domingo, 25 de agosto de 2013

O Espadachim



“A espada será a justiça dos oprimidos
Apenas o mais temerário a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas”


E caminhou desdenhosamente pelo convés com um sorriso insolente. Coragem. Arqueava suas costas e retesava seu peito como se fosse o próprio arauto da justiça a andar em seus passos desleixados e olhar provocativo. Estava diante de mais de trinta oponentes, mas mesmo assim continuava temerário em sua demanda. Se não fosse determinado por si mesmo, deveria ser pelo menos pelos escravos. Não era uma defesa para salvaguardar sua vida, mas sim busca pela liberdade daqueles que não puderam lutar por si mesmos.
            Eram apenas uma questão de fluidez, lâmina e teatralidade.
            Aquele era uma nau ergothiana destinada ao tráfego de escravos oriundos de todas as regiões de Ansalon. Muitas civilizações já tinham abandonado a vil prática da escravidão, mas o Império de Ergoth ainda continuava com sua prática arcaica. No entanto, isso terminaria se dependesse de Guy di Kardigan. Mais conhecido com a alcunha simples de Rei Pescador, Guy tinha deixado suas terras em Solamnia e se dedicado a defender os oprimidos nos mares do Oceano de Turbidus e ganhou esse apelido irônico. Entretanto, ele o adotou com felicidade e rapidamente ficou conhecido por seus ataques a navios escravocratas. Literalmente pescava os escravos e levava as terras livres dos Senhores dos Cavalos.
            Assim, com o sofrimento dos indefesos em mente, ele enfrentava todos aqueles homens cruéis sem se importar com a própria segurança. Qualquer pessoa que viesse a ver aquela luta, naquele instante inicial, chegaria a conclusão que Guy era louco e que morreria facilmente diante daqueles homens brutais. No entanto, apenas a primeira afirmação poderia ser verdadeira.
            O Rei Pescador surpreendentemente saltou pelos escravocratas e agarrou na ultima hora uma das cordas entre o mastro do traquete e o principal. Subindo com a celeridade de uma leoa ele chega a uma altura que deixaria muitos cavaleiros tremendo de medo. Mas Guy era audacioso e cortou uma das cordas e seguiu pendularmente pelos mastros até saltar novamente e literalmente pousar sobre a proa.
            Aquilo tinha sido incrível e ele quase pode sentir o medo crescendo em seus oponentes. Logo ele rapidamente sacou a espada do oponente mais próximo e o cortou suficientemente profundo para ele desmaiar. Sem tempo para reações, o audaz Rei Pescador ainda cortou a perna de um segundo oponente e perfurou a barriga de outro, usando-o como um escudo para os eventuais ataques que receberia agora.
            Deu certo!
            Vários inimigos usaram de flechas e quadrelos para atingi-lo e o corpo obeso do homem aparou os ataques e as poucas investidas. Rapidamente Guy se livrou dele e lançou a espada em alguém. Agora ele estava pronto para sacar a própria espada feita de metal élfico, mas forjada por anões ela tinha a qualidade de ambos; leve e resistente.
            Os escravocratas correram para confrontá-lo, mas um convés não era lugar para esse tipo de investida. Bateram uns nos outros, caíram nas cordas presas na proa. Claro que aquela confusão foi muito bem vinda e aproveitada por Guy que se reduziu a enfrentar apenas os oponentes que conseguiam chegar até ele. Caminhava com passos deliberados para trás até chegar na ponta do navio e subiu na carranca.

            Se a vantagem do número se perdera nos momentos passados, agora ela era totalmente nula, pois havia espaço apenas para um atacante por vez e esse também deveria tomar cuidado para não cair do navio... E caíram. Um por um eles foram caindo nas profundezas do mar tragados pelos próprios pecados.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Crepúsculo do Heróis

             
Nesses dias eu, como muitos da minha idade, fui com muitas expectativas ver o filme novo do Superman chamado Homem de Aço. Não irei falar diretamente sobre minhas impressões sobre esse filme aqui, mas comentarei principalmente o final (SPOILER) em que nosso “herói” mata em suposta defesa dos inocentes o vilão chamado Zod.
            Minha maior estranheza não foi com tal fato em si, mas com o pequeno garoto de apenas 4 anos que assistia o filme ao meu lado no cinema indagar o pai do porque o Superman estava se penalizando pelo tal ato. O pai, atenciosamente, explica que o “Super” não queria matá-lo, já que ele é um herói e heróis não fazem isso. O garoto respondeu simplesmente que Zod é um vilão, logo ele DEVE morrer.
            Entrei em uma leve discussão sobre isso com um grande amigo meu e fiquei refletindo sobre um de seus comentários. Ele disse que nos dias de hoje os heróis morreram e agora temos apenas anti-heróis e isso atinge até os clássicos heróis. Juntando isso ao fato de muitos comentários na internet sobre o filme eu sou obrigado a concordar com tal argumento.
            Mas... Por quê?
            Mudamos tanto assim que não vemos mais a necessidade de criar estórias com heróis clássicos para nossas crianças?  
            Ora é natural preferirem Han Solo à Luke Skywalker, Lancelote à Rei Arthur ou Wolverine à Ciclope. No entanto, sempre existem os Lukes da vida, mesmo que sejam apenas para contrapor o anti-herói. Esses são personagens ótimos, sem dúvidas. A lenda do Rei Arthur é pior sem o Lancelote (a original era assim), mas também fica péssima sem a caracterização do herói.
            Receio que isso se iniciou pela fissura na profundidade dos personagens. Isso é ótimo, pois colocar tons de cinza em enredos os torna mais verossímeis, mas e os velhos contos de fadas. Ainda existem espaço para os heróis de caráter inabalável?
            Aqui, receio, que nossa sociedade tem algo a dizer. Vivemos em um mundo em que a violência não é só banalizada nos jornais, mas nas nossas ações do dia a dia, quando fechamos o vidro do carro para não ver um mendigo na rua ou cometermos pequenos delitos dentro da máxima de sermos sempre os mais espertos.
            Vivemos um tempo em que dizem que é melhor ser o opressor do que ser a vítima e isso não é de hoje, vem desde lá de trás. Da História que não estudamos e do mundo que fingimos ignorar.
            A literatura, filmes ou quadrinhos são apenas reflexos da sociedade de uma época em questão. Sendo assim há muito mais por trás do Superman, um “bom moço” ser retratado da forma que foi em seu último filme. Há muito mais por trás de personagens fascistas como o Capitão Nascimento ou psicopatas como Rorscharch serem aclamados como verdadeiros heróis pelo público.  
            Claro que eles são ótimos, adoro ambos, mas não em colocação de que o herói clássico é um otário. Li muito sobre que o novo Superman não é mais um otário. Eu mesmo tenho minhas queixas pessoais ao antigo “Super” como um personagem que representa o conservadorismo e o ufanismo estadunidense, mas obviamente esses aspectos estão presentes no novo filme, mas seu lado paladínico foi extirpado.
            Talvez seja exagero ou conservadorismo meu ou talvez a visão da Bradley em As Brumas de Avalon onde Arthur é um corno otário e Lancelote é o grande herói, mesmo roubando a mulher do amigo tenha sido trazida a quase todas obras nos dias de hoje.
            Os valores mudaram, sem dúvidas, mas eles mudam sempre não é mesmo?
            Não é no final dos anos 70 no ápice dos filmes de anti-heróis como em Desejo de Matar e Taxi Driver que um impopular nerd iniciou uma das maiores franquias do cinema chamada Star Wars,onde um jovem cavaleiro resgata a princesa de uma fortaleza impenetrável?

            Adoro anti-heróis sem dúvidas. Adoro o Han Solo, Dexter e o Justiceiro. Adoro aqueles heróis com cara de vilão que trucidam os vilões e causam uma vingança poética naqueles que oprimem suas vítimas. Sobretudo adoro os tons de cinza de um fascista e psicopata chamado Rorscharch que tem uma visão mais pura e verdadeira no final de Watchmen, mas permitam que as pessoas também possam conhecer, e quem sabe adorar, o Coruja...

sábado, 10 de agosto de 2013

O Comunismo da Shadaloo



       Tenho visto muitos comentários sobre como o comunismo ou socialismo são perversos e mataram milhões de pessoas na história. Receio que até aqui tranqüilo, pois faz bem discutir o Stalinismo e vários movimentos socialistas que não deram certo ao redor do mundo, embora eu me pergunte como seria uma obra chamada “O Livro Negro do Capitalismo” relatando as mortes que esse sistema já provocou. No entanto, não é sobre isso que eu vou problematizar.
       A questão é sobre como o socialismo tem sido “vilanizado” de forma minimamente erronia nesses últimos tempos. Parece até, que voltamos a Guerra Fria com o comunismo associado aos planos infernais de Lúcifer.
          Saindo o argumento religioso temos agora que todos os “vilões” da história são obviamente socialistas e quem discorda não tem senso crítico, afinal foi enganado todos esses anos pelos seus professores de história. Ora, colocam, sem nenhum argumento plausível, que regimes totalitários como o Nazismo alemão e a Ditadura Militar no Brasil, como socialistas e de estruturas comunistas.
          Pré-vejo a indignação de alguns lendo isso, mas o pior é que essas associações estão sendo levadas a sério e já estão sendo ensinadas nas escolas. Isso, para mim, apenas mostra o quanto estamos com problemas na educação.
      Entenda que meu desejo não é transformar os comunistas em mocinhos e nem colocar a direita capitalista como vilão. Não. Se você acredita no neoliberalismo e acha que as privatizações foram às melhores coisas que aconteceram no Brasil, tudo bem. Discordamos, claro, mas entenda que todos têm o direito de lutar pelos ideais que acreditam. Então, estude sobre o neoliberalismo, estude os governos pós-Regime Militar e tenha base coerente e argumentativa para defender a direita que, com certeza, também teremos a base para defender a esquerda.
          No entanto, o que me incomoda é a falta de argumentos minimamente bem embasados, as mentiras e invenções absurdas colocadas para dizer que os Presidentes Militares do Regime, que Hitler e que Napoleão são “obviamente” socialistas.
          Ora, se seu professor de história mentiu para você e caso tenha percebido isso, espera-se então que tenha visto e refletido sobre fatos e questões que o tenha feito chegar à outra conclusão, não é mesmo?
        Não dá para colocar que o Nazismo, que tinha um sistema econômico conservador sim, mas totalmente industrializado e ligado ao capitalismo como socialista, meu caro. As idéias ficam ainda piores com o Regime Militar que era liberal na economia e totalmente ligado aos Estados Unidos.
          Ter uma opinião sobre isso é uma coisa, inventar mentiras e, pior ainda, ensinar essas mentiras é ainda mais complicado. Não há base coerente nesses discursos e levantar que o Regime Militar Brasileiro é socialista é tão inverdade como falar que Jesus Cristo é Comunista.
          Defenda a direita, defenda o conservadorismo ou o neoliberalismo, mas faça isso consciente. Discuta. Provoque. Mas acima de tudo não minta e não tome como defesa a falácia de que o outro lado é “tudo de ruim” e o “maligno do mundo”.
            Receio agora que você esteja se perguntando, o porquê do título...
           Pois bem, “Shadaloo” é uma organização fictícia de um jogo de vídeo-game chamado “Street Fighter II”. Acontece que na história desse jogo todas as organizações criminosas do mundo estão diretamente relacionadas com a “Shadaloo” que é liderada pelo poderoso e maligno Vega (ou Mrs. Bison na versão estadunidense). Esse é um homem que é o símbolo do mal, que faz atrocidades por puro prazer e controla todos os criminosos do mundo, sejam eles traficantes do morro à máfia italiana.

           História infantil e maniqueísta que resume exatamente alguns pensamentos e opiniões políticas dos dias de hoje. Algo realmente bem infantil. A “Shadaloo” é tudo de ruim do mundo, ora o socialismo é todo o mal do mundo, visto que Vega usa uma roupa militar vermelha...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Escudeiro




 “O escudo será a proteção dos desamparados
Apenas o mais honrado o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas”


E cavalgou entre os desamparados como se o pavor deles não o atingisse. Honra. Percorria as ruas do vilarejo investido pela armadura de aço trabalhada em finos detalhes que poucos forjadores eram capazes de entalhar. Seu escudo ostentava o Martim-pescador símbolo das Terras dos Senhores dos Cavalos levando os aldeões a tomá-lo como um nobre.
        Tinha realmente a coragem de um dos Cavaleiros de Solamnia das antigas lendas da formação dos reinos. Sabia o que tinha que fazer, mesmo que isso significasse a sua morte. Ele o faria. Inocentes deveriam ser protegidos e isso era mais precioso para ele que sua própria vida. Não tinha pronunciado seu juramento ainda, mas já tinha sua palavra como sua honra e sua honra era sua vida. As pessoas o tomavam como sua ultima esperança, mas mesmo assim fugiam desesperadas pelo maior temor dos seus íntimos. Mesmo aquele homem de armas não trazia conforto totalmente. Mesmo a imagem idealizada que tinham dele. Aquele guerreiro não era um cavaleiro de verdade, mas um escudeiro. Alguém que vestia as armas de seu lorde que estava apavorado e escondido de baixo de sua própria cama como uma criança indefesa pelo medo do escuro.
         Todos abandonavam a pequena Seridan. Todos tinham medo do pesadelo ancestral que tinha voltado para assombra-los. Todos tinham medo do dragão e seu hálito fumegante. Os telhados de feno das casas já estavam em chamas para o terror dos aldeões, mas isso parecia não incomodar o escudeiro. Ele continuava com passos nada vacilantes do cavalo de seu senhor e contra a maré de pessoas entregues ao caos e insanidade. O escudeiro avançava calmamente para a pequena entrada leste da Vila e pensava se alguém, ao menos, conhecia seu nome ou se saberia escrever algo sobre ele em sua lápide. Entenda que Huma era corajoso, mais que muitos Cavaleiros Solamnicos, era verdade; mas já não tinha esperança nenhuma de enfrentar o Dragão Vermelho e sobreviver a contenda. Então porque ele continuava? O escudeiro deveria ser o símbolo para aquelas pessoas, isso Huma tinha aprendido bem como também sabia que os inocentes deveriam ser protegidos.            
            Não importa se sobreviveria ao empate ou não. Estava escrito na Medida e na verdade não precisaria disso para saber que era o certo a fazer. Como escudeiro ele tinha ouvido muito seu lorde recitar a Medida, ou seja, as leis de cavalaria, mas Huma não seguia tal código... Ele era o código. Saiu da cidade e contemplou por um momento a neve por cima da Cordilheira de Granada e podia jurar que era capaz de ver a Floresta Enegrecida do outro lado, mas toda a paisagem se alterou quando o besta pousou na sua frente.        
           A primeira coisa que sentiu era o calor que emanava daquele corpo escamoso e rubro como sangue. Quente mesmo no inverno.As ventas bufavam um vapor escuro e fedorento como os de um vulcão preste a entrar em erupção. O Dragão abriu as assas esperando que o escudeiro fraquejasse e se entregasse a draconofobia. O cavalo empinou e o escudeiro desmontou para que o animal fugisse. Assim Huma apenas libertou calmamente a espada de sua bainha. Ambos se encararam por um tempo. O Dragão Vermelho e o jovem escudeiro. O terror e a esperança. Huma tinha esquecido de tudo em sua volta. Tinha esquecido de todo seu passado e tudo que tinha aprendido. Havia somente aquela besta na sua frente. Ele apontou a espada para a criatura e trouxe a lâmina para sua fronte. Cumprimentando solenemente seu oponente. A enorme serpente rubra arfou buscando ar e fervendo as chamas dentro de si. O ar ficou ainda mais pesado e quente como os nove infernos. Era o fim de todas as coisas. O Dragão soprou...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Triunfo e Tormenta


E ele tinha perdido tudo. Já deveria ter se acostumado com as perdas, mas aquela, por algum motivo misterioso, tinha sido a pior de todas. Sua maior conquista e sua total ruína. Um triunfo derradeiro que o levou a inexorável tormenta. Tê-la nos braços e perde-la logo depois tinha sido a pior tortura. Por um momento o cavaleiro exilado desejou nunca a ter conhecido, mas esse sentimento durava apenas até lembrar-se dos olhos de sua amada. Então aquilo doía novamente. Sentia, pois sabia que debilmente faria tudo de novo. Aquela mulher era sua perdição e o homem não poderia fazer nada a esse respeito.
Sor Jorah Mormont tinha sido o chefe de sua Casa desde que seu pai, Jeor, tinha deixado a Ilha dos Ursos para servir a Patrulha da Noite na Muralha. Desde que seu pai o tinha deixado Garra Longa, a espada de aço valoriano. Como tinha saudades de segurar aquela lâmina novamente! No entanto, aquela arma não o pertencia mais. Suas terras também não mais eram dele, assim como sua própria Família. Era um guerreiro proscrito que agora vagava fugido de sua pátria e dos próprios Sete Reinos. Estava fora de Westeros em uma modesta casa em algum lugar pobre de Lys, uma das Cidades Livres.
Ele tinha conquistado e perdido tudo. A causa de todo seu triunfo e tormenta era a linda e nobre Leyton Hightower. Por ela Sor Jorah vencera inesperadamente o torneio em Lannisporto. Entenda, o cavaleiro era um guerreiro experimentando pela guerra contra a Rebelião dos Greyjoy e tinha sido um dos primeiros a chegar à praia das Ilhas de Ferro, mas não era tão bom com cavalos e justas. Tinha vencido contra todas as expectativas. Tinha vencido por amor e para tornar sua amada a Rainha do Amor e da Beleza. Tinha feito de tudo para impressioná-la e, para sua ruína, realmente conseguiu.
Venceu o torneio e levou sua pequena para casa. Casou e foi um lorde mais feliz que qualquer outro do Norte. Entretanto, os Hightower eram de uma Casa ainda mais alta que os Mormont e Sor Jorah descobriu rapidamente como era custoso manter a felicidade de sua bela Leyton. Os recursos da Ilha dos Ursos foram postos ao prazer de sua amada levando sua Casa a falência tão rápida e avassaladora como foi sua paixão pela mulher. Foi então que o cavaleiro cometeu seu pior e mais hediondo erro...
Sor Jorah encontrou um grupo de caçadores vagueando por suas terras, roubando seu gado e invadindo suas posses. Não havia dúvida que se tratava de criminosos, claro, mas não foi a Justiça do Rei que ele aplicou. Não foi há seu Lorde, Eddard Stark, que o cavaleiro jurou vassaladagem, que condenou os bandoleiros. Foi o próprio senhor da Casa Mormont que os condenou e os vendeu ilegalmente para o mercado de escravos Tyroshi. E isso é crime, tanto no Norte como em todos os Sete Reinos de Westeros.
Assim, Sor Jorah não enfrentou seus crimes como deveria na condição de cavaleiro, pois não aceitou ser condenado a morte por Lorde Stark e nem se juntar ao seu pai e vestir o preto fazendo os votos na Muralha. Ao invés disso, o homem fugiu apaixonado com sua esposa para as Cidades Livres e conseguiu uma casa miserável em Lys. No entanto, Leyton Hightower continuava dispendiosa e nem seus ganhos como mercenário era capaz de aplacar sua luxúria e logo sua amada o abandonou e partiu para sempre.
Agora ela deveria estar em outro lugar com outro homem e Sor Jorah; chefe da Casa Mormont, Senhor das Ilhas dos Ursos, cavaleiro exilado e mercenário tinha perdido tudo por aquela mulher. Tinha perdido tudo em vão. Não! Por pior que fosse, mesmo naquele momento de pura tristeza e abandono, ele não pensava assim. Tinha valido a pena. Mesmo perdido tudo e principalmente sua honra, tudo tinha a recompensa de ter sua Rainha do Amor e da Beleza mesmo que por pouco tempo. O cavaleiro proscrito ainda conseguia sorrir debilmente apaixonado em meio a toda aquela melancolia. Teve sua paixão vivendo-a plena e intensamente. Quantos homens poderiam falar o mesmo?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Arqueiro


“A flecha será o equilíbrio dos soberbos
Apenas o mais sábio a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas”



E puxou o ar para dentro de si. Segurou. Retesou seus músculos como fazia com a corda do arco e, embora essa fosse uma tarefa que cansara de realizar, tudo era mais difícil de fazer absorvido em plena guerra. O Arqueiro tinha que se concentrar de alguma forma. Buscar em sua sabedoria o equilíbrio. Tinha que se acalmar mesmo em meio a aquela profusão de gritos e sons metálicos. O caos já tinha tomado conta do campo de batalha e não era mais em ordem como no início do conflito. Agora não tinham mais a vista aquelas lindas e esvoaçantes bandeiras desfraldadas. Era apenas aço, poeira e sangue.
Landaker ou apenas Lander, como era chamado pelos companheiros mais próximos, tinha um bom arco. Feito de madeira de olmo vindo da Floresta Enegrecida e esta era flexível e resistente como deveria ser. A corda era de fibra das trepadeiras que revestiam as raízes dos mesmos olmeiros e era tratada com cera. Era retirada sempre que ele não usava a arma para não desgastar a madeira. Havia materiais mais nobres que aqueles, era verdade, mas um arqueiro nunca foi dos homens mais abastados de um exército.
Era um homem das montanhas, mas ao contrario do que era esperado de sua posição, tinha sido treinado pelos melhores povos que usavam arco de toda Ansalon. Aprendeu com os elfos a se focar no alvo de tal forma que este se tornava a única coisa que importava. Com os solâmnicos ganhou a capacidade de se manter firme nas adversidades do combate, pois esses Senhores dos Cavalos disparavam suas flechas montados. No entanto, foi com os hashashin de Khur que aprendeu a ser frio, deixando o ar sair calmamente enquanto buscava seu alvo.
O alvo.
Muitos já tinham sidos alvejados por Lander até agora e já era hora de parar de buscar soldados. Tinha que atingir aqueles que, mortos, mudariam o sentido da guerra. Tinha que ter como alvo os comandantes. Tinha que flechar os nobres. Todos os guerreiros eram apenas borrões agora, mesclados, mas foi então que seus olhos pousaram em uma armadura escura de escamas dracônicas. Crânio de Dragão Negro era forjado no elmo trazendo seu símbolo cavernoso para aquele campo. Mas agora não mais. A morte também viria para o senhor negro e o arqueiro iria se assegurar disso. Iria garantir que aquela arrogância e displicência escapariam do homem farto de títulos e riqueza. Suas terras não o protegeriam agora. Sua Casa de nada lhe valeria contra o Arco Longo Composto que era tencionado pelos braços taciturnos de Lander.
Tudo ficou mais lento e o Arqueiro quase não podia mais ouvir aquele barulho infernal do conflito. Percebeu que um jovem de infantaria estava correndo para atingi-lo, mas Lander nem se moveu. Estava com a mente fixa em seu alvo e assim não tinha medo de morrer, apenas receio de ser atingido antes de seu arco disparar. No entanto, um dos milicianos aliados atingiu seu algoz com a espada e salvou-o para que pudesse fazer seu trabalho. E ele o faria.
Seus braços estavam tão friccionados que Lander nem sentia mais dor. Puxou a corda até quase arrebentar. Era forte, como eram os arqueiros, pois tinham de aprender desde crianças. Um árduo treinamento que os diferenciava dos besteiros. Qualquer um podia usar uma besta, mas somente alguém experiente poderia manejar um arco longo. Assim ele era pura vontade e determinação. Eram apenas o arqueiro e o alvo.
Disparou a flecha que voou, em pleno equilibro, galgando o campo de batalha. Acima de toda a soberba e arrogância dos cavaleiros escuros. Não importava mais se o atingiria ou não. A flecha era livre. Pensou o Arqueiro. Como ele era livre.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Coração


Que seja como pede a sua vontade.
Não é assim tão ruim no final das contas.
Posso apenas imaginar como seria.
Sempre vivi de sonhos e ilusões.
Escuto sua voz me chamar baixinho.
Sinto seu toque por todas as manhãs.
Até vejo nossos filhos no parque...

Mas tenha apenas compaixão.
Devolva aquele velho coração.
Que você levou em vão.