sábado, 27 de agosto de 2016

X-Men: A Saga da Fênix Negra e a Apologia a Pena de Morte


A fabulosa saga dos “Filhos do Átomo” iniciada em setembro de 1979 e teve sua polêmica conclusão um ano depois na The Uncanny X-Men 137. Escrita por Chris Claremont, que estava se consolidado como autor definitivo dos “heróis mais estranhos de todos” com ajuda no roteiro de John Byrne que já tinha se destacado também como desenhista da revista dos mutantes.
Era literalmente a porta de entrada para os anos 80 e toda uma revolução que ambos iriam fazer nas Histórias em Quadrinhos fundamentando o alicerce para que a equipe de Charles Xavier se tornasse literalmente o “carro chefe” da Marvel Comics e que resultou em toda a popularidade dos X-Men anos 90.
Não é segredo para ninguém que A Saga da Fênix Negra é um dos arcos mais bem quistos tanto entre os fãs dos mutantes bem como de toda Marvel. Nesse exato um ano de mensais dos X-Men figuram sempre em posição privilegiada entre qualquer lista das melhores revistas tanto da editora Marvel quando de Histórias em Quadrinhos no geral e não é para menos.
Uma das obras principais dos “Filhos do Átomo” que levou não somente os X-Men a enfrentar uma das piores ameaças do Universo Marvel, pois a entidade cósmica destruidora de galáxias conhecida como a Fênix não era “apenas” uma ameaça inexorável, mas também tinha possuído e mantinha como receptáculo a então mais querida de todos os membros da equipe... Jean Grey, a Garota Marvel.
Para os X-Men enfrentar a Fênix Negra era ao mesmo tempo enfrentar sua melhor amiga e esse dilema permeou toda a Saga gerando um paradoxo terrível entre combater um de seus membros ou deixar que toda a existência fosse ameaçada. Uma dicotomia moral ainda pior para o líder de campo da equipe mutante chamado Ciclope, pois este estava entre o amor de sua vida e todo sonho e ética heróica em que ele mesmo foi construído.
Tudo fica ainda mais complicado na fatídica The Uncanny X-Men 135 em que a Fênix Negra para se “alimentar” acaba por devorar uma estrela que era como o Sol para todo um planeta alienígena habitado que acaba por conseqüência também sendo destruído no processo, ou seja, a Garota Marvel tinha cometido um genocídio horrendo com o poder quase absoluto que tinha naquele momento.
Tão conhecida é essa história em quadrinhos como também é o seu controverso final. Estampada em todas as reimpressões encadernadas e de luxo pelo mundo. Hoje um chamariz para novos leitores... Jean Grey, a Fênix Negra morre.
Morre condenada pelo crime inaceitável de exterminar toda uma civilização planetária apenas para restaurar suas energias. Acusada e julgada pelo Império Intergalático Xiar e defendida pelos X-Men, mas mesmo assim sentenciada e executada a Pena de Morte.
Durante uma entrevista os autores relatam que tinham outros planos para a Garota Marvel. Falam que como ela estava praticamente possuída por uma entidade desconhecida vinda de algum ponto da imensidão do espaço, a jovem mutante não tinha consciência dessas ações e não era totalmente responsável.
Entretanto Jim Shooter, então editor da Marvel Comics não compartilhava da mesma visão e acreditava que a Fênix Negra e conseqüentemente sua hospedeira,Jean Grey, deveria morrer para “pagar pelos seus atos” de crueldade desumana.
A qualidade ou não desse final foi muito debatido durante anos fazendo legiões de fãs pedirem a volta da Garota Marvel e forçando a editora a trazê-la de volta de uma forma pouco crível e bem questionável. No entanto, é justamente a questão da punição que a personagem mutante recebe que nos leva a reflexões mais profundas sobre nosso entendimento de justiça.
Chris Claremont revela em entrevistas posteriores que faria Jean Grey lembrar para sempre dos crimes que tinha cometido possuída pela entidade cósmica e esses fantasmas a perseguiriam de forma avassaladora para o resto da vida. Uma punição que muitos veriam como bem mais apropriada.
Então porque a Pena de Morte?
Qual é o momento em que a Cultura Ocidental entendeu a morte como justiça e, o mais importante, depois de tantos debates sobre a reintegração de ex-criminosos na sociedade ainda temos o autoproclamado, maior representante da democracia não só praticando a Pena de Morte como tendo sua defesa na maioria da população hoje.
Nos Estados Unidos 34 dos seus 50 estados ainda possuem a pena capital e em alguns casos é executado com alarde e tendo as famílias lesadas pelos condenados assistindo quase como um estranho espetáculo. No entanto, podemos observar que essa prática está na Cultura Estadunidense por influências bem mais antigas.
A Pena de Morte está presente desde a Antiguidade tendo como representantes a Grécia e Roma Antiga, ou seja, algumas das culturas geminais do ocidente. Antes disso o famoso Código de Hamurabi, talvez o primeiro conjunto de leis escritas, já prevê a pena capital para quase 30 crimes diferentes na região da Mesopotâmia desde aproximadamente o século XVIII a.C.
Essa pratica sobreviveu durante toda a Idade Média, seja como justiça dos lordes feudais como suas contrapartes religiosas dentro do Tribunal do Santo Ofício ou simplesmente Inquisição. Bem como foi muito lembrada pelos reis absolutistas na Idade Moderna e continuou “expandindo” no Período do Terror ou na França pós revolução e inicio da Idade Contemporânea, apesar de pensadores iluministas como o italiano Cesare Beccaria defender a pena capital como lei tirânica.
Logo A Saga da Fênix Negra pode ser vista como uma representação cultural do senso de justiça estadunidense que entende como legitimo a Pena de Morte para determinados delitos. Crimes vistos como hediondos pela sua sociedade que além de não ser passível de recuperação do detento, deve ser apreciado pelas vitimas sendo quase como uma vingança dos honestos e justos. Uma visão em que o Estado e Justiça devem punir o criminoso e não reintegrá-lo a sociedade.
Claro que naquela época como hoje os Estados Unidos ainda discutem sobre a viabilidade da Pena de Morte e cada vez mais seus estados tem abandonado a pena capital como método meramente eficaz, pois a Pena é aplicada justamente nos estados mais violentos gerando outro paradigma ideológico. Será que esses estados são mais violentos justamente por ter a Pena de Morte ou por serem violentos é que se faz necessária tal pena capital?
A chamada Cultura de Pena de Morte, ou seja, visão de justiça como punição ou vingança das vítimas, está presente e se perpetuou por muito tempo no Ocidente (e digo Ocidente apenas como um corte geográfico que gerou a revista em questão, pois a pena de morte também é aplicada deliberadamente por uma profusão de instituições de justiça orientais) quase ignorando todas as discussões levantadas pelos Direitos Humanos e até antes mesmo, sobre a redenção e a crença da reintegração social.   
Assim o arco A Saga Da Fênix Negra é um fruto de manifestação cultural gerado em um contexto estadunidense de justiça e que pode nos fazer refletir, mesmo que não intencionalmente ou indiretamente, sobre os dilemas e teorias sobre entender ou não a pena capital como modo legitimo de justiça.

Podemos observar então, a importância da indústria cultural para a formação do cidadão incluindo no tocante das Histórias em Quadrinhos, uma vez tão subestimada até mesmo como forma de arte e hoje parece ser revisitada como genuína manifestação artístico-cultutal seja dentro do seu período histórico ou como meio de educação a apreciação. 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sampa Noir


Olho para as apertadas frestas da veneziana que traspassa os solitários feixes de luz por uma sala tão escura e vazia como minha alma. Vejo as partículas de poeira dançarem pela quase onírica trajetória iluminada e lembro de como é podre e suja essa cidade. Esse lugar fede, mas não apenas pela urina dos mendigos e pelo lixo das ruas, mas o cheiro vem também das pessoas e de suas almas lúgubres e incrustadas de todos os tipos de devassidão, ganância desenfreada e pecado.
Uma suave garoa cai vagarosamente pelos prédios como diáfanos brilhos ao refletir as luzes artificiais que tentam, desesperadamente, deixar a noite um pouco menos sombria e lôbrega. No entanto, isso não passa de pura e simples hipocrisia, pois de nada adianta mascarar a decadência de uma cidade que se voltou para a podridão sórdida e a tristeza absoluta.
Tristeza essa que exala dos edifícios cinzentos e da paisagem nublada na cidade que nunca dorme. São Paulo tem insônia e isso se mostra nos rostos melancólicos e pálidos das pessoas que passam apenas a parasitar pelas ruas e em suas próprias vidas. Suas rotinas monótonas sempre apagam as alegrias momentâneas e cadentes dos prazeres fúteis e, por isso mesmo, viciantes. Tentam esquecer, embriagados na luxúria sem sentido, o que a cidade da garoa é, mas Sampa é o que é... inexoravelmente.
Essa é a verdade!
Pego meu maço de Hollywood do bolso e acendo um cigarro. Nunca gostei de fumar realmente, mas esse vício tem me acompanhado desde a Guerra. Era uma das poucas coisas que fazia minhas mãos pararem de tremer.
Minhas lembranças me trazem delírios de sons de disparos e explosões arrancadas violentamente do passado e vem novamente toda aquela angustia e pânico em que eu vivia, ou melhor, em que eu sobrevivia na Europa à poucos anos atrás.
Não sinto mais o sabor mentado de Lucky Strike, mas mesmo assim fumar trás certa calmaria aos meus nervos novamente levando aquele tempo de triunfo e tormento para o lugar mais obscuro da minha alma... guardando bem fundo.
Apesar do forte cheiro esfumaçado no ar e de minhas divagações sobre as mamórias da Itália eu sinto primeiro o perfume dela chegando. Depois eu escuto os passos de saltos finos e minha atenção se volta para a porta do meu escritório. Agora, de volta ao presente, posso até ver a sombra dela por debaixo da porta.
Antecipo o som das batidas na porta...
- Entre! – digo – A porta está aberta.

Então a mulher mais linda que eu já conheci entra em minha escura e vazia sala de trabalho. Parece até mesmo que a luz entra cordialmente junto aos seus cabelos vermelhos que, de alguma forma mágica, brilham como chamas tão ardentes que quase sinto o lugar esquentar pelo calor.

domingo, 22 de setembro de 2013

Carta de Devon, O Portador da Luz


Amaldiçoados são os dias que eu tenho passado nessa terra esquecida pelos Deuses Verdadeiros, essa é a verdade! Sombria é minha caminhada pela ilha de Ergoth Meridional, mesmo que eu tenha atravessado Daltigoth com seus Ogros, desvendado os mistérios do Vale Enevoado ou escapado das entranhas da Cordilheira do Último Gaard. Mesmo assim, o que vivo agora é o pior dos tormentos. Nem meus pesadelos mais obscuros e íntimos possuem um terror tão avassalador.
Minhas desventuras nas ruínas do antigo império tiveram seus momentos derradeiros em um pequeno vilarejo chamado Mardóvia na região ancestral da Valáquia, local que guarda os segredos do Castelo Valenescu, que embora tenha a aparência de ter sido abandonado há muito tempo, muitos falam que o próprio lorde do local, Conde Stefan, ainda mora lá nos dias de hoje.
E eu não acreditava nos aldeões...
A vila é exatamente isso, um pequeno povoado que de tão isolado do mundo depois que ocorreu o fatídico Cataclisma, nem haviam clérigos no lugal. Obviamente, como era meu dever e, devo admitir, desejo também; acabei por ficar entre seus moradores e servir como a única luz dos Deuses diante daquelas trevas.
Diante de tantos acontecimentos sinistros hoje eu quase não consigo me lembrar dos meus primeiros anos ali, pois eles foram bons. Encontrei uma dedicada aluna e companheira chamada Katarina Dobrev. Aqueles foram bons anos e geraram muitos bons frutos para mim e principalmente para a comunidade, mas então a verdade saiu do interior da neblina espessa.
Começamos a ter vários problemas com o cemitério ao norte de Mardóvia e logo percebemos se tratar de mortos-vivos! Entretanto, os que ainda caminham já não seria um problema tão sério, pois eu mesmo tinha fundado a Ordem dos Portadores da Luz e contava com quase dez companheiros corajosos e fiéis a causa.
No entanto, por mais que combatêssemos as criaturas, mais surgiam em outro dia e tivemos um trabalho enorme pra convencer a população que a partir daquele dia deveríamos queimar nossos mortos.
Mesmo assim, não adiantou muito.
O Bosque Raska, que quase engole totalmente a vila, acabou ficando ainda mais sombrio do que já era... Relatos de lobos enormes e morcegos medonhos têm sido cada vez mais freqüentes e praticamente qualquer um que se aventure por lá acaba desaparecendo. Eu mesmo perdi um dos meus melhores homens naquelas matas.
Logo, resolvi que eu deveria entender mais sobre o que estava acontecendo, assim eu deveria estudar mais sobre a história do Condado da Valáquia e sobre os mortos-vivos, por conseqüente a própria e nefasta necromancia.
E tive resultados esclarecedores.
Descobri, incrivelmente, que o Castelo Valenescu realmente ainda estava em atividade. Aquele era o lar dos lordes da Valáquia que tinham ganhado essas terras do próprio Imperador de Ergoth quando o império ainda estava no seu auge. Algum momento logo antes da Rebelião das Rosas.
A história da poderosa família Valenescu não chegou ao fim como a maioria das famílias meridionais ergothianas durante o Cataclisma. Eram os tempos de Titius e Anastásia Valenescu. Eles prevaleceram e quando os problemas da Era do Desespero atingiram suas terras houve quem se levantasse e os ajudasse.
Surgiu um cavaleiro incrivelmente hábil chamado Stephanos Von Torevich que expulsou as hordas de Ogros da Valáquia e desafiou que qualquer hoste maligna ousasse entrar naquele condado novamente.
Claro que Stephanos fora bem sucedido e a família Valenescu o encheu de honrarias lhe concedido tudo que o cavaleiro pedia, menos uma única coisa. Sua filha. A pequena e jovem Valéria.
Entenda que os pais adorariam casar sua filha com um poderoso cavaleiro como Stephanos, mas este era velho demais e causava profunda insatisfação em Valéria. Por fim, o Conde Titius Valenescu resolveu conceder a mão de sua filha caso ela mesma aceitasse Stephanos.
Isso nunca aconteceu.
Movido pelo sentimento de ingratidão e puro ódio Stephanos Von Torevich, o cavaleiro branco que salvara o condado, se voltou contra o castelo e assassinou toda a família Valenescu deixando somente a jovem Valéria com quem se casaria, agora, a força, mas esta, por um golpe do destino, se matou pulando de uma das torres do castelo, horrorizada com as atrocidades de Stephanos.
Mesmo com a perda, o cavaleiro se auto-intitulou Conde da Valáquia e governou o castelo por... todos esses anos. São duzentos anos de governo, mais os cinqüenta que ele deveria ter na época, logo percebo que não é natural essa criatura.
Isso eu descobri por último, pois o Conde Stefan que todos falam não é seu descendente, mas sim o próprio Stephanos que matou a família Valenescu comendo seus corpos e bebendo de seus sangues.

Este é o inimigo que eu enfrento, uma criatura sinistra quase tão antiga quanto nossa Era e que levou a vida da maioria dos meus homens e de muitos inocentes da vila da pequena e simplória Mardóvia. Ele já levou quase tudo de mim e é por isso que desesperadamente venho pedir ajuda de vocês e já me condeno por trazê-los ao terror que temos vividos aqui nas ruínas do Antigo Império de Ergoth.

domingo, 25 de agosto de 2013

O Espadachim



“A espada será a justiça dos oprimidos
Apenas o mais temerário a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas”


E caminhou desdenhosamente pelo convés com um sorriso insolente. Coragem. Arqueava suas costas e retesava seu peito como se fosse o próprio arauto da justiça a andar em seus passos desleixados e olhar provocativo. Estava diante de mais de trinta oponentes, mas mesmo assim continuava temerário em sua demanda. Se não fosse determinado por si mesmo, deveria ser pelo menos pelos escravos. Não era uma defesa para salvaguardar sua vida, mas sim busca pela liberdade daqueles que não puderam lutar por si mesmos.
            Eram apenas uma questão de fluidez, lâmina e teatralidade.
            Aquele era uma nau ergothiana destinada ao tráfego de escravos oriundos de todas as regiões de Ansalon. Muitas civilizações já tinham abandonado a vil prática da escravidão, mas o Império de Ergoth ainda continuava com sua prática arcaica. No entanto, isso terminaria se dependesse de Guy di Kardigan. Mais conhecido com a alcunha simples de Rei Pescador, Guy tinha deixado suas terras em Solamnia e se dedicado a defender os oprimidos nos mares do Oceano de Turbidus e ganhou esse apelido irônico. Entretanto, ele o adotou com felicidade e rapidamente ficou conhecido por seus ataques a navios escravocratas. Literalmente pescava os escravos e levava as terras livres dos Senhores dos Cavalos.
            Assim, com o sofrimento dos indefesos em mente, ele enfrentava todos aqueles homens cruéis sem se importar com a própria segurança. Qualquer pessoa que viesse a ver aquela luta, naquele instante inicial, chegaria a conclusão que Guy era louco e que morreria facilmente diante daqueles homens brutais. No entanto, apenas a primeira afirmação poderia ser verdadeira.
            O Rei Pescador surpreendentemente saltou pelos escravocratas e agarrou na ultima hora uma das cordas entre o mastro do traquete e o principal. Subindo com a celeridade de uma leoa ele chega a uma altura que deixaria muitos cavaleiros tremendo de medo. Mas Guy era audacioso e cortou uma das cordas e seguiu pendularmente pelos mastros até saltar novamente e literalmente pousar sobre a proa.
            Aquilo tinha sido incrível e ele quase pode sentir o medo crescendo em seus oponentes. Logo ele rapidamente sacou a espada do oponente mais próximo e o cortou suficientemente profundo para ele desmaiar. Sem tempo para reações, o audaz Rei Pescador ainda cortou a perna de um segundo oponente e perfurou a barriga de outro, usando-o como um escudo para os eventuais ataques que receberia agora.
            Deu certo!
            Vários inimigos usaram de flechas e quadrelos para atingi-lo e o corpo obeso do homem aparou os ataques e as poucas investidas. Rapidamente Guy se livrou dele e lançou a espada em alguém. Agora ele estava pronto para sacar a própria espada feita de metal élfico, mas forjada por anões ela tinha a qualidade de ambos; leve e resistente.
            Os escravocratas correram para confrontá-lo, mas um convés não era lugar para esse tipo de investida. Bateram uns nos outros, caíram nas cordas presas na proa. Claro que aquela confusão foi muito bem vinda e aproveitada por Guy que se reduziu a enfrentar apenas os oponentes que conseguiam chegar até ele. Caminhava com passos deliberados para trás até chegar na ponta do navio e subiu na carranca.

            Se a vantagem do número se perdera nos momentos passados, agora ela era totalmente nula, pois havia espaço apenas para um atacante por vez e esse também deveria tomar cuidado para não cair do navio... E caíram. Um por um eles foram caindo nas profundezas do mar tragados pelos próprios pecados.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Crepúsculo do Heróis

             
Nesses dias eu, como muitos da minha idade, fui com muitas expectativas ver o filme novo do Superman chamado Homem de Aço. Não irei falar diretamente sobre minhas impressões sobre esse filme aqui, mas comentarei principalmente o final (SPOILER) em que nosso “herói” mata em suposta defesa dos inocentes o vilão chamado Zod.
            Minha maior estranheza não foi com tal fato em si, mas com o pequeno garoto de apenas 4 anos que assistia o filme ao meu lado no cinema indagar o pai do porque o Superman estava se penalizando pelo tal ato. O pai, atenciosamente, explica que o “Super” não queria matá-lo, já que ele é um herói e heróis não fazem isso. O garoto respondeu simplesmente que Zod é um vilão, logo ele DEVE morrer.
            Entrei em uma leve discussão sobre isso com um grande amigo meu e fiquei refletindo sobre um de seus comentários. Ele disse que nos dias de hoje os heróis morreram e agora temos apenas anti-heróis e isso atinge até os clássicos heróis. Juntando isso ao fato de muitos comentários na internet sobre o filme eu sou obrigado a concordar com tal argumento.
            Mas... Por quê?
            Mudamos tanto assim que não vemos mais a necessidade de criar estórias com heróis clássicos para nossas crianças?  
            Ora é natural preferirem Han Solo à Luke Skywalker, Lancelote à Rei Arthur ou Wolverine à Ciclope. No entanto, sempre existem os Lukes da vida, mesmo que sejam apenas para contrapor o anti-herói. Esses são personagens ótimos, sem dúvidas. A lenda do Rei Arthur é pior sem o Lancelote (a original era assim), mas também fica péssima sem a caracterização do herói.
            Receio que isso se iniciou pela fissura na profundidade dos personagens. Isso é ótimo, pois colocar tons de cinza em enredos os torna mais verossímeis, mas e os velhos contos de fadas. Ainda existem espaço para os heróis de caráter inabalável?
            Aqui, receio, que nossa sociedade tem algo a dizer. Vivemos em um mundo em que a violência não é só banalizada nos jornais, mas nas nossas ações do dia a dia, quando fechamos o vidro do carro para não ver um mendigo na rua ou cometermos pequenos delitos dentro da máxima de sermos sempre os mais espertos.
            Vivemos um tempo em que dizem que é melhor ser o opressor do que ser a vítima e isso não é de hoje, vem desde lá de trás. Da História que não estudamos e do mundo que fingimos ignorar.
            A literatura, filmes ou quadrinhos são apenas reflexos da sociedade de uma época em questão. Sendo assim há muito mais por trás do Superman, um “bom moço” ser retratado da forma que foi em seu último filme. Há muito mais por trás de personagens fascistas como o Capitão Nascimento ou psicopatas como Rorscharch serem aclamados como verdadeiros heróis pelo público.  
            Claro que eles são ótimos, adoro ambos, mas não em colocação de que o herói clássico é um otário. Li muito sobre que o novo Superman não é mais um otário. Eu mesmo tenho minhas queixas pessoais ao antigo “Super” como um personagem que representa o conservadorismo e o ufanismo estadunidense, mas obviamente esses aspectos estão presentes no novo filme, mas seu lado paladínico foi extirpado.
            Talvez seja exagero ou conservadorismo meu ou talvez a visão da Bradley em As Brumas de Avalon onde Arthur é um corno otário e Lancelote é o grande herói, mesmo roubando a mulher do amigo tenha sido trazida a quase todas obras nos dias de hoje.
            Os valores mudaram, sem dúvidas, mas eles mudam sempre não é mesmo?
            Não é no final dos anos 70 no ápice dos filmes de anti-heróis como em Desejo de Matar e Taxi Driver que um impopular nerd iniciou uma das maiores franquias do cinema chamada Star Wars,onde um jovem cavaleiro resgata a princesa de uma fortaleza impenetrável?

            Adoro anti-heróis sem dúvidas. Adoro o Han Solo, Dexter e o Justiceiro. Adoro aqueles heróis com cara de vilão que trucidam os vilões e causam uma vingança poética naqueles que oprimem suas vítimas. Sobretudo adoro os tons de cinza de um fascista e psicopata chamado Rorscharch que tem uma visão mais pura e verdadeira no final de Watchmen, mas permitam que as pessoas também possam conhecer, e quem sabe adorar, o Coruja...

sábado, 10 de agosto de 2013

O Comunismo da Shadaloo



       Tenho visto muitos comentários sobre como o comunismo ou socialismo são perversos e mataram milhões de pessoas na história. Receio que até aqui tranqüilo, pois faz bem discutir o Stalinismo e vários movimentos socialistas que não deram certo ao redor do mundo, embora eu me pergunte como seria uma obra chamada “O Livro Negro do Capitalismo” relatando as mortes que esse sistema já provocou. No entanto, não é sobre isso que eu vou problematizar.
       A questão é sobre como o socialismo tem sido “vilanizado” de forma minimamente erronia nesses últimos tempos. Parece até, que voltamos a Guerra Fria com o comunismo associado aos planos infernais de Lúcifer.
          Saindo o argumento religioso temos agora que todos os “vilões” da história são obviamente socialistas e quem discorda não tem senso crítico, afinal foi enganado todos esses anos pelos seus professores de história. Ora, colocam, sem nenhum argumento plausível, que regimes totalitários como o Nazismo alemão e a Ditadura Militar no Brasil, como socialistas e de estruturas comunistas.
          Pré-vejo a indignação de alguns lendo isso, mas o pior é que essas associações estão sendo levadas a sério e já estão sendo ensinadas nas escolas. Isso, para mim, apenas mostra o quanto estamos com problemas na educação.
      Entenda que meu desejo não é transformar os comunistas em mocinhos e nem colocar a direita capitalista como vilão. Não. Se você acredita no neoliberalismo e acha que as privatizações foram às melhores coisas que aconteceram no Brasil, tudo bem. Discordamos, claro, mas entenda que todos têm o direito de lutar pelos ideais que acreditam. Então, estude sobre o neoliberalismo, estude os governos pós-Regime Militar e tenha base coerente e argumentativa para defender a direita que, com certeza, também teremos a base para defender a esquerda.
          No entanto, o que me incomoda é a falta de argumentos minimamente bem embasados, as mentiras e invenções absurdas colocadas para dizer que os Presidentes Militares do Regime, que Hitler e que Napoleão são “obviamente” socialistas.
          Ora, se seu professor de história mentiu para você e caso tenha percebido isso, espera-se então que tenha visto e refletido sobre fatos e questões que o tenha feito chegar à outra conclusão, não é mesmo?
        Não dá para colocar que o Nazismo, que tinha um sistema econômico conservador sim, mas totalmente industrializado e ligado ao capitalismo como socialista, meu caro. As idéias ficam ainda piores com o Regime Militar que era liberal na economia e totalmente ligado aos Estados Unidos.
          Ter uma opinião sobre isso é uma coisa, inventar mentiras e, pior ainda, ensinar essas mentiras é ainda mais complicado. Não há base coerente nesses discursos e levantar que o Regime Militar Brasileiro é socialista é tão inverdade como falar que Jesus Cristo é Comunista.
          Defenda a direita, defenda o conservadorismo ou o neoliberalismo, mas faça isso consciente. Discuta. Provoque. Mas acima de tudo não minta e não tome como defesa a falácia de que o outro lado é “tudo de ruim” e o “maligno do mundo”.
            Receio agora que você esteja se perguntando, o porquê do título...
           Pois bem, “Shadaloo” é uma organização fictícia de um jogo de vídeo-game chamado “Street Fighter II”. Acontece que na história desse jogo todas as organizações criminosas do mundo estão diretamente relacionadas com a “Shadaloo” que é liderada pelo poderoso e maligno Vega (ou Mrs. Bison na versão estadunidense). Esse é um homem que é o símbolo do mal, que faz atrocidades por puro prazer e controla todos os criminosos do mundo, sejam eles traficantes do morro à máfia italiana.

           História infantil e maniqueísta que resume exatamente alguns pensamentos e opiniões políticas dos dias de hoje. Algo realmente bem infantil. A “Shadaloo” é tudo de ruim do mundo, ora o socialismo é todo o mal do mundo, visto que Vega usa uma roupa militar vermelha...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Escudeiro




 “O escudo será a proteção dos desamparados
Apenas o mais honrado o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas”


E cavalgou entre os desamparados como se o pavor deles não o atingisse. Honra. Percorria as ruas do vilarejo investido pela armadura de aço trabalhada em finos detalhes que poucos forjadores eram capazes de entalhar. Seu escudo ostentava o Martim-pescador símbolo das Terras dos Senhores dos Cavalos levando os aldeões a tomá-lo como um nobre.
        Tinha realmente a coragem de um dos Cavaleiros de Solamnia das antigas lendas da formação dos reinos. Sabia o que tinha que fazer, mesmo que isso significasse a sua morte. Ele o faria. Inocentes deveriam ser protegidos e isso era mais precioso para ele que sua própria vida. Não tinha pronunciado seu juramento ainda, mas já tinha sua palavra como sua honra e sua honra era sua vida. As pessoas o tomavam como sua ultima esperança, mas mesmo assim fugiam desesperadas pelo maior temor dos seus íntimos. Mesmo aquele homem de armas não trazia conforto totalmente. Mesmo a imagem idealizada que tinham dele. Aquele guerreiro não era um cavaleiro de verdade, mas um escudeiro. Alguém que vestia as armas de seu lorde que estava apavorado e escondido de baixo de sua própria cama como uma criança indefesa pelo medo do escuro.
         Todos abandonavam a pequena Seridan. Todos tinham medo do pesadelo ancestral que tinha voltado para assombra-los. Todos tinham medo do dragão e seu hálito fumegante. Os telhados de feno das casas já estavam em chamas para o terror dos aldeões, mas isso parecia não incomodar o escudeiro. Ele continuava com passos nada vacilantes do cavalo de seu senhor e contra a maré de pessoas entregues ao caos e insanidade. O escudeiro avançava calmamente para a pequena entrada leste da Vila e pensava se alguém, ao menos, conhecia seu nome ou se saberia escrever algo sobre ele em sua lápide. Entenda que Huma era corajoso, mais que muitos Cavaleiros Solamnicos, era verdade; mas já não tinha esperança nenhuma de enfrentar o Dragão Vermelho e sobreviver a contenda. Então porque ele continuava? O escudeiro deveria ser o símbolo para aquelas pessoas, isso Huma tinha aprendido bem como também sabia que os inocentes deveriam ser protegidos.            
            Não importa se sobreviveria ao empate ou não. Estava escrito na Medida e na verdade não precisaria disso para saber que era o certo a fazer. Como escudeiro ele tinha ouvido muito seu lorde recitar a Medida, ou seja, as leis de cavalaria, mas Huma não seguia tal código... Ele era o código. Saiu da cidade e contemplou por um momento a neve por cima da Cordilheira de Granada e podia jurar que era capaz de ver a Floresta Enegrecida do outro lado, mas toda a paisagem se alterou quando o besta pousou na sua frente.        
           A primeira coisa que sentiu era o calor que emanava daquele corpo escamoso e rubro como sangue. Quente mesmo no inverno.As ventas bufavam um vapor escuro e fedorento como os de um vulcão preste a entrar em erupção. O Dragão abriu as assas esperando que o escudeiro fraquejasse e se entregasse a draconofobia. O cavalo empinou e o escudeiro desmontou para que o animal fugisse. Assim Huma apenas libertou calmamente a espada de sua bainha. Ambos se encararam por um tempo. O Dragão Vermelho e o jovem escudeiro. O terror e a esperança. Huma tinha esquecido de tudo em sua volta. Tinha esquecido de todo seu passado e tudo que tinha aprendido. Havia somente aquela besta na sua frente. Ele apontou a espada para a criatura e trouxe a lâmina para sua fronte. Cumprimentando solenemente seu oponente. A enorme serpente rubra arfou buscando ar e fervendo as chamas dentro de si. O ar ficou ainda mais pesado e quente como os nove infernos. Era o fim de todas as coisas. O Dragão soprou...