Finalmente alguém tinha compreendido. Como poderia haver esperança em alguém que só via o mundo em decadência e ruína?
- Talvez eu não possa o compreender meu caro. Todo mago se gaba por não ser marionete dos deuses, mas acaba sendo influenciado também.
- Como assim?
Ele fez uma pergunta e Lua Dourada percebera que realmente tinha chamado a atenção daquele homem tão reservado. Era aquele o momento que ela poderia ajudar verdadeiramente. Ela tinha que atacar sua arrogância.
- Os deuses podem não guiá-lo, mas você, como todos nós, é influenciado pelo seu meio. Pelas pessoas que dizem quem você é e pelas circunstâncias impostas pelo seu destino. Tenta desesperadamente ser dono de seu destino, mas se entrega a algo traçado por fatores que acredita não estar em suas mãos.
- Eu sou o que eu mesmo faço de mim!
- Então me prove isso e faça com que todos vejam que você não é o mago que eles projetam em você, mas que é bem mais que isso. Não dominamos o futuro meu amigo, mas pode ser o mestre do passado e do presente.
- Realmente existe sabedoria nas palavras de uma sacerdotisa! No entanto, como saber se sou o que sou por mim mesmo ou pelo meio em que vivo?
- Realmente existe inteligência nas palavras de um mago! Não saber é o que deve nos motivar, meu caro. Sofremos decepções, mas são elas que fazem nossa vida mais interessante...
Os dois sorriram e a imagem do arcano não era mais assustadora para Lua Dourada como a imagem da clériga não era mais tão mórbida para Raistlin.
- Receio que a decepcionarei sacerdotisa!
- Mesmo? Acho que ficará surpreso do quanto coloco minha fé em ti. Acho que você nos salvará antes do fim. Acredito mesmo!
- Eu vejo a morte minha querida e seu fim será com um grande sacrifício e isso é tudo que vou revelar sobre sua morte.
- Então é tudo que preciso saber e fico feliz, pois me mostraste agora que servirei a causa plenamente. Como disse, ainda há bondade em você.
Lua Dourada se afastou do mago deixando-o em suas próprias sombras na penumbra da caverna. Raistlin a acompanhou com o olhar enquanto podia e contemporizou sobre as ultimas palavras que ela disse. Os últimos momentos dela, que o mago tinha visto com seus olhos de ampulheta, estavam claros na mente dele, pois aquela visão também era sobre seu próprio futuro. Talvez não exista mais bondade nele, mas existe amor e estava preparado para matar aquilo que nunca tinha existido.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Adeus.


“Ela se vestiu, e se olhou;
sem luxo, mas se perfumou.
Lágrimas por ninguém,
só porque, é triste o fim.
Outro amor se acabou.”
Ela disse Adeus – Os Paralamas do Sucesso

A menina caminhou entre as ameias floridas da primavera, mas mesmo com todas aquelas cores, a alegria não atingia a sua alma. Sua mente não estava ali, mas no quarto que acabara de sair, de ter sido abandonada. Pensou em olhar para trás uma última vez, talvez buscando aquele que a tinha deixado, mas desistiu rapidamente desses pensamentos e só pensava como ainda não havia chorado. Depois de tudo que aconteceu, não tinha derrubado uma lágrima ainda.
Aquilo tudo era tão injusto, tão derradeiramente injusto. Ela o tinha amado tanto, talvez mais que os outros e mesmo assim tudo tinha dado errado. Realmente tentou fazer tudo certo desta vez. Prometera a si mesma a nunca se entregar totalmente de novo, devido a decepções passadas, mas não tinha conseguido evitar. Ele era tão apaixonadamente charmoso. Seu sorriso era tão lindo e as marcas do tempo que se formavam em seu rosto lhe davam uma calma única.
Não queria, mas aconteceu e agora só podia lamentar por ter ocorrido da mesma forma que tantas outras vezes. Ela o amou, mas o fez sozinha como nos versos de Poe e pensou se em algum momento aquele lindo rapaz de olhos escuros gostou realmente dela em algum momento.
Tinha feito tudo por ele e foi em vão. Achou que naquele momento seria diferente. Apostou tudo por aquele homem. Tudo seu era de seu amado e ele tinha o coração dela nas mãos, mas preferiu partir em outras aventuras. Ela seria apenas mais uma daquelas aventuras, pois o amor tinha se fragmentado em mil pedaços como um vidro que se quebra e nunca mais pode ser concertado totalmente.
Mais uma vez ela estava sozinha e novamente às ironias do destino a exigiam força para seguir em frente. Sim! Seria forte, mas estava tão cansada de ser forte sempre. Tão cansada de nunca demonstrar seus sentimentos. Suas fraquezas. Isso a estava deixando dura e tinha medo que seu jeito a fizesse se tornar uma mulher sozinha e isso era, talvez, o que mais a assustava.
A jovem perdida meneou até um banco quase em vertigem. Sentou. Colocou as mãos ao rosto quente e as lágrimas salgadas finalmente deslizaram em sua pele alva como a chuva suave das tardes que teimavam não vir naquele dia. O dia estava feliz, era apenas ela que estava triste. Apenas ela. Foi então que olhou para trás e...
Ela disse adeus.