segunda-feira, 17 de maio de 2021

Lanterna Verde: Crepúsculo Esmeralda / Novo Amanhecer


Dois arcos das histórias em quadrinhos intrinsicamente ligados do título Lanterna Verde lançados entre janeiro e agosto de 1994 pela editora DC Comics. A trama é sobre a queda de Hal Jordan, talvez o maior herói da Tropa dos Lanternas, devido às suas irreparáveis perdas sucumbindo aos limites entre a sanidade e loucura. Ao mesmo tempo temos a ascensão de outro super herói, o inexperiente Kyle Rayner, como o último dos Lanternas Verdes e a derradeira esperança para toda essa tragédia. Um enredo sobre pessoas que simplesmente não conseguem lidar com as perdas de um passado traumático e sobre responsabilidades que parecem ser bem maiores que podemos suportar.  

Ambas escritas pelo quadrinista Ron Marz, famoso por sua passagem pelo título do Surfista Prateado na Marvel Comics, e que foi trazido para uma longeva fase no Lanterna Verde com a missão de reestruturar o personagem. Eram os anos 90 em que a editora estava passando por várias reformulações em suas revistas principais em busca de uma visão mais sombria das mesmas. Tivemos neste contexto, por exemplo, “A Morte do Superman” e “A Queda do Morcego” (Batman), mas isso nem sempre significava qualidade nas tramas elaboradas.  

Muito do que foi produzido nesta década nas histórias em quadrinhos sofreram muitas críticas que, de fato, refletiu das vendas. No entanto, essa fase do Lanterna Verde por Ron Marz é, literalmente, considerada uma esmeralda entre tantas narrativas ruins e puramente voltadas apenas para o choque barato comprometida com a vendagem das revistas.  

O roteirista tem ótimas ideias de como criar em cima das, sempre presente, exigências dos editores e constrói muito bem os laços para a derrocada do experiente, e muito querido, Hal Jordan ao mesmo tempo que consegue rapidamente apresentar um substituto que já tem todas as qualidades necessárias para angariar empatia imediata dos leitores. Não há o que falar da construção de enredo elaborada pelo quadrinista em sua qualidade narrativa buscando motivações bem claras e, até verossímeis, para o estado das coisas e influenciadores de tudo que está acontecendo aqui. 



Entretanto é no desenvolvimento da estória que o roteirista incomoda um pouco. Algumas escolhas narrativas ficaram meio superficiais em que, uma dramaticidade mais complexa e aprofundada, poderia refinar ainda mais sua escrita. Entendemos o drama que Jordan está passando de uma maneira demasiadamente expositiva sem uma melhor qualidade da forma que isto é colocado nas páginas e sem uma desenvoltura mais eficiente do roteiro. É válido ressaltar que editoras grandes costumam a intervir demais em seus títulos principais, como o caso do Lanterna Verde, e tais decisões podem ter partido dos editores e o autor apenas tentou equilibrar as exigências com seu próprio planejamento. 

Temas tão densos e complexos deveriam ser melhor tratados de qualquer forma e o mesmo problema de desenvolvimento volta a acontecer com a apresentação do novo Lanterna Verde. Temos nesse arco um personagem bem próximo ao super herói genérico da época. Aquele personagem que não está pronto para as responsabilidades recebidas e que não entendemos claramente os motivos que o levaram a receber tal honra. Algo já visto em muitas estórias de origem incluindo com os próprios Lanternas Verdes.  Rayner é parecido demais com Jordan e, se isso fosse colocado em confronto no enredo, até poderia ter rendido boas narrativas. Aliás, a ascensão de um e queda do outro poderiam bem ter sido contadas em paralelo e não da forma linear da finalização de um e surgimento de outro depois, pois assim o leitor deve buscar por si só a ligação. 

Novamente, isso tem a cara de ser bem uma decisão editorial em que um arco Crepúsculo Esmeralda, conta a queda e, Novo Amanhecer, conta o surgimento e ascensão do outro. Tudo redondinho demais em um didatismo que subestima o leitor e perde a oportunidade de levar a estória a temas melhor elaborados. E vale lembrar que ambos os personagens são abordados novamente mais tarde com mais refinamento narrativo e principalmente, Kyle Rayner, ganha características muito próprias se tornando um dos Lanternas de maior destaque e lembrado com carinho pelos leitores até os dias de hoje.  



Talvez deveríamos também contemporizar sobre certa polêmica de uma das passagens dessa história em quadrinhos quanto ao que acontece com a namorada do novo Lanterna Verde. A cena em questão causou um pouco de insatisfação, não apenas por esse caso especifico, mas por ser mais uma de tantas vezes que a namorada do super herói é retratada apenas como uma vítima em potencial dos vilões e como recurso narrativo para atrapalhar o protagonista. A cena aqui é um pouco forçada e um enorme desperdício da personagem que só fará algum sentido bem mais tarde, embora nunca receba o peso devido.  

Tal desapontamento chegou até a gerar os excelentes textos de Gail Simone, quadrinista famosa por sua passagem pela Mulher Maravilha, que refletem bem sobre a questão das personagens femininas quase sempre serem retratadas apenas como vítimas coadjuvantes. Seu site próprio de postagens chegou até a se chamar Women in Refrigerators e muito dos seus trabalhos iniciais foram um reflexo desses apontamentos. Por isso na cultura nada pode ser realmente desprezado e muitos temas e abordagens, mesmo equivocados, podem servir de reflexão tendo uma importância enorme para seus apreciadores.  

A arte desses arcos fica a cargo de vários desenhistas, mas mesmo assim são bem próximas nos traços não causando estranhamento algum pelas mudanças de ilustradores e são muito competentes para histórias em quadrinhos de super heróis. Os anos 90 tem desenhos muito carregados cheio de detalhes, por vezes até desnecessários, mas aqui encontramos uma arte limpa e muito bonita que ilustra com excelência os combates e as cenas de ação, bem como tem uma narrativa gráfica objetiva deixando a transição dos quadros clara o suficiente para que detalhes de um enredo espacial sejam bem percebidos e apreciados.  

No geral, apesar de alguns pontos negativos, Lanterna Verde: Crepúsculo Esmeralda e Novo Amanhecer são dois arcos de histórias em quadrinhos com qualidades que se sobressaem muito se comparadas ao que estava sendo produzido nos anos 90 fazendo parte de uma das mais importantes fases do personagem se tornando referência para muitas tramas futuras e indispensável para entender a trajetória tanto de Hal Jordan como de Kyle Rayner até os dias de hoje. Bem como reflete sobre o papel dos Lanternas Verdes no Universo da DC Comics trazendo também certas reflexões de como algumas questões delicadas podem ou devem ser tratadas em histórias em quadrinhos de super heróis.   

  

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Homem de Ferro: Extremis

  

Minissérie da Marvel Comics publicada originalmente em 2005 escrita por Warren Ellis e desenhada por Adi Granov que busca atualizar o personagem Homem de Ferro para os tempos atuais. Assim temos um Tony Stark no epicentro desse novo cenário mundial como um futurista que tenta se desvincular do seu passado como um industrial armamentista ao mesmo tempo que planeja novos avanços para o bem comum observando seu triste legado tentando alcançar uma visão mais altruísta e benéfica em escala global. No entanto, uma nova tecnologia chamada Extremis ameaça a humanidade em uma época cheia de inovações perigosas de cientistas que tentam ocupar o vácuo deixado por Stark.  

Warren Ellis é um roteirista britânico de histórias em quadrinhos que iniciou sua carreira em 1990 de forma independente entrando para a Marvel Comics apenas 4 anos depois. Trabalhou nas principais editoras tais como DC Comics/VertigoWildstormImage ComicsPlanet Lar Avatar Press. Um de seus primeiros sucessos foi Red lançado pela editora Wildstorm em 2003 ganhando uma adaptação cinematográfica em 2010. Conhecido por comentários ácidos e trabalhos críticos que geralmente abordam temas transumanistas como pode ser observado nas obras The AuthorityPlanetaryTransmetropolitan Global Fraquancy. Foi também desenvolvedor, produtor e escritor da série animada Castlevania pela Netflix.  

Deve-se entender que é justamente essa postura ousada e conhecimento com tecnologias de ponta que trouxe Ellis ao título do Homem de Ferro. Não bastava apenas aparatos futuristas bacanas para atualizar o personagem à era atual, também se faz necessário refletir e criticar o impacto que o super herói tem no mundo moderno. Assim o autor entende que era normal, no passado, ter um protagonista que era herói e ao mesmo tempo vendedor de armas, mas agora isso não poderia acontecer sem um maior aprofundamento nesta questão. Então o que significa para Tony Stark ser um futurista buscando melhorias para a humanidade a ponto de estar na linha de frente contra os vilões e, ao mesmo tempo ter um passado sombrio cheio de culpa por ter construído aparatos de destruição em massa? 

Assim temos, nas mãos hábeis do roteirista, um Homem de Ferro mais humano cheio de camadas em sua personalidade com alguns cantos em sua alma bem escuros. Um Stark amargurado e com menos certeza de que é a melhor pessoa do mundo, mas com uma vontade inabalável de fazer o melhor que pode tendo sempre a sua visão em um futuro bom para todos. 



Essa, com certeza, foi a base para se construir um Homem de Ferro adaptado aos novos tempos e que serve de ponto de partida para todas as histórias em quadrinhos do personagem a partir deste ponto. Com certeza é o alicerce para a construção do protagonista nos cinemas que teve apenas como um acréscimo as construções que o brilhante ator, Robert Downey Jr., conseguiu realizar. No entanto, aqui temos um Stark muito mais sério e contemplativo que deixa ainda mais evidente a sua absurda inteligência sendo um personagem levemente mais responsável que sua contraparte cinematográfica.  

Não temos um roteiro muito preso a trama e, embora tenha algumas reviravoltas sensacionais, também não dando grande importância ao vilão em si a ser enfrentado. É uma estória sobre as responsabilidades do Homem de Ferro e as novas tecnologias que ameaçam as pessoas modernas contendo ainda leves, mas muito assertivas, críticas ao pensamento ocidental contemporâneo seja em seu individualismo ou em sua mecanização das relações humanas. Sobre tudo temos críticas a como o jogo político atrapalha os cientistas em desenvolvimento de novas tecnologias que ao invés de incentivar inovações para o bem comum, acaba se rendendo ao capital, mesmo os contratos com exclusividade do governo, para que sejam desenvolvidos apenas o que for rendável e, em se tratando dos Estados Unidos, isso significa maior estabilidade em acordos com os militares.  

Neste cenário incrivelmente atual de tecnologias e futurismo o artista da minissérie não poderia ser diferente daquele que conseguisse expressar um certo ar ferroso e sombriamente mecanizado. Logo foi chamado para essa tarefa Adi Granov que é um ilustrador nascido em Sarajevo na Bósnia-Herzegovina cuja a arte tem chamado muita a atenção na atualidade. Suas ilustrações são ultra realistas com efeitos extremamente refinados que dão certa impressão de tridimensionalidade devido aos trabalhos com sombreamentos impecáveis. Já trabalhou, além do Homem de Ferro, na arte ou capa de títulos como Os Vingadores, X-men e Homem Aranha. Desenvolvedor da arte conceitual do filme do Homem de Ferro de 2008 e do jogo eletrônico do Homem Aranha de 2018 criado pela Insomniac Games e lançado pela Sony Interactive Entertainment 



Sua arte é uma extensão perfeita do clima necessário que a história em quadrinhos precisava para deixar mais nítido ao leitor todo o ambiente em que a trama se passa e, neste sentido, funciona demais. Particularmente eu não gosto muito dos traços de Granov e sua narrativa gráfica, para mim, é muito direta e sem refinamento nos seus enquadramentos ou, melhor dizendo, na transição de um quadro a outro. No entanto, tenho que admitir que ela foi perfeita para tudo que o roteiro e o enredo exigiam fazendo-se necessária onde outro artista, até mesmo mais arrojado, talvez não conseguisse dar o tom certo para o que essa estória precisava. Assim, também concluo que a escolha foi muito precisa nesta história em quadrinhos fazendo deste um dos melhores trabalhos do ilustrador. 

Por fim, Homem de Ferro Extremis pode não ter toda a simpatia e o charme que temos do Homem de Ferro em tela, é verdade, mas temos uma maior profundidade e crítica que nunca foi alcançada com tanta competência ao personagem e seu universo nos cinemas, apesar de vermos que muito destas ideias foram usadas nas produções da Marvel Studios. Temos o desenvolvimento do legado armamentista do protagonista e como isso impacta profundamente o personagem em um roteiro mais maduro e consciente de muitas questões relevantes sobre o tema sem deixar que o super heroísmo e a visão futurista de Tony Stark fiquem de lado transformando-o em um herói mais complexo e bem mais humano que sua armadura o faz parecer.  

terça-feira, 4 de maio de 2021

Falcão e o Soldado Invernal

                                  

“Essa resenha contém spoilers de todos os episódios, portanto apenas leia se já tiver assistido tudo ou se não se importa..."

 

Minissérie em seis episódios da Marvel Studios em parceria com o serviço de streaming Disney+ que fez sua estreia dia 19 de março. Roteirizada e Produzida por Malcolm Spellman e baseada nos personagens, de histórias em quadrinhos, Falcão (Sam Wilson) interpretado por Anthony Mackie e o Soldado Invernal (Bucky Barnes) interpretado por Sebastian Stan. Tais personagens apareceram originalmente nas revistas do Capitão América ganhando protagonismos em títulos próprios mais tarde e, ambos, chegando a carregar o escudo (e o legado) do Capitão em alguma fase das estórias, cada um em seu momento específico. Esta foi a segunda iniciativa em minissérie que, sendo a primeira Wandavision, também faz parte do Universo Cinematográfico da Marvel estando intimamente ligada aos filmes. No entanto, podemos ver em Falcão e Soldado Invernal uma ligação muito mais clara desta conexão, pois rapidamente percebemos isso não apenas no enredo, mas nas técnicas de filmagem e narração.  



Depois da minissérie anterior ser toda experimental (e vendo os trailers das próximas que também aparentam ser bem diferenciadas) Falcão e o Soldado Invernal me empolgava muito pouco por parecer ser mais do mesmo, sendo mais uma produção com a já cansativa Fórmula Marvel e, de certa forma o é, mas temos aqui esse formato em seu melhor desempenho. A base narrativa aqui parece ser o segundo filme do Capitão América o que para muitos (eu incluso) é um dos melhores filmes do UCM. Então temos uma produção que parece aqueles ótimos filmes de ação e que tem um enredo bem elaborado se aproximando aos longas de espionagem com questões políticas e, até sociais, envolvidas. Uma trama que desenvolve os personagens principais e não coloca antagonistas que não tenham uma profunda motivação envolvida.   

Assim, a minissérie lembra muito os filmes da Marvel Studios, mas quando estes estavam em seu auge. São essencialmente produções destinadas à índices altos de bilheteria onde o entretenimento é mais importante do que o aspecto artístico ou profundidade do roteiro, mas que, mesmo assim, não é desprovido de qualidade e que busca ter questões relevantes sendo tratadas da melhor forma possível em um blockbuster 

Essa produção está exatamente nesse ponto e se fosse em formato de um filme, provavelmente, estaria entre os melhores filmes criados para o Universo Cinematográfico da Marvel. Com certeza, um dos melhores em conteúdo a ser apresentado e um verdadeiro tapa na cara de quem duvidou que ainda existia fôlego em produções de super heróis. É realmente uma tentativa de traspor os melhores filmes de ação no formato de minissérie com protagonistas realmente interessantes. Eu até poderia dizer que tanto o Falcão como o Soldado Invernal já tinham sido apresentados nos filmes anteriores, mas assistindo essa produção posso tranquilamente dizer que não. Eles não tinham sido apresentados até agora, principalmente o Falcão. 

Temos um Sam Wilson que tem uma importante decisão para tomar assombrando-o por toda minissérie, mas o Falcão precisa primeiro descobrir quem realmente é; para saber quem ele pode ser. Essa reflexão é muito bem trabalhada aqui e embora ele busque conselhos de várias pessoas neste trajeto, fica claro que ninguém pode decidir à não ser ele mesmo.  

Ninguém pode falar quem você é... a não ser você mesmo.  

Entretanto o outro protagonista, cujo nome está no título, não tem sua importância diminuída de forma alguma nessa produção. O Soldado Invernal é tão importante na estória como o Falcão e, com certeza, gosto muito mais do personagem agora. Sua busca pela redenção é primeira uma demanda interna e depois externa tendo o ator se entregado ao personagem muito mais do que em qualquer outra produção da Marvel Studios. Alguns momentos dramáticos com ele realmente surpreendem e consegue transmitir muito de toda sua profundidade gerando uma empatia enorme por Bucky Barnes. 



A trama principal está sendo mostrada em um ritmo perfeito sendo revelada com maestria à medida que as investigações avançam e os acontecimentos dão sequência dividindo a atenção, em equilíbrio, com o desenvolvimento dos protagonistas e suas tramas pessoais à medida que são apresentados novos e relevantes personagens.  

Tal equilíbrio também se mostra nos tons de cinza. Ninguém é completamente "do bem” ou "do mal”. Toda causa tem sua razão de ser, mesmo que tenha sido executada por meios não muito agradáveis. Todo mundo é um herói em sua própria história.  Em um mundo totalmente polarizado como vivemos hoje, uma estória que busca mostrar que nada é “preto ou branco” tem uma importância absurda. São vários diálogos incríveis que colaboram com isso, como um dos vilões fazer a provocação de que todo super soldado é um supremacista ou que terroristas são chamados assim apenas por aqueles que se opõem a eles. Tudo não passa de um ponto de vista. Questionamentos importantes que mostram a complexidade do mundo atual e que nada, retirado de seu contexto, pode ser compreendido em sua totalidade. Até onde vai a linha que separa heróis de vilões e, se existe tal diferença clara, quem decide o certo e verdadeiro quando duas forças opostas têm bem definidas suas causas como justas... 

E se ambas as causas forem justas e mesmo assim estiverem em lados antagônicos?  

Uma vez cruzada essa linha entre bem e mal existe retorno? A redenção é possível?  

Incrível como cada personagem tem seu papel na minissérie não apenas no enredo, mas em questões que a produção também busca trazer reflexão. Temos um herói que várias vezes é confundido com marginal apenas por motivos preconceituosos e mesmo assim se mostra absurdamente integro. Temos vilões que mostram coerentes com sua verdade em alguns momentos sendo fiéis aos seus próprios princípios. Heróis que buscam a redenção atormentados por pecados do passado e vilões que se refletem não apenas o resultado de suas ações, mas a forma mais correta de executa-las. 



É verdade que existem algumas críticas sobre o retorno do vilão Zemo interpretado por Daniel Brühl, mas eu prefiro muito ele aqui do que foi em Capitão América: Guerra Civil (e eu já gostava dele lá), pois nessa minissérie ele se mostra em um tom muito mais coerente com o personagem tanto em sua esperteza e no próprio comprometimento com sua causa. Conseguiram construir um personagem radical que não é estúpido. Ou seja, alguém realmente muito perigoso. 

Apenas o chamado Mercador do Poder, ou melhor Sharon Carter interpretada pela Emily VanCamp, achei mal desenvolvido. Entendo que ela está ali para algum gancho que será utilizado em produções futuras, mas era uma personagem importante demais neste enredo para ser mostrada de forma tão rasa. Era bem possível entregar mais da personagem, como os demais, e ainda guardar seus segredos mais importantes.  Acredito que foi assim feito para que gere especulações (ela é uma Skrull?), mas mesmo assim um roteiro tão bom poderia ter tratado a personagem bem melhor do que foi. 

Novos personagens também foram bem desenvolvidos em destaque para toda a construção e desenvolvimento do Agente Americano (John Walker) interpretado pelo ator Wyatt Russell.  Aliás o quão bem feito está construção do Walker e como ele está oscilando perfeitamente na linha que separa os heróis dos vilões em uma trajetória ideologicamente complexa e bem humana. Sua “evolução” de um Capitão América com o escudo manchado de sangue para o Agente Americano financiado por uma personagem misteriosa, a condessa Valentina Allegra de Fountaine, interpretada pela atriz Julia Louis-Dreyfus que, com toda certeza, tem fins bem escusos para o anti-herói.  

Não apenas personagens das histórias em quadrinhos foram apresentados, mas também temos mais um local fictício do universo Marvel sendo trazido para o MCU com a perigosa Madripoor que aqui aparece ainda mais misteriosa e arriscada de se entrar do que foi mostrado nas revistas conseguindo transmitir para nas telas toda a sua importância. É interessante observar como estão trabalhando bem tais locais (como foi com Wakanda) em nova roupagem e como esse universo está sendo mostrando com mais dinamismo e de forma mais fluída até que nos quadrinhos, onde muitos pontos realmente se ligam gerando uma verossimilhança muito competente.  Fico imaginando o que irão construir quando finalmente aparecer a nação da Latvéria nos cinemas.  

Claro que como leitor antigo de X-Men (e especificamente nesse caso de Wolverine) a aparição de Madripoor tem um gosto a mais que não foi suprido pela minissérie. Fora algumas parcas referências, não tivemos nada sobre o Caolho, o que seria realmente incrível! Mas, provavelmente, esse pode ser um local que será revisitado futuramente e, talvez, tenha alguma importância para a franquia dos mutantes. 

Aliás o grande ponto positivo desse episódio para mim foi justamente como se utilizou esse universo e como os personagens do cinema que apareceram aqui são, na maioria, bem trabalhados. Inclusive alguns até melhor mostrados do que nos filmes me gerando melhor empatia por vilões que foram meio rasos até agora e voltam mais bem definidos e até interpretados melhor.  



Entretanto talvez a cereja do bolo desta produção seja os temas tratados. 

Muito se falou que várias questões delicadas seriam abordadas em Falcão e o Soldado Invernal, principalmente sobre o movimento ativista Black Lives Matter e as suas reflexões sobre o racismo estrutural dos Estados Unidos. Claro que teríamos algo assim por ter um protagonista negro, mas são vários posicionamentos do roteiro que acrescentam a problemática de forma mais assertiva e, a aparição de Isaiah Bradley interpretado por Carl Lumbly, pode tornar esse tema ainda mais forte e relevante no contexto da minissérie.  

Embora tal aparição já demonstra que muita coisa foi mudada e adaptada para essa produção, mas Bradley foi um personagem criado em 2003 na história em quadrinhos do Capitão América chamada “Verdade: Vermelho, Azul e Negro” para representar um fato cruel ocorrido em 1932 onde negros foram cobaias de experimentos pelo Instituto Tuskegee (com apoio da saúde pública estadunidense principalmente pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças). Este é um tema muito pesado, mas de extrema relevância que foi tangenciado na minissérie, no entanto, pode gerar várias reflexões sobre como o racismo ainda perpetua na nossa sociedade, o que para muitos, pode parecer excepcional em uma produção baseada em entretenimento com super heróis, mas bem comum para quem já acompanhava histórias em quadrinhos da Marvel e algumas outras editoras.  

Fico feliz que a aparição do velho Bradley não tenha sido apenas uma referência isolada, ou uma mera ponte para apresentar seu neto, um outro personagem importante chamado de Patriota (Elijah Bradley) interpretado por Elijah Richardson e que deve retornar como um dos Jovens Vingadores. Assim Isaiah Bradley, além de sua obvia importância, também foi intimamente ligado ao enredo principal sendo um dos caminhos para elucidar como os Apátridas conseguiram adquirir suas capacidades sobre humanas e assim viabilizar e articular seus propósitos. O fechamento do seu arco deveria ser significativo e, ao meu ver, foi muito. Bradley tem uma estória importante demais para ser apenas uma referência dos quadrinhos ou ponte para outro personagem e acredito que ele foi retratado como deveria ser em toda a produção. 

De qualquer forma, são questões relevantes que ajudam a refletir sobre nossa sociedade e seus rumos. O que se faz de suma importância principalmente nessa polarização que parece ter atingindo tanto os Estados Unidos como nós brasileiros. Falcão e o Soldado Invernal se faz necessária não apenas como uma minissérie de ação escapista, mas como mais uma produção da chamada cultura pop/nerd que tem seu crédito também por trazer crítica e reflexão sobre o mesmo nicho que representa. 



Então acompanhamos Sam Wilson sentindo o peso do legado de ser o Capitão América, mas agora não apenas no que Steve Rogers representou, mas sim o que esse símbolo retrata em sua totalidade mais abrangente e, enfim, completa.  É discutido o que denotaria o super herói mais simbólico dos Estados Unidos sendo um cidadão negro. Mas não apenas em sua representatividade mais óbvia e sim o que significaria tanto ao povo no geral como para a própria comunidade especificamente negra. Não é apenas um legado de um homem ou do símbolo que Rogers representou, mas algo bem mais expressivo e complexo que pode reverberar de maneira muito mais relevante. 

Temos então uma trama bem mais próxima das questões levantadas nas revistas da excelente fase do Sam Wilson como Capitão América escrita Nick Spencer e, embora a minissérie televisiva não tenha uma narrativa tão assertiva como nas histórias em quadrinhos, o que foi entregue até agora agrada muito. Embora seja triste como o personagem Joaquim Torres, interpretado por Danny Ramirez, tenha sido tão levianamente reduzido nesta versão para o streaming 

O derradeiro episódio da minissérie é trazido com muitas expectativas de uma boa finalização. Expectativas essas que poderiam ser duramente frustradas, principalmente acompanhando as últimas produções; não apenas da Marvel, mas também em séries e cinema como um todo. A ótima Wandavision já dava um indicativo que essas novas produções da Disney seriam diferenciadas, mas sempre ficamos com o “pé atras” e, felizmente, estávamos totalmente errados. 



Ora, era realmente necessário todos os 6 episódios para que o Falcão finalmente assumisse o Escudo e se tornasse o Capitão América? 

Sim! Era necessário. 

A construção do Sam Wilson como Capitão foi ótima, pois ela aborda todas as questões que poderia sobre isso. O fato de ter um Capitão América negro, o fato do legado deixado por Steve Rogers e o fato de como ser um verdadeiro super herói nos dias atuais onde o inimigo não é mais tão claro. São várias questões relevantes que não são trabalhadas uma em detrimento da outra. Tudo é muito bem desenvolvido aqui e faz de Falcão, um personagem coadjuvante até então, um protagonista do primeiro escalão.  

Conseguimos ver claramente Sam Wilson agora como Capitão América e posso ver tranquilamente um filme novo dos Vingadores, sejam eles quem forem, sob a sua liderança. Temos nitidamente o que faz dele um verdadeiro herói e toda a simpatia necessária como protagonista. Um roteiro tão bem escrito que até o desenho daquele uniforme, que sempre achei horrível nos quadrinhos, ficou ótimo e mostra a mensagem bem claramente.  

Esse é o Capitão América. 

No fim Falcão e o Soldado Invernal é uma minissérie ótima em um nível muito acima do esperado e que fecha muito bem o que se propôs sendo uma obra completa. Ao mesmo tempo deixa algumas pontas para as próximas produções que não deixam sua estória em falta, mas nos faz querer continuar acompanhando.  

Exatamente como deve ser!