segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Segredo de Crisálida


Olá a todos!
Primeiramente venho pedir desculpas por não postar nada no blog por um bom tempo, mas estou envolvido em algumas estórias grandes demais para colocar aqui e se alguém desejar acompanhá-las pode acessar o site http://www.fanfiction.com.br/fizban
Hoje venho usar um pouco deste espaço para comentar sobre o lançamento de meu primeiro escrito na antologia de poemas chamada “O Segredo de Crisálida.”
Lançado dia 29 de janeiro deste ano na Biblioteca Alceu Amoroso Lima em São Paulo capital, o livro reúne vários autores organizados pela Andréa Catrópa e editados pela Andross.
Meu poema presente nessa antologia chama-se “Sombra” e já foi postado ano passado aqui mesmo nesse blog.
Fiquei muito contente pela aposta que a editora Andross e seus organizadores depositaram em um de meus trabalhos e me sinto realizado de certa forma.
Sem mais eu apresento a sinopse do livro e espero postar mais contos e poemas nesse blog em breve.

“O estado de permanente transição a que estamos condicionados talvez seja a essência inegável da vida. Tudo o que nos remete à passagem do tempo revela mutação. Lentas e graduais, ou bruscas e repentinas, as diversas transformações que vivenciamos cotidianamente irrompem como movimentos definidores de nossa identidade e construtores de nossa trajetória. A poesia é uma das formas mais frutíferas de expressão das metamorfoses. E, quase sempre, não se pode prever qual é o resultado das mutações. Então fica o mistério. É como tentar descobrir o segredo da crisálida.”

Muito Obrigado a todos que têm me acompanhado tão fielmente!

domingo, 26 de dezembro de 2010

O Urso e a Raposa

O urso ficou admirado com sua audácia!
A pelugem rubra podia tê-lo encantado,
mas era a inteligência da raposa que o impressionava...
Por um bom tempo ele ficou parado,
pois não tinha a menor idéia do que fazer!

A raposa se recostou no corpo do urso!
Aqueles braços poderosos a cobriram,
já que o urso tinha muito carinho guardado...
No entanto, ele era forte demais e,
como sempre, o urso machucou quem amava!

A raposa fugiu mais rápido que um raio!
Como os outros animais ela estava desesperada,
logo acabou se machucando caindo em um buraco...
Ficou presa em um emaranhado de gravetos,
com medo do grande urso que se aproximava!

O urso a resgatou prontamente!
Assim a raposa pode entender seu gesto,
pode entender que ele queria apenas seu bem...
Sentiu toda angustia do velho urso,
logo prometeu que nunca o abandonaria!

Um grande sentimento floresceu entre os dois!
O urso estava muito agradecido,
pois tinha encontrado uma amiga finalmente....
A raposa estava muito feliz,
agora tinha a quem confiar!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Raposa

...então o urso caminhou sozinho mais uma vez!
Já estava acostumado a ser abandonado,
muitos animais não o compreendiam...
Toda a esperança tinha abandonado o urso,
entretanto ela reacendeu mais uma vez!

Passeava perto do urso uma doce raposa!
Era peralta e tinha uma beleza impar,
que demonstrava toda sua sagacidade...
Graciosa ao caminhar,
não demorou a perceber a presença do urso!

A raposa era um animal desconfiado por natureza!
Pequenina e extremamente frágil,
tinha aprendido a sobreviver com sua evasão...
Entretanto não era apenas furtiva a raposa,
pois tinha uma forte tendência a curiosidade!

A mais esperta dos animais da floresta!
Sua iniciativa a fazia agir sempre,
mas sua impulsividade já lhe trouxe problemas...
Estava indecisa ao que fazer,
já que o urso parecia ser ameaçador.

Era também tão intrigante!
A raposa o rodeava com estrema leveza,
atenta a todos os seus movimentos...
Ela olhou com desconfiança ao velho urso,
mas decidiu se aproximar toda amável!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Lenda de Eastwood


“And I walk these streets, a loaded six string on my back
I play for keeps, 'cause I might not make it back
I've been everywhere, still I'm standing tall
I've seen a million faces and I've rocked them all”
Wanted Dead or Alive – Bon Jovi



Dwight Callahan heim? Estou sabendo! Bom, eu sei que não é sobre mim que você está interessado, já que eu não sou ninguém! Você quer saber do xerife Bill com certeza. Todo mundo quer saber dele! Não sei muito mais do que a maioria aqui de Eastwood e duvido que alguém lhe fale sobre o passado dele. Sabemos tudo sobre sua chegada e permanência em nossa miserável cidadezinha, mas o que veio antes é apenas estória que o povo conta.
Ficamos bem abaixo de Albuquerque e Santa Fé. Estamos muito longe da sua cidade ianque, seja ela qual for e diabos! Ficamos meio longe até mesmo de El Passo, mas passa por aqui quase todo viajante que quer chegar ao longínquo oeste sem ter que enfrentar a cordilheira que acompanha o Rio Grande vindo de Roswell. Esse é o caminho mais conhecido, mas não tão fácil. Têm os bandoleiros e bem, por essas terras, sempre tem os peles vermelhas.
Acho que não é isso que quer saber, não? Você quer saber sobre o xerife que carinhosamente chamamos de Bill Law. Bom, posso dizer, quase com certeza, que o nome dele é Willian Jackson Lawrence e foi sargento do décimo terceiro regimento da quinta cavalaria dos Estados Unidos da América. Sim, imagino que esteja pensando em Old Jack, mas falo nisso depois.
Dizem que Willian desertou em algum momento durante a Batalha de Little Big Horn onde muitos afirmam que ele foi viver entre os selvagens e se não acredita em mim, pode ir na delegacia conhecer o Cheyenne que está sempre com o xerife, mas o chame assim e você vai acabar com uma machadinha no peito!
Bom, mas deixa eu falar do primeiro dia em que a cidade viu o xerife. Eu estava sentado bem aqui, no fundo do saloon, quando ele entrou pela primeira vez. Ninguém o conhecia na época, nem de rumores. Sentou-se no balcão e pediu uma bebida qualquer para o Danny Boy. James Carson, que era o xerife de Eastwood na época, foi até o homem para saber o que aquele forasteiro queria por lá. Normalmente Carson não faria isso, mas Bill estava armado e ele resolveu perguntar. Era algo comum sabe? Muitos viajantes passam por aqui e a maioria armado. Já falei dos índios não? Enfim, quando James estava bem perto de Law houve um estrondo seco e o xerife caiu.
Lawrence tinha dado um tiro que pegou Carson de surpresa e deve ter morrido antes mesmo de cair no chão. Todos ficaram assustados, claro, mas ninguém gostava do xerife, pois ele trabalhava mais para os fazendeiros que para qualquer um que estava ali e isso marcou a sentença de James.
Bill pegou a estrela de xerife e colocou no próprio peito. Assim o homem virou lenda. Disse seu nome inteiro e falou que se alguém tivesse problemas com aquilo para procurá-lo na delegacia. Assim o novo xerife saiu e logo ouvimos mais tiros, era ele matando os dois únicos ajudantes do xerife e não ouvimos mais nada.
Todos ficaram com medo, pois como eu disse o antigo xerife trabalhava para os fazendeiros e logo haveria um tiroteio entre os capangas de algum colono e o pobre Willian, mas não foi isso que aconteceu.
Naquela mesma tarde; Frank Turner, o homem que tinha mais terras nas redondezas, apareceu na delegacia em pessoa, com seus homens, para conversar com o novo xerife. Acredito que ele pensou que podia comprar Lawrence como fazia com o outro, mas no meio da conversa acabou levando um tiro de surpresa também. Só que Turner não morreu e os capangas se prepararam para abrir fogo contra Bill.
Ninguém sabia, ou melhor ninguém teria sequer imaginado, mas havia homens nos telhados das casas perto da delegacia. Eram homens de Willian! Abriram fogo e houve uma pequena chacina em nossa pequena Eastwood.
Quando a poeira abaixou não tinha sobrado ninguém do lado de Turner, que também estava morto. O xerife deixou isso como um aviso para que ninguém desafiasse a sua lei. Sim, Lawrence era a lei agora e nenhum outro fazendeiro tentou matá-lo abertamente depois disso. Assim a lenda virou mito e muitas coisas se falam de nosso amado xerife Bill Law.
Agora vou lhe contar a primeira vez que eu vi Bill. Sim, eu acabei de contar a primeira vez que Eastwood o viu, mas eu já tinha visto ele antes e com esse breve relato você poderá tirar suas próprias conclusões sobre o passado de nosso xerife.
Estava em El Passo, ao sul daqui, quando o vi pela primeira vez, ou melhor, quando receio que o vi. Estava em um estábulo preparando meu cavalo para seguir viagem quando eu o vi entrar. Era o mesmo homem que se tornaria Bill Law com certeza. Aposto meu bigode nisso! Só que Willian estava vestido com uma farda dos confederados e isso tinha desagradado algumas pessoas ali. Havia um grupo de soldados da União que resolveram tirar satisfação com Bill. Aquilo deu em briga e você já deve imaginar o que aconteceu. Mas o mais importante era a farda, que todos sabem que a única pessoa que ainda tinha coragem de usar a farda nesses dias é o famoso criminoso conhecido como Old Jack!
Então tire suas próprias conclusões! Na verdade, acredito que já saiba de tudo que estou falando, pois eu percebi sua reação quando disse o nome do xerife inteiro.
Não! Está tudo bem! Imagino que seja um daqueles caçadores de recompensa pagos pelos fazendeiros que não querem peitar o Bill Law de frente ou talvez um dos novos agentes do presidente querendo descobrir se ele é realmente Old Jack.
Bom, tenho uma boa notícia e uma ruim para você.
Sim, a boa notícia é que ele realmente é o famigerado bandido, ou melhor dizendo, foi o pistoleiro e ladrão de bancos.
A má noticia, meu amigo, é que eu me juntei ao bando dele em El Passo e infelizmente terei que matá-lo agora. Nada pessoal sabe, mas é o meu trabalho. Tenho que matar qualquer forasteiro que venha perguntando do passado do xerife. Mas fique tranqüilo, escutará apenas um estrondo seco e morrerá rapidamente, sou bom nessas coisas sabe?

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Letrinhas Dispersas

Poucas vezes eu irei mudar a forma que eu posto em meu blog para escrever outros temas e esse é um desses momentos. Meu propósito é divulgar meus contos, estórias e poemas e tem sido assim desde quando o criei. No entanto, essa é a segunda vez que modifico isso e a razão não poderia ser mais especial.
Quero homenagear uma pessoa incrível em que conheço há muito pouco tempo, mas foi responsável indiretamente por esse blog, seja como fonte de inspiração, seja como apoio para continuar escrevendo...
Lívia Inácio.
Conheci-a no cursinho. Ela era aluna enquanto eu dava aulas de História do Brasil e infelizmente tivemos um contato muito superficial. Lívia passou no vestibular e foi fazer a tão sonhada faculdade de jornalismo.
Esse ano uma amiga em comum esteve trabalhando com ela por um tempo e, mediante a esse contato, eu tive a oportunidade de “visitar” seu lindo blog.
Chamado “Letrinhas Dispersas” o blog de Lívia se dedica a contos, estórias e poemas, mas essa aparente semelhança com o meu blog pode enganar.
Eu nunca poderia escrever com tanta beleza, delicadeza e ingenuidade que faz tão bem a nossa alma e coração.
Nesse sentido seu blog é o oposto do meu e sempre que estou cheio de preocupações e problemas permeando minha mente é para o “Letrinhas Dispersas” que eu vou, pois sempre tem um escrito novo e cativante.
Nossa querida Lívia é possuidora de uma habilidade ímpar com as palavras tornando a leitura gostosa e agradável.
Fica aqui então minha dica, em um 12 de outubro, para todos aqueles que querem ter a incrível sensação de voltar no tempo e ler algo de pureza límpida e suave para esses dias tão escuros que estamos vivendo agora.
Vocês encontrarão um dos melhores blogs que eu já tive a sensacional oportunidade de ver a acompanhar fielmente.
Parabéns Lívia!!!

Letrinhas Dispersas
http://letrinhasdispersas.blogspot.com/

domingo, 19 de setembro de 2010

A Caçada


Aquela parecia ser uma noite espetacular. Alguns diriam que estava linda como qualquer outra noite. No entanto, havia algo em especial. Eu podia sentir isso na terra, podia ver nas luzes, podia cheirar no ar. Algo distante e insolúvel, mas afetava meus sentidos avassaladoramente. Essa latente sensação permeava minha mente e enquanto contemporizava sobre o assunto, mal notava todos os olhares na minha direção que minha simples existência provocava com tanta naturalidade no “After Dark”.
Localizada no, talvez, bairro mais boêmio do Rio de Janeiro, a boate After Dark era certamente uma das casas noturnas mais tradicionais da Lapa. Embora não fosse o samba que embalava as noites ali e por isso mesmo o lugar sendo o ponto de encontro de muitos cariocas que fugiam do convencional. Por isso eu estava ali, mas não apenas para me divertir, embora realmente poderia pensar isso. Infelizmente eu estava lá para realizar a única coisa que ainda me motivava depois de tanto tempo.
A caçada.
Digo isso porque nunca gostei. Já tive medo e teve um tempo que me sentia imoral ao fazer isso, mas agora eu tenho repugnância. Caçar é algo inexorável para os filhos da noite e eu mesma já me conformei com isso, no entanto, aceitar é muito diferente de gostar. Eu odeio fazer isso, embora minha sobrevivência dependa disso e por alguma ironia do destino, sou muito boa na caçada, e essa é a horrível verdade.
Caminhava em meio a uma profusão de etnias e talvez esse seja o maior diferencial desse país. Um amontoado de pessoas de diversas origens culturais se misturava como se pertencesse ao mesmo povo. Claro que estávamos no Brasil e claro que somos uma nação, mas esse sentimento de união não é tão forte como a maioria dos mortais pensa e sinceramente me pergunto se algum dia foi.
Assim meu escolhido se revela para mim. Era um homem alto com o corpo de quem deve malhar regularmente, mas sem exageros. Simplesmente odeio homens musculosos do tipo que chamam hoje em dia de “bombados”. Tinha os cabelos loiros e olhos verdes de uma tonalidade que se tornavam azuladas dependendo da luz. Um rosto fino que estava em acordo com o padrão de beleza de hoje em dia e eu apreciava isso, pois ele representaria perfeitamente seu propósito.
Sabia que era um homem inteligente, que se chamava Carlos Luca e trabalhava com publicidade em uma proeminente agência de propaganda no Paquetá. Na verdade, eu sabia muitas coisas sobre ele, já que eu o observava havia muito tempo com a ajuda das dádivas das trevas. Sabia do seu caráter e ambição. Conhecia seus mais íntimos segredos e por isso mesmo era meu escolhido.
Carlos já me observava.
Minha beleza já tinha chamado sua atenção bem como e quando eu queria que acontecesse. Não mais precisava da distração do ambiente. Estava ali, bem na minha frente e ele me admirava com fascínio. Eu causava, além de tudo, um deslumbramento sobrenatural. Uma atração que abrangia bem mais que o mundo físico. Deveria ser uma bela visão. Talvez tenha sido uma das últimas coisas que eu aprendi a manipular, mas uma das primeiras que utilizava inconscientemente.
Sabia muito bem o quanto eu era linda, pois já era elogiada mesmo antes de meu renascimento. Era desprovida de falsa modéstia. Olhos azuis celestiais e cabelos negros profundos como a Baía de Guanabara nas noites de lua nova. Meu corpo era praticamente perfeito. Bem desenhado e de uma delicadeza que atraía impreterivelmente os homens. Normalmente minha pele era muito branca, mas fiz questão de me cuidar bem para que as cores rosadas voltassem. Eu era a própria personificação da beleza divina em meio a meras e simplórias pessoas com suas curtas vidas.
Assim eu não precisava fazer quase nada. Bastava eu ficar sentada no bar, sem pedir nada, para que meus galantes pretendentes se aproximassem. Gentilmente descartava aqueles pobres coitados que em vão tentavam algo e trocava alguns olhares com meu escolhido para que o mesmo criasse coragem de me cortejar. Claro, foi justamente o que aconteceu.
Carlos se aproximou aparentemente confiante, mas eu escutava a batida acelerada de seu coração. Sentou-se do meu lado e dirigiu um olhar penetrante a mim e com um menear suave perguntou:
- Muitas cantadas?
Esse foi o início, obtuso a meu ver, mas propício aos meus objetivos, e deixei que ele me pagasse um Daiquiri com Morango e conversamos inúmeras futilidades enquanto cedia aos poucos às suas investidas. Queria que meu escolhido imaginasse que estava no controle, que estava jogando bem e me conquistando sem perceber que era ele mesmo o manipulado. Carlos era bom nesse jogo, mas não poderia vencer uma mulher com quase duzentos anos de vida.
O rapaz se sentia perdidamente atraído por mim. Podia perceber isso com todos os meus sentidos. Eu era ardente como as chamas de uma fênix que restaurava suas paixões mais profundas. No entanto, ao mesmo tempo, eu era evasiva na medida exata para lhe dar um ar misterioso e alimentar o desejo dele. Sabia trabalhar bem com isso, pois eu também era fria como o inverno e se encontram nesta dicotomia meus maiores talentos que estavam tirando a sanidade de Carlos rapidamente.
Toquei suavemente sua perna e disse que queria ir para algum lugar mais reservado. Claro que ele aceitou imediatamente e quando partirmos da boate After Dark aprestei minha audição à cata de ouvir todos os comentários sobre nós. Falavam mais sobre a sorte do rapaz do que sobre mim mesma. Minha beleza estonteante logo se nublaria na lembrança deles e embora seja impossível me esquecer, ninguém poderá me descrever exatamente, pois serei sempre uma imagem onírica indelineável.
Partimos no carro dele e passamos por vários bairros admirando o frescor e as belezas da Cidade Maravilhosa. Ficamos um pouco em uma praia de Ipanema para que eu pudesse estimular ainda mais suas emoções e depois fomos para minha cobertura não muito longe dali. Na verdade, todo o prédio, o “Marquesa Palace Hotel”, era meu e se todos os meus negócios pudessem ser computados eu seria considerada a mulher mais rica de todo o sudeste e talvez de todo o país.
Isso faz com que eu tenha meu próprio andar no prédio, que pode ser alcançado apenas por um dos elevadores e mesmo assim é preciso ter a chave que apenas meus mais leais servos possuem. Aqueles que tentarem passar por eles descobrirão rapidamente que suas habilidades e força também são sobrenaturais.
Logo que chegamos não tive sequer a oportunidade de lhe servir uma bebida ou mandar buscar algo para comer do restaurante “Lafayette”, pois Carlos me cobiçava tanto que logo cedemos à simples luxúria. Meu escolhido logo descobriria que sou uma ótima amante, com certeza a melhor que ele jamais possuiu e isso, ligado ao fascínio que emanava de mim, fez com que minha mordida fosse prazerosa ao invés de causar sofrimento.
Excedendo ao simples sadismo, o profundo beijo dos amaldiçoados acabava liberando a libido e adrenalina dos mortais. Essa era uma realidade que dava certa vantagem na caçada, mas nem toda pessoa reagia assim. Alguns tinham uma incrível força de vontade e sempre tínhamos que trabalhar com o imaginário das nossas vítimas, e logo era imprescindível todo o jogo que eu provocara antes.
Comecei a sugar seu sangue e a satisfação que aquilo me causava era inexplicável para qualquer mortal. Era muito mais forte e intensa que qualquer coisa que tinha experimentado quando eu ainda respirava. Melhor que os prazeres físicos como o sexo e os sentimentos que acalentam o espírito como o sorriso de nossa mãe.
Larguei-o na cama e sentei tranqüilamente enquanto o belo rapaz estrebuchava, perdendo sua vida a cada segundo. Carlos estava branco pelo sangue drenado sem entender o que estava lhe acontecendo. Na verdade ele entendia. Apenas não podia acreditar no que lhe parecia óbvio naquela situação.
Eu era uma vampira.
A dor que sentia, a vertigem e o terror que percorriam todas as fibras de seus músculos era uma sensação que eu conhecia muito bem, pois já tinha passado por aquilo e mesmo que de uma forma diferente dele, era um sentimento único. Aquilo me deu certa nostalgia e, sentada em frente à vista que dava para o encontro entre as avenidas Bartolomeu Mitre e Delfim Moreira, resolvi quebrar o silêncio e falar:
- Eu podia observar bem melhor todas as constelações na minha época – disse para o rapaz às portas da morte. – Agora até aqui a vida contemporânea poluiu os céus. Claro que esse lugar não era mais que um terreno vazio, mas já havia algumas chácaras quando meu criador se mudou para o Rio de Janeiro. Era um local calmo e tranqüilo, bem diferente desses dias, mas devo confessar que o Leblon ainda possui seu charme. Talvez seja por isso que eu tenha tantas posses ainda nesse lado da cidade.
Escuto os grunhidos quase surdos de Carlos e me lembro de toda a ardência que era ter o sangue drenado desta forma, mas ele ficaria vivo se assim desejasse ou melhor, como eu, ele nasceria novamente, mas para as trevas.
- Não seja rude, meu rapaz – disse para meu escolhido às portas da morte. – Se bem que eu também fui não é mesmo? Meu nome é Lívia Bastos de Castelo Branco e tenho vivido em seu país desde 1823. Sim, respondendo sua pergunta eu sou uma vampira, mas você ainda pode viver. Poderia dizer que lhe darei a grande dádiva da vida eterna, mas nossa vida é um tormento terrível pelas sombras do submundo. Meu motivo de querer transformá-lo não é menos egoísta que o que fez meu criador a me fazer renascer, porém ao menos eu estarei contigo em seus primeiros passos e isso já lhe bastará. A dor que sente é porque a magia profana está começando a agir em seu frágil corpo e isso é apenas o início. Ainda tem vários passos para se completar o ritual, mas por boa parte dessa noite nada pode fazer a não ser sofrer, e durante esse desagradável período eu lhe contarei minha história.





Introdução do meu romance sobre vampiros no Rio de Janeiro chamado:


A Fênix do Inverno

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Estrela do Mar


“O pescador tem dois amor
Um bem na terra, um bem no mar”
O Bem do Mar – Dorival Caymmi



O pescador olhava para o mar e sentia sua própria tristeza refletida nas ondas letárgicas do outono. Era extremamente difícil se conseguir peixes durante aquela época, mas o mais complicado era encarar sua própria família. Ver aqueles rostinhos decepcionados quando ele não traz o único sustento da família.
Parecia aquele mais um dia como estes. Suas desventuras no mar trariam fome às pessoas que ele mais amava. Isso era mortal para o pescador e cada vez menos sentia vontade de voltar ao mar.
No entanto, parou o barco em um ponto qualquer e voltou a pôr a rede na água em sua última esperança de pescar peixes. Ficou ali um tempo e puxou a rede de volta sem nada encontrar, ou era o que imaginou naquele momento. Nos emaranhados de corda, lixo e algas o pescador encontrou algo que julgava nunca encontrar.
Uma estrela do mar.
Sentou no convés de seu pequeno barco totalmente fascinado pela beleza daquela brilhante estrela que ele encontrou em meio ao universo do oceano.
Era linda! Tinha o azul do céu e brilhava refletindo todas as luzes que caíam sobre ela, como se toda a beleza do mundo se curvasse diante dela.
Aquilo enchia os olhos do pescador, deixando-o em êxtase profundo. Então ele se lembrou do passado, quando viu pela primeira vez uma estrela do mar.
Infante ainda na época, ele não sabia como reagir a àquela beleza, não sabia apreciar sua delicadeza, mas seu fascínio já tinha encantado o pescador.
Lembrou das brincadeiras que fazia com os amiginhos da escola e do tempo que passava com seu pai na pescaria. Adorava aquilo, adorava os tempos do colégio, em que sua única preocupação era se divertir. O pescador teve saudade daquele tempo.
A estrela do mar lhe trouxe todas aquelas boas lembranças. Ele quase pode sentir tudo novamente, como se vivenciasse de novo. Queria agradecer à linda estrela por ter feito tudo isso, mas não sabia se ela entenderia. Na verdade não saberia como fazer, pois era um simples pescador e entendia apenas de peixes.
Revigorado ele voltou a jogar a rede no mar e buscou, inspirado pela estrela do mar, o sustento para sua família. Não mais importava se conseguiria ou não, o pescador estava feliz como não era há muito tempo. Isso devia muito a ela...
Estrela do mar.