domingo, 20 de novembro de 2016

Luke Cage e a Questão da Representatividade Negra


                Luke Cage é o terceiro personagem da Marvel Comics a ganhar uma serie própria da Netflix e, como foi nas revistas dos anos 70, é o primeiro personagem negro de histórias em quadrinhos a ter um título próprio. Esse fator, por si só, já faz a série se destacar entre os demais, junto com as musicas, o Harlem e um pouco da cultura Afro-americana, fazem com que Luke Cage tenha como tema principal não os super-heróis fantasiados, mas a representatividade negra em vários espectros narrativos.
            A série retrata a vida fictícia de Carl Lucas (Lucas Grant nas HQs originais e ambos alter-egos de Luke Cage) um ex-presidiário que passou por uma experiência cientifica na ilha-penitenciária de Seagate em troca da redução de sua pena, mas algo dá “errado” e Luke, interpretado por Mike Colter que já havia aparecido em Marvel’s Jessica Jones, acaba adquirindo poderes de super força, certo grau de regeneração e o mais marcante, pele invulnerável a quase qualquer tipo de ferimento.
            Entretanto, Cage não quer se tornar um super herói, principalmente devido à morte de sua amada Reva Connors, interpretada por Parisa Fita-Henley, e que também já havia aparecido na série da Jessica Jones. Assim ele foge da prisão e volta para o bairro do Harlem em Nova Iorque tentando, infrutiferamente, levar uma vida pacata trabalhando em uma famosa barbearia do parente da falecida Reva chamado de Henry Hunter, ou carinhosamente “Pop”, interpretado pelo excelente ator Frankie Faison.
            A série marca mais uma parceria do canal de streaming Netflix com a editora Marvel Comics e agora tendo o brilhante Cheo Hodari Coker como desenvolvedor, roteirista e showrunner.
Assim como nas séries anteriores, Luke Cage também é um personagem de Histórias em Quadrinhos e foi criado em 1971 por Archie Goodwin, George Tuska e John Romita sobre as idéias inovadoras de Stan Lee que queria “entrar na onda” dos filmes do inicio da década de 70 que tinham agora personagens negros, escritos para um publico negro por diretores e roteiristas negros.
Esse era o contexto do chamado Blaxsploitation.
A expressão veio da junção das palavras Black que significa preto ou negro e Exploitation que significa exploração, ou seja, Exploração Negra, mas no sentido de priorizar a comunidade negra dos Estados Unidos como consumidor principalmente de filmes, mas depois também de séries, livros e até histórias em quadrinhos. Esse se tornou um movimento com grande apelo e importância, pois os afro-americanos além de não se sentirem representados pelo cinema da época, os produtores viram uma chance de explorar toda uma cultura que ainda não tinha sido mostrada a contento.


Assim esse inovador estilo já contava com expoentes filmes como Sweet Sweetback de Melvin Van Peebles e Shaft de Gordon Parks, ambos também lançados em 1971 tendo como inspiração os antigos Race Films e indo na contra mão da industria hollywoodiana que na época raramente colocava negros como protagonistas em filmes ou, se colocava, era algo bem longe da realidade em que viviam os afro-americanos nesse período. Pouco depois o Blaxsploitation passou por uma fase antropofágica, muito semelhante a escola literária modernista brasileira, que visava pegar filmes já existentes e colocar protagonistas negros como foi Blácula (1972) de William Crain, The Black Godfather (1974) de John Evans e O Mágico Inesquecível (1978) de Sidney Lumet que, esse último, fez muito sucesso na época por contar com a participação especial de Michael Jackson e era praticamente o Mágico de Oz com personagens negros.
Entretanto, a questão não era apenas trazer personagens negros como protagonistas ou buscar atores, autores e diretores afro-descendentes para ter uma melhor caracterização dessas criações, mas também buscar toda a cultura afro-americana como contexto e enredo para que assim a comunidade negra finalmente pudesse se sentir representada no cinema, televisão ou qualquer outra mídia cultural.
Logo a Marvel Comics, que sempre tentava se manter atualizada as questões de seu contexto, trouxe na primeira revista de história em quadrinhos com um negro como personagem principal e tentou não apenas ter um personagem afro-descendente, mas levar como pano de fundo a cultura negra dos afro-americanos. Na verdade a empresa já tinha inovado com o primeiro personagem negro das HQs, o Pantera Negra, mas este, até então, aparecia como coadjuvante nas revistas do Quarteto Fantástico e por ser africano não havia uma identificação direta com os leitores dos Estados Unidos.
Assim Luke Cage vive no Harlem, bairro da cidade de Nova Iorque que nos anos 70 estava abandonado a degradação pelo Estado e embora vivesse no meio de as gangues criminosas e com criminalidade alarmante. Muitos bairros da periferia novaiorquina passavam pelos mesmos problemas como o caso do Bronx que também foi palco de explosões culturais que iniciaram um movimento artístico-cultural genuinamente afro-americano como o Hip Hop que acabou trazendo um pouco de paz aos jovens que tentavam fugir da violência e drogas que os cercavam de todas as maneiras, da mesma maneira que, tardiamente, se buscou reconstruir o Harlem.


O Harlem também seria explorado pela série da Netflix quase como um personagem próprio. A identidade do bairro novaiorquino é trazida de forma ainda mais marcante que foi trabalhada nas antigas HQs do personagem nos anos 70 e, embora tenha sido atualizada para os dias de hoje, trás antigas questões como a reconstrução do bairro e uma apologia a sua própria cultura.
Tudo isso novamente se entrelaça com o blaxploitation que a série parece trazer de volta com tantos atores, produtores e diretores negros bem como trazendo a cultura afro-americana representada pelo Harlem de maneira natural e sem muitos estereótipos não “denegrindo” ou romantizando demais os personagens negros que na série figuram tanto como heróis e vilões.
Talvez esteja na trilha sonora e nas músicas os melhores exemplos da cultura afro-americana sendo explorada na série, onde cada capítulo é dedicado a uma música ou álbum famoso que passa por alguns espectros da musica negra estadunidense sendo representada não apenas pelo Rap, como geralmente acontece nesses casos, mas também com o Soul, Blues e Jazz. A música não figura apenas como trilha, mas os cantores e bandas acabam realmente aparecendo na série, principalmente se apresentando no Harlem’s Paradise, a boate do vilão Boca de Algodão.
Todos esses detalhes trazem uma melhor imersão à narrativa da série e faz com que seja considerada uma das melhores, em termos de produção, desenvolvida pela Netflix para os super heróis da Marvel Comics. São músicas que não apenas embalam a cenas de drama e ação ou que são apresentadas apenas de forma comumente reduzida e até banalizada, como é recorrente em muitos filmes e séries. Em Luke Cage as músicas são apresentadas evidenciando que a cultura negra dos Estados Unidos é incrivelmente rica e diversificada. 
Assim sendo, a série da Netflix acaba tendo uma importância enorme e se tornando muito mais que apenas uma adaptação de super heróis das histórias de quadrinhos da Marvel Comics. Sua importância se mostra na representatividade, pois não apenas um garoto negro poderia se identificar melhor pelo personagem ser de sua etnia, como o Pantera Negra, por exemplo, mas mais que isso, Luke Cage era da periferia dos Estados Unidos e isso o trazia bem mais próximo do público.
Era um negro do Harlem vestido com moletom e capuz, que a mídia e a sociedade o colocaria como estereótipo de bandido, mas aqui Luke era um herói ou parafraseando o vilão da série, era o Capitão América do Harlem.
Na mesma forma que os quadrinhos dos anos 70 buscaram uma maior representatividade negra, a série da Netflix também vai pelo mesmo caminho buscando além das referencias quadrinísticas, mas tendo a sensibilidade de entender como esse tema estava em foco nos dias de hoje, recriando e modernizando a representatividade do blaxsploitation junto a temas mais atuais, talvez esperando ter o mesmo efeito ocorrido no passado. Um garoto negro pode muito bem sair do cinema tendo o Capitão América como herói, mas agora poderia ter um herói muito mais parecido com o jovem também, um protagonista que, como ele, poderia ser preconceituosamente confundido com um marginal comum andando pelas ruas.


Assim Luke Cage se torna a alma do Harlem e, apesar de todos os esforços do Boca de Algodão em desmoralizá-lo, o bairro se identifica com Luke fazendo os episódios da segunda metade da série sejam vibrantes e servindo como uma alegoria perfeita para a intenção dos produtores em mostrar a importância e atualidade da série de modo muito semelhante ao contexto do lançamento dos quadrinhos originais.
A busca do proprietário do Harlem’s Paradise e vilão Stokes, brilhantemente interpretado por Maharshala Ali, em destruir a imagem moral do herói pode ser a única resposta que o antagonista tinha de derrotar um Luke indestrutível e muito mais poderoso que ele mesmo. Faz parte da narrativa construída pelas séries da Netflix onde cada vilão parece ter um foco de ataque, como Fisk atacou a imagem do Demolidor ou Killgrave agredia psicologicamente a Jessica Jones, mas no caso do Boca de Algodão o ataque moral se encaixa perfeitamente na idéia de representatividade e evidencia os preconceitos e tentativa quase impossível de alguém da periferia viver alheio ao meio de ilicitude e buscar um caminho mais honesto.
A representatividade realmente é o foco da série, como deveria ser, e mesmo tendo um protagonista mulherengo, e assim sendo, de narrativa muitas vezes machista, temos várias mulheres fortes sendo representadas quase sem os clichês do gênero. Temos, como exemplo de heroína, uma policial chamada Misty Knight, interpretada pela Simone Missick, que é honesta em uma corporação corrupta e de sexualidade bem resolvida; bem como temos a vilã manipuladora e política Mariah Dillard que encontrou na atriz Alfre Woodard uma interpretação perfeita.
Estão em todos esses esforços; a música e o tema buscando e modernizando suas origens bem como toda a homenagem a cultura afro-americana, o que fazem Luke Cage estar entre as melhores séries da Netflix e, se não tem uma estória tão envolvente como as outras da parceria com a Marvel, está é a de melhor produção sem dúvidas. Uma importância social que amarra todo o enredo da mesma forma que fizeram em Jessica Jones, mas em uma produção ainda mais bem trabalhada e acertada.
Infelizmente vários aspectos dos quadrinhos foram esquecidos como fato de Luke ter sido um Herói de Aluguel, ou seja, oferecendo sua ajuda por um preço. Temos pequenas referencias a isso na série, mas Luke não chega a atuar como tal. Este fator pode muito bem ter ocorrido devido à busca pelo foco da representatividade, mas é triste ver o quanto o personagem poderia ter crescido durante os episódios se partisse do ponto de cobrar pelo seu auxilio e talvez perto do final ser um herói sem essas amarras ou apenas nunca exigir pagamento das pessoas do Harlem como nas HQs. Poderia ser um desenvolvimento que tornaria a primeira metade da série menos parada e buscaria já uma referencia com a próxima série do Punho de Ferro, pois esse era o parceiro de Luke nas estórias dos Heróis de Aluguel.


No entanto, talvez tenhamos que parabenizar e agradecer que os produtores não tenham usado todas as referencias dos quadrinhos e passado bem longe da fase da Marvel Max do personagem. Embora tenha sido escrito pelo brilhante roteirista Brian Azzarello, Luke Cage do selo adulto da Marvel não teve poucas edições a toa. Arcos cheios de preconceitos de uma periferia estereotipada que nos traz estórias fracas e com nenhuma intimidade ou reconhecimento com as comunidades negras estadunidenses. Foi à contramão de tudo que tinha sido construído com o personagem e devidamente esquecida em revistas posteriores. Quem sabe a série ter bebido da fonte blaxsploitation e colocado produtores não apenas negros, mas que entendem da realidade do Harlem e a revista buscar um ótimo roteirista, mas de outra realidade, não nos faz refletir ainda mais sobre a importância da representatividade?
Finalmente temos mais uma ótima série baseada em histórias em quadrinhos; se não pelo roteiro, mas pela produção e importância; que nos traz bem mais do que combates e referencias super heróicas, mas questionamentos importantes que tinham tanto significado nos anos 70 e continuam até hoje martelando sobre a importância da representatividade e os espaços que os negros têm na cultura pop.     

domingo, 30 de outubro de 2016

Guia Definitivo dos X-Men



Os Fabulosos X-Men apareceram pela primeira vez nas Histórias em Quadrinhos em sua própria revista da Marvel Comics em setembro de 1963. Criados por Stan Lee e Jack Kirby, esses jovens superdotados já nasceriam com poderes que se desenvolveriam na puberdade como uma forma mais simples e menos trabalhosa de se explicar de onde vêm os poderes desses novos super heróis e vilões. No entanto, a história acabou por enveredar por temas mais profundos como aceitação e racismo que logo ficou como enredo principal e condutor das estórias dos mutantes e alcançando temas mais atuais como o da representatividade não apenas étnica, pois os personagens seriam usados como uma analogia para todos os tipos de minorias perseguidas.
Uma discutição muito presente nos anos 60 que até hoje tem importância enorme na sociedade e cultura tanto dos Estados Unidos como no Brasil.
Entretanto muitas mudanças ocorreram no universo dos “mais incomuns super heróis de todos os tempos” e, principalmente, para aqueles que os conheceram mais recentemente, é complicado acompanhar toda sua cronologia confusa e cheia de reviravoltas nesses mais de cinqüenta anos de publicações que já foram o principal título da editora e seu universo rendeu inúmeros filmes, desenhos e até uma série.
Logo se faz necessário um guia de leitura, mas não como muitos que são encontrados facilmente na internet, pois além de apresentar as principais fases e sagas dos filhos do átomo, também cabe comentar cada etapa com uma contextualização histórica do período lançado e com criticas pontuais levando em conta a repercussão de cada estória e as suas influencias na cultura pop.
Assim esse guia trará os arcos principais desenvolvidos por alguns dos melhores argumentistas e roteiristas da Marvel Comics como Stan Lee, Chris Claremont, Mark Waid, Grant Morrison, Joss Whedon, Brian Michael Bands entre outros. Visitaremos estórias clássicas dos primórdios da super equipe passando por arcos como Dias de um Futuro Esquecido, A Saga da Fênix Negra, O Massacre dos Mutantes, Programa de Extermínio, A Era do Apocalipse, Massacre, E de Extinção, Surpreendentes X-Men, até a fase da Nova Marvel.
O objetivo desse guia não será esmiuçar cada enredo cheio de spoilers e detalhes da trama, mas resenhar cada arco para que ajude aqueles que não puderam acompanhar a toda essa cronologia, bem como relembrar ou ajudar no acesso as publicações mais icônicas ou marcantes da equipe dos pupilos de Charles Xavier.
Todas organizadas de forma cronológica com informações extras que ajudam muito no entendimento, ou melhor aproveitamento das HQs revelando os objetivos de cada autor, contexto histórico do período que influenciou nas revistas e relevância para o cenário das Histórias em Quadrinhos.



Primeira Parte do Guia Definitivo dos X-Men - A Gênese Mutante


Aguardem as futuras postagens com o marcador GUIA DOS X-MEN...

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Alias: Jessica Jones - Feminismo e os Relacionamentos Abusivos



Jessica Jones é uma série da parceria Marvel e Netflix sobre uma ex-heroína fracassada que tenta reconstruir sua vida depois de um trauma muito profundo onde busca consolidar sua nova carreira de detetive particular. Sentindo-se culpada por um passado terrível  que abala seu equilíbrio e afeta profundamente sua autoestima tornando-a muito fraca para bebidas e desenvolvendo uma personalidade sínica ao melhor estilo de Humphrey Bogart em Casa Blanca (1942). De fato a série usa muitos elementos dos antigos filmes Noir mostrando que uma estória de super heróis pode ser bem peculiar para as atuais produções tanto televisivas como cinematográficas.
A mesma idéia diferenciada se mostra na história em quadrinhos de Brian Michael Bands e Michael Gaydos chamada Alias onde a série se baseou. Assim, em meio a uma Marvel cheia de exageros heróicos, Bands mostrou um roteiro afiado que buscava um tema mais personalista e cheio de palavrões com a ajuda de Gaydos que tinha um traço mais sóbrio e realista com trejeitos do cotidiano que não condizia com que a Marvel Comics fazia na época, mas também não poderia ser totalmente descartado.
Aproveitando, então, o fim do Comics Code Authority que censurava os quadrinhos desde a década de 50 a editora resolveu criar seu próprio código de classificação etária para suas revistas. Inspirada no selo Vertigo da editora concorrente é criado em 2001 o selo Marvel Max onde poderia comportar quadrinhos mais adultos como a nova Jessica Jones e antigos personagens como Luke Cage, Viúva Negra e posteriormente o Justiceiro poderiam migrar para um selo que comportassem melhor suas estórias e enredos mais urbanos e profundos.
Entretanto, ao mesmo tempo que temos uma atmosfera mais madura e realista em Alias com, até mesmo alguns elementos Noir, Bands se esforça muito para colocar sua nova personagem Jessica Jones dentro do Universo Marvel recorrendo a aparições diretas do Capitão América, Miss Marvel e do Demolidor, por exemplo. Chegando a criar um passado de Jessica como a super-heroína Safira parte integrante dos Vingadores e digna de um uniforme apertado e brega como eram na época. Nessas estórias de origem o desenhista Michael Gaydos chega a perfeição emulando os traços dos antigos mestres Steve Ditko e Jack Kirby que desenhavam vários heróis Marvel e fizeram muito sucesso nas décadas de 60, 70 e 80.
Foi nesse contexto que Jessica Jones surgiu na série Alias, a primeira da Marvel Max, com sua narrativa detetivesca, lindas capas de David Mack onde Bands e Gaydos puderam mostrar que é possível fazer uma estória adulta e profunda tentando fugir dos clichês de super heróis, mas que mesmo assim não precisaria criar todo um universo a parte criticando os quadrinhos mainstrem da época e ao mesmo tempo participando do mesmo sendo quase autoral e marginal.
Michael Bands teve a sensibilidade de criar uma personagem feminina forte sem cair no péssimo atalho de colocá-la masculinizada e ainda abordando temas pertinentes como o feminismo, mas sem levantar uma bandeira ou fazer da personagem uma militante, o que poderia encontrar resistência dos leitores e exageros. Jessica apenas reage com uma intolerância natural ao sexismo em várias situações infelizes do nosso cotidiano como na memorável cena que a detetive se vê questionando revistas ditas escritas para o publico feminino que contem uma forte expressão da ditadura da beleza e obviamente conta com o desagrado de Jones e uma auto reflexão.



O feminismo é assim abordado suavemente e por vezes com mais profundidade e força bem como a personificação de Jessica sendo uma mulher forte de liberdade sexual e trajando roupas (ou em posições) nada sensualizadas que, além de sua importância e representatividade, acaba por render narrativas ótimas que fariam Bands ser reconhecido como um ótimo escritor e fez Alias ganhar dois Harveys e ser indicada a dois Eisners.
No entanto, é apenas no arco final da história em quadrinhos, Púrpura, que somos apresentados ao maior antagonista de Jessica Jones, Zebediah Killgrave. Personagem já antigo da editora Marvel e vilão do Demolidor, apesar do poder absurdo de convencer as pessoas de fazer o que ele quer, Homem Púrpura nunca tinha sido muito bem aproveitado até esse momento.
Killgrave acaba se tornando a personificação do homem machista em um relacionamento abusivo onde seu próprio poder faz uma alegoria para o domínio que alguns homens exercem sobre a mulher nesse tipo deturpado de relação adquirindo controle de tudo sobre a parceira sempre a diminuindo e ditando suas ações.
Talvez por ser uma mulher, Melissa Rosemberg, a desenvolvedora, ou simplesmente por vir depois, assim em outro contexto e com mais reflexão, a série da Netflix teve uma maestria muito maior em abordar os Relacionamentos Abusivos na figura do vilão e desenvolveu o Homem Púrpura, aqui interpretado pelo brilhante David Tennant, com muito mais profundidade e qualidade.
Deixou-se de lado a metalinguagem e quebra da quarta parede que Killgrave faz nos quadrinhos, responsável pela critica clara as estórias de super heróis, junto com a pele púrpura para entrar um vilão que vai crescendo no decorrer do desenvolvimento da série dando uma sensação cada vez mais claustrofóbica e angustiante sem ao menos aparecer nos primeiros episódios.
Até nisso a Netflix acerta mostrando lentamente todo o trauma de Jessica, muito bem interpretada pela Krysten Ritter, que sua paranoia se justifica e aumenta a medida que percebe seu antagonista por traz de todo enredo tornando uma ótima oportunidade para mostrar o abalo psicológico que um relacionamento abusivo pode causar nas mulheres até mesmo anos depois do ocorrido. É aqui que entendemos muito da personalidade da protagonista e torna esse o principal de muitos acertos da adaptação sobre a obra original.
Tanto nos quadrinhos como na série do canal de streaming o Homem Púrpura era um personagem muito difícil de trabalhar, pois foi criado em meio um período muito exagerado e até infantil dos quadrinhos. Nada de errado nisso, mas esse não era o tom que se queria agora em uma estória mais madura. Ainda mais com o sucesso avassalador de Vincent D’Onofrio ao interpretar o Rei do Crime Wilson Fisk em Demolidor, a série imediatamente anterior da parceria Marvel e Netflix.
Mais que contratar o ótimo Tennant o roteiro tinha que ser muito bem pensado e a resposta foi toda essa atmosfera criada para revelar o vilão e a forma inteligente, perigosa e esguia que ele se mostrou na série até seu desfecho inexorável nos últimos episódios e que também serviu para mostrar ainda mais um tema feminista, o empoderamento da personagem principal.
Jessica Jones fragilizada por tudo que Killgrave a fez passar, sem autoestima e com pecados do passado em que ela acreditava ser a responsável, tinha que enfrentar seu antagonista apesar de todo o pavor que ele a fazia sentir. Não era apenas um desafio de lutar contra o vilão, mas uma reflexão de seu próprio papel no mundo e um enfrentamento de todos seus medos internos, pois o Homem Púrpura não apenas a violentou, como é melhor explicado nos quadrinhos, mas mais bem trabalhado na série de como isso perturba Jessica. Mas como a personagem mesmo diz, ela foi abusada não somente fisicamente, mas muito psicologicamente.
Essa talvez seja a sensibilidade trazida pela Rosenberg na estória e com certeza o melhor da série em comparação aos quadrinhos. Falar sobre abusos, violência a mulher e estupro de uma maneira tão respeitosa e não apelativa para ter audiência. Se precisarmos falar de estupro, se isso é fundamental tanto na estória como no contexto atual, falaremos de todas as formas possíveis, mas com maturidade e sem querer apenas chocar o público levianamente.
Esse é muito dos acertos da Netflix bem como sua relação com Luke Cage que poderia ser mais uma armadilha para desviar o foco da narrativa, mas acabou por se tornar um de seus pontos fortes. O personagem interpretado por Mike Colter é antigo nos quadrinhos, bem mais que Jessica e poderia a primeiro momento tomar pra si as atenções ou pior ainda, poderia acabar pro representar o velho clichê do cavaleiro que salva a mocinha, mas esse não é o caso. Jessica, apesar se seus sérios problemas, não é uma mocinha indefesa que precisa ser salva. No entanto, Cage poderia cair no vicio de narrativa contrário que muitas estórias com mulheres fortes acaba tendo. Cage poderia ser a mocinha em perigo salva pela paladina Jessica Jones, mas isso também não ocorre, pois seria um erro terrível dada a força e invulnerabilidade não apenas física pelos poderes de Luke, mas pelo seu próprio caráter. Logo a série o trata como deve ser, ou seja, um personagem coadjuvante. Nem salva Jéssica e nem é resgatado por ela. Apenas está ali pela sua importância na trajetória da heroína sem ser diminuído e sem eclipsar a protagonista em mais uma mostra da maestria dos autores da série.
Luke Cage é importante, mas não o responsável pela emancipação de Jessica Jones.
Outros personagens da série são igualmente profundos e bem equilibrados como a advogada Jeri Hogarth interpretada pela Carie-Anne Moss que faz uma mulher poderosa e homoafetiva, mas mesmo assim é passível de defeitos. Tem uma amante traindo sua esposa e com certeza tem sérios problemas com as relações de poder chegando a se mostrar superior e humilhando suas parceiras. Logo, de certa forma, também mostra outra faceta de um relacionamento abusivo.



Talvez seja em relacionamentos abusivos o tema principal da série, pois mais personagens aparecem relacionados a esse contexto em todas as suas formas, como os vizinhos de Jessica, o policial Simpson que é interpretado por Wil Traval e que também é um personagem inspirado nos quadrinhos chamado Bazooka (vilão do Demolidor), mas principalmente a personagem de Rachel Taylor chamada Patricia “Trish” Walker.
Embora Trish também seja uma personagem distinta das revistas da Marvel a personagem parece muito inspirada na melhor amiga de Jessica nas HQs a Miss Marvel da época chamada Carol Denvers, pois ambas são personagens fortes e muito determinadas, mas Trish parece ter algum histórico de um antigo relacionamento também abusivo que ela deve ter vencido em algum momento do passado e talvez tenha colaborado com sua personalidade marcante e cheia de iniciativa.
Ao mostrar tantas mulheres nesses terríveis relacionamentos, na maioria das vezes como vitimas, mas algumas vezes, mesmo que poucas, também como controladoras ambiciosas e condutoras de abusos como o caso da personagem de Moss que apesar de ser uma perseguidora de justiça tem sua visão nublada pelo próprio ego inflado e corrompido pelo pequeno poder que possui.
Logo percebemos que a profundidade que o quadrinista Brian Michael Bends criou nos 28 números da revista Alias foi profundamente ampliado pela  desenvolvedora Melissa Rosenberg na série Jessica Jones da Netflix trazendo uma obra impar que se não foi melhor produzida que seu irmão mais velho Demolidor, tem temas a assuntos muito mais maduros, diferenciados e importantes para o público.

A representatividade que Jessica Jones trás não é simplesmente em ter uma super heroína forte, não sensualizada ou pior, masculinizada em meio a cultura pop nerd que já mostrou ser muito preconceituosa e machista. Se fosse apenas isso a série já seria impar na cultura pop, mas a serie da parceria Marvel e Netflix teve a sensibilidade de trabalhar temas tão pesados e complicados de abordar usando uma narrativa bem colocada e muito bem elaborada por parte dos desenvolvedores e produtores tal qual foi em 2001 com a criação do selo Marvel Max e a obra original Alias.

sábado, 17 de setembro de 2016

Homem-Animal de Grant Morrison e o Ativismo Ecológico



Grant Morrison comandou a que é considerada a melhor fase do Homem-Animal nas revistas The Animal Man 01 a 26 e na revista Secrets Origins 39 e, como seria conhecido do autor posteriormente, todas suas estórias são uma profusão de temas ligados por um fio condutor nem sempre muito visível ou claro para os leitores.
Temas filosóficos, a quebra da quarta parede, dramas familiares, o multiverso, alienígenas, xamanismo, desenhos animados, a busca pelos próprios ideais e conquistas pessoais entre outros são abordados por Morrison, mas talvez o mais importante e seu objetivo principal esteja em algum lugar entre a defesa dos animais, ecologia e vegetarianismo.
Tais assuntos poderiam muito bem cair no clichê, já que os temas ecológicos estavam ganhando força no final dos anos 80 e nos anos 90, ou poderiam ser abordados de maneira superficial, forçada e piegas, mas com certeza não é o que acontece em Homem-Animal.
O Ativismo Ecológico é abordado de maneira crua, embora gradual, que vai se tornando cada vez mais visceral na narrativa e faz o leitor se sentir entrando em um verdadeiro atoleiro de sujeira das industrias alimentícias e de corporações que fazem pesquisa cientifica com animais. Com certeza é um tema muito forte e a liberdade que Morrison teve para trabalhar veio muito do momento que os quadrinhos passavam naquela época.
Os leitores dos Estados Unidos já estavam se saturando das mesmices de revistas de super-heróis e buscavam novas leituras. No entanto, a Inglaterra via seu florescimento de novas historias em quadrinhos com abordagens diferenciadas mesmo para temas heróicos e alguns autores estavam ganhando muita notoriedade.
Assim, a DC Comics decidiu investir nesses novos quadrinistas em uma iniciativa que futuramente seria chamada de Invasão Britânica. A editora contratou esses autores para escrever nos Estados Unidos entregando apenas personagens de segunda linha não muito expressivos que estavam para serem cancelados e assim podiam trabalhar com mais liberdade e originalidade do que fariam com os heróis principais da empresa.
Foi quando Allan Moore escreveu em O Monstro do Pântano, Neil Gaiman em Sandman e consecutivamente Grant Morrison foi escrever em Homam-Animal. Claro que todos fizeram um sucesso tremendo tornando seus nomes e as revistas muito aclamadas pelos leitores e de tão diferenciadas eras as estórias que a DC Comics acabou criando um novo selo de publicação chamado Vertigo para temas mais adultos e alterando para sempre o mercado de Histórias em Quadrinhos.
Grant Morrison pode então testar toda sua genialidade em temas que nunca um super herói alcançou e transformou o duble de cinema suburbano e caçador nas horas vagas, Buddy Baker em um ativista da causa dos animais, defensor da vida natural e vegetariano de maneira orgânica que faz o leitor não apenas se divertir com a revista, mas também refletir sobre questões tão pertinentes naquele momento e que está presente hoje em dia. Até mesmo quando o personagem surta e briga com sua própria esposa para não mais trazer carne para dentro da sua casa, os leitores entendem totalmente o que o faz agir de maneira tão radical.
O autor faz com que o Homem-Animal busque conciliar seu papel como pai de família que tem que ajudar no sustento da casa e ao mesmo tempo ser um super herói famoso e buscar o seu sonho que é entrar para a Liga da Justiça. Morrison também o faz encontrar com seu lugar no mundo criando uma empatia com os animais, que antes eram apenas a fonte dos super poderes do personagem, e que agora Buddy Baker os enxerga como seus iguais e tão merecedores de viver em felicidade no mundo como qualquer outro ser humano.
Esta comparação entre animais e o chamado humano atinge sua maestria quando Grant Morrison trabalha na origem do Homem-Animal o colocando em meio a experiências alienígenas que despertaram seus poderes em uma clara alusão as experiências cientificas que mutilam animais na desculpa que querem avançar no combate a doenças com novos “milagres” farmacêuticos.
A forma que Buddy Baker é jogado, sem chance de escolha ou reação, a essas experiências nos faz refletir na maneira fria e muitas vezes cruel como tratamos os animais e as questões de preservação da natureza. Assim como não nos importando com o destino do próprio planeta em que vivemos e dos seres outros em que o compartilhamos de forma tão abrupta e leviana.

Reflexões e ponderações que trás um gosto amargo em nossa boca e faz a estréia de Grant Morrison no mercado estadunidense de quadrinhos ter sido tão aclamada e sendo tanto a base da popularidade do personagem como de seu próprio autor que, no final das contas, talvez seja mais uma interpretação de metalinguagem deliberada do próprio Grant Morrison presente em Homem-Animal.

sábado, 27 de agosto de 2016

X-Men: A Saga da Fênix Negra e a Apologia a Pena de Morte


A fabulosa saga dos “Filhos do Átomo” iniciada em setembro de 1979 e teve sua polêmica conclusão um ano depois na The Uncanny X-Men 137. Escrita por Chris Claremont, que estava se consolidado como autor definitivo dos “heróis mais estranhos de todos” com ajuda no roteiro de John Byrne que já tinha se destacado também como desenhista da revista dos mutantes.
Era literalmente a porta de entrada para os anos 80 e toda uma revolução que ambos iriam fazer nas Histórias em Quadrinhos fundamentando o alicerce para que a equipe de Charles Xavier se tornasse literalmente o “carro chefe” da Marvel Comics e que resultou em toda a popularidade dos X-Men anos 90.
Não é segredo para ninguém que A Saga da Fênix Negra é um dos arcos mais bem quistos tanto entre os fãs dos mutantes bem como de toda Marvel. Nesse exato um ano de mensais dos X-Men figuram sempre em posição privilegiada entre qualquer lista das melhores revistas tanto da editora Marvel quando de Histórias em Quadrinhos no geral e não é para menos.
Uma das obras principais dos “Filhos do Átomo” que levou não somente os X-Men a enfrentar uma das piores ameaças do Universo Marvel, pois a entidade cósmica destruidora de galáxias conhecida como a Fênix não era “apenas” uma ameaça inexorável, mas também tinha possuído e mantinha como receptáculo a então mais querida de todos os membros da equipe... Jean Grey, a Garota Marvel.
Para os X-Men enfrentar a Fênix Negra era ao mesmo tempo enfrentar sua melhor amiga e esse dilema permeou toda a Saga gerando um paradoxo terrível entre combater um de seus membros ou deixar que toda a existência fosse ameaçada. Uma dicotomia moral ainda pior para o líder de campo da equipe mutante chamado Ciclope, pois este estava entre o amor de sua vida e todo sonho e ética heróica em que ele mesmo foi construído.
Tudo fica ainda mais complicado na fatídica The Uncanny X-Men 135 em que a Fênix Negra para se “alimentar” acaba por devorar uma estrela que era como o Sol para todo um planeta alienígena habitado que acaba por conseqüência também sendo destruído no processo, ou seja, a Garota Marvel tinha cometido um genocídio horrendo com o poder quase absoluto que tinha naquele momento.
Tão conhecida é essa história em quadrinhos como também é o seu controverso final. Estampada em todas as reimpressões encadernadas e de luxo pelo mundo. Hoje um chamariz para novos leitores... Jean Grey, a Fênix Negra morre.
Morre condenada pelo crime inaceitável de exterminar toda uma civilização planetária apenas para restaurar suas energias. Acusada e julgada pelo Império Intergalático Xiar e defendida pelos X-Men, mas mesmo assim sentenciada e executada a Pena de Morte.
Durante uma entrevista os autores relatam que tinham outros planos para a Garota Marvel. Falam que como ela estava praticamente possuída por uma entidade desconhecida vinda de algum ponto da imensidão do espaço, a jovem mutante não tinha consciência dessas ações e não era totalmente responsável.
Entretanto Jim Shooter, então editor da Marvel Comics não compartilhava da mesma visão e acreditava que a Fênix Negra e conseqüentemente sua hospedeira,Jean Grey, deveria morrer para “pagar pelos seus atos” de crueldade desumana.
A qualidade ou não desse final foi muito debatido durante anos fazendo legiões de fãs pedirem a volta da Garota Marvel e forçando a editora a trazê-la de volta de uma forma pouco crível e bem questionável. No entanto, é justamente a questão da punição que a personagem mutante recebe que nos leva a reflexões mais profundas sobre nosso entendimento de justiça.
Chris Claremont revela em entrevistas posteriores que faria Jean Grey lembrar para sempre dos crimes que tinha cometido possuída pela entidade cósmica e esses fantasmas a perseguiriam de forma avassaladora para o resto da vida. Uma punição que muitos veriam como bem mais apropriada.
Então porque a Pena de Morte?
Qual é o momento em que a Cultura Ocidental entendeu a morte como justiça e, o mais importante, depois de tantos debates sobre a reintegração de ex-criminosos na sociedade ainda temos o autoproclamado, maior representante da democracia não só praticando a Pena de Morte como tendo sua defesa na maioria da população hoje.
Nos Estados Unidos 34 dos seus 50 estados ainda possuem a pena capital e em alguns casos é executado com alarde e tendo as famílias lesadas pelos condenados assistindo quase como um estranho espetáculo. No entanto, podemos observar que essa prática está na Cultura Estadunidense por influências bem mais antigas.
A Pena de Morte está presente desde a Antiguidade tendo como representantes a Grécia e Roma Antiga, ou seja, algumas das culturas geminais do ocidente. Antes disso o famoso Código de Hamurabi, talvez o primeiro conjunto de leis escritas, já prevê a pena capital para quase 30 crimes diferentes na região da Mesopotâmia desde aproximadamente o século XVIII a.C.
Essa pratica sobreviveu durante toda a Idade Média, seja como justiça dos lordes feudais como suas contrapartes religiosas dentro do Tribunal do Santo Ofício ou simplesmente Inquisição. Bem como foi muito lembrada pelos reis absolutistas na Idade Moderna e continuou “expandindo” no Período do Terror ou na França pós revolução e inicio da Idade Contemporânea, apesar de pensadores iluministas como o italiano Cesare Beccaria defender a pena capital como lei tirânica.
Logo A Saga da Fênix Negra pode ser vista como uma representação cultural do senso de justiça estadunidense que entende como legitimo a Pena de Morte para determinados delitos. Crimes vistos como hediondos pela sua sociedade que além de não ser passível de recuperação do detento, deve ser apreciado pelas vitimas sendo quase como uma vingança dos honestos e justos. Uma visão em que o Estado e Justiça devem punir o criminoso e não reintegrá-lo a sociedade.
Claro que naquela época como hoje os Estados Unidos ainda discutem sobre a viabilidade da Pena de Morte e cada vez mais seus estados tem abandonado a pena capital como método meramente eficaz, pois a Pena é aplicada justamente nos estados mais violentos gerando outro paradigma ideológico. Será que esses estados são mais violentos justamente por ter a Pena de Morte ou por serem violentos é que se faz necessária tal pena capital?
A chamada Cultura de Pena de Morte, ou seja, visão de justiça como punição ou vingança das vítimas, está presente e se perpetuou por muito tempo no Ocidente (e digo Ocidente apenas como um corte geográfico que gerou a revista em questão, pois a pena de morte também é aplicada deliberadamente por uma profusão de instituições de justiça orientais) quase ignorando todas as discussões levantadas pelos Direitos Humanos e até antes mesmo, sobre a redenção e a crença da reintegração social.   
Assim o arco A Saga Da Fênix Negra é um fruto de manifestação cultural gerado em um contexto estadunidense de justiça e que pode nos fazer refletir, mesmo que não intencionalmente ou indiretamente, sobre os dilemas e teorias sobre entender ou não a pena capital como modo legitimo de justiça.

Podemos observar então, a importância da indústria cultural para a formação do cidadão incluindo no tocante das Histórias em Quadrinhos, uma vez tão subestimada até mesmo como forma de arte e hoje parece ser revisitada como genuína manifestação artístico-cultutal seja dentro do seu período histórico ou como meio de educação a apreciação. 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sampa Noir


Olho para as apertadas frestas da veneziana que traspassa os solitários feixes de luz por uma sala tão escura e vazia como minha alma. Vejo as partículas de poeira dançarem pela quase onírica trajetória iluminada e lembro de como é podre e suja essa cidade. Esse lugar fede, mas não apenas pela urina dos mendigos e pelo lixo das ruas, mas o cheiro vem também das pessoas e de suas almas lúgubres e incrustadas de todos os tipos de devassidão, ganância desenfreada e pecado.
Uma suave garoa cai vagarosamente pelos prédios como diáfanos brilhos ao refletir as luzes artificiais que tentam, desesperadamente, deixar a noite um pouco menos sombria e lôbrega. No entanto, isso não passa de pura e simples hipocrisia, pois de nada adianta mascarar a decadência de uma cidade que se voltou para a podridão sórdida e a tristeza absoluta.
Tristeza essa que exala dos edifícios cinzentos e da paisagem nublada na cidade que nunca dorme. São Paulo tem insônia e isso se mostra nos rostos melancólicos e pálidos das pessoas que passam apenas a parasitar pelas ruas e em suas próprias vidas. Suas rotinas monótonas sempre apagam as alegrias momentâneas e cadentes dos prazeres fúteis e, por isso mesmo, viciantes. Tentam esquecer, embriagados na luxúria sem sentido, o que a cidade da garoa é, mas Sampa é o que é... inexoravelmente.
Essa é a verdade!
Pego meu maço de Hollywood do bolso e acendo um cigarro. Nunca gostei de fumar realmente, mas esse vício tem me acompanhado desde a Guerra. Era uma das poucas coisas que fazia minhas mãos pararem de tremer.
Minhas lembranças me trazem delírios de sons de disparos e explosões arrancadas violentamente do passado e vem novamente toda aquela angustia e pânico em que eu vivia, ou melhor, em que eu sobrevivia na Europa à poucos anos atrás.
Não sinto mais o sabor mentado de Lucky Strike, mas mesmo assim fumar trás certa calmaria aos meus nervos novamente levando aquele tempo de triunfo e tormento para o lugar mais obscuro da minha alma... guardando bem fundo.
Apesar do forte cheiro esfumaçado no ar e de minhas divagações sobre as mamórias da Itália eu sinto primeiro o perfume dela chegando. Depois eu escuto os passos de saltos finos e minha atenção se volta para a porta do meu escritório. Agora, de volta ao presente, posso até ver a sombra dela por debaixo da porta.
Antecipo o som das batidas na porta...
- Entre! – digo – A porta está aberta.

Então a mulher mais linda que eu já conheci entra em minha escura e vazia sala de trabalho. Parece até mesmo que a luz entra cordialmente junto aos seus cabelos vermelhos que, de alguma forma mágica, brilham como chamas tão ardentes que quase sinto o lugar esquentar pelo calor.

domingo, 22 de setembro de 2013

Carta de Devon, O Portador da Luz


Amaldiçoados são os dias que eu tenho passado nessa terra esquecida pelos Deuses Verdadeiros, essa é a verdade! Sombria é minha caminhada pela ilha de Ergoth Meridional, mesmo que eu tenha atravessado Daltigoth com seus Ogros, desvendado os mistérios do Vale Enevoado ou escapado das entranhas da Cordilheira do Último Gaard. Mesmo assim, o que vivo agora é o pior dos tormentos. Nem meus pesadelos mais obscuros e íntimos possuem um terror tão avassalador.
Minhas desventuras nas ruínas do antigo império tiveram seus momentos derradeiros em um pequeno vilarejo chamado Mardóvia na região ancestral da Valáquia, local que guarda os segredos do Castelo Valenescu, que embora tenha a aparência de ter sido abandonado há muito tempo, muitos falam que o próprio lorde do local, Conde Stefan, ainda mora lá nos dias de hoje.
E eu não acreditava nos aldeões...
A vila é exatamente isso, um pequeno povoado que de tão isolado do mundo depois que ocorreu o fatídico Cataclisma, nem haviam clérigos no lugal. Obviamente, como era meu dever e, devo admitir, desejo também; acabei por ficar entre seus moradores e servir como a única luz dos Deuses diante daquelas trevas.
Diante de tantos acontecimentos sinistros hoje eu quase não consigo me lembrar dos meus primeiros anos ali, pois eles foram bons. Encontrei uma dedicada aluna e companheira chamada Katarina Dobrev. Aqueles foram bons anos e geraram muitos bons frutos para mim e principalmente para a comunidade, mas então a verdade saiu do interior da neblina espessa.
Começamos a ter vários problemas com o cemitério ao norte de Mardóvia e logo percebemos se tratar de mortos-vivos! Entretanto, os que ainda caminham já não seria um problema tão sério, pois eu mesmo tinha fundado a Ordem dos Portadores da Luz e contava com quase dez companheiros corajosos e fiéis a causa.
No entanto, por mais que combatêssemos as criaturas, mais surgiam em outro dia e tivemos um trabalho enorme pra convencer a população que a partir daquele dia deveríamos queimar nossos mortos.
Mesmo assim, não adiantou muito.
O Bosque Raska, que quase engole totalmente a vila, acabou ficando ainda mais sombrio do que já era... Relatos de lobos enormes e morcegos medonhos têm sido cada vez mais freqüentes e praticamente qualquer um que se aventure por lá acaba desaparecendo. Eu mesmo perdi um dos meus melhores homens naquelas matas.
Logo, resolvi que eu deveria entender mais sobre o que estava acontecendo, assim eu deveria estudar mais sobre a história do Condado da Valáquia e sobre os mortos-vivos, por conseqüente a própria e nefasta necromancia.
E tive resultados esclarecedores.
Descobri, incrivelmente, que o Castelo Valenescu realmente ainda estava em atividade. Aquele era o lar dos lordes da Valáquia que tinham ganhado essas terras do próprio Imperador de Ergoth quando o império ainda estava no seu auge. Algum momento logo antes da Rebelião das Rosas.
A história da poderosa família Valenescu não chegou ao fim como a maioria das famílias meridionais ergothianas durante o Cataclisma. Eram os tempos de Titius e Anastásia Valenescu. Eles prevaleceram e quando os problemas da Era do Desespero atingiram suas terras houve quem se levantasse e os ajudasse.
Surgiu um cavaleiro incrivelmente hábil chamado Stephanos Von Torevich que expulsou as hordas de Ogros da Valáquia e desafiou que qualquer hoste maligna ousasse entrar naquele condado novamente.
Claro que Stephanos fora bem sucedido e a família Valenescu o encheu de honrarias lhe concedido tudo que o cavaleiro pedia, menos uma única coisa. Sua filha. A pequena e jovem Valéria.
Entenda que os pais adorariam casar sua filha com um poderoso cavaleiro como Stephanos, mas este era velho demais e causava profunda insatisfação em Valéria. Por fim, o Conde Titius Valenescu resolveu conceder a mão de sua filha caso ela mesma aceitasse Stephanos.
Isso nunca aconteceu.
Movido pelo sentimento de ingratidão e puro ódio Stephanos Von Torevich, o cavaleiro branco que salvara o condado, se voltou contra o castelo e assassinou toda a família Valenescu deixando somente a jovem Valéria com quem se casaria, agora, a força, mas esta, por um golpe do destino, se matou pulando de uma das torres do castelo, horrorizada com as atrocidades de Stephanos.
Mesmo com a perda, o cavaleiro se auto-intitulou Conde da Valáquia e governou o castelo por... todos esses anos. São duzentos anos de governo, mais os cinqüenta que ele deveria ter na época, logo percebo que não é natural essa criatura.
Isso eu descobri por último, pois o Conde Stefan que todos falam não é seu descendente, mas sim o próprio Stephanos que matou a família Valenescu comendo seus corpos e bebendo de seus sangues.

Este é o inimigo que eu enfrento, uma criatura sinistra quase tão antiga quanto nossa Era e que levou a vida da maioria dos meus homens e de muitos inocentes da vila da pequena e simplória Mardóvia. Ele já levou quase tudo de mim e é por isso que desesperadamente venho pedir ajuda de vocês e já me condeno por trazê-los ao terror que temos vividos aqui nas ruínas do Antigo Império de Ergoth.