terça-feira, 12 de março de 2019

The Walking Dead nas Histórias em Quadrinhos

 

“Para mim, os melhores filmes de Zumbis não são aqueles festivais de sangue e violência com personagens estúpidos e piadas idiotas. Os bons filmes de Zumbis nos mostram o quanto somos terríveis, nos fazem questionar nossa posição na sociedade... e a posição de nossa sociedade no mundo. Eles também nos mostram sangue, violência e todas essas coisas legais... Mas, nas entrelinhas, sempre há um comentário social e preocupação maior!” 

Robert Kirkman 




The Walking Dead é uma série mensal de histórias em quadrinhos criada pelo quadrinista Robert Kirkman. Lançada em 8 de outubro de 2003 nos Estados Unidos pela Image Comics e que acabou, devido ao seu enorme sucesso, se tornando em 31 de outubro de 2010 uma popular série de TV pelo canal AMC pelas mãos de Frank Darabont e do próprio autor original. 

Aparentemente indo na onda de filmes de zumbis, principalmente os do aclamado roteirista George Romero, a revista mostra desde o inicio que o foco são os sobreviventes de uma catástrofe global que destruiu as instituições estabelecidas e colocou em xeque a humanidade como sociedade. Mas sim os vivos e o tanto que eles podem ser cruéis para sobreviver em um mundo pós-apocalíptico. 

Entretanto, não poderíamos entender o fenômeno de The Walking Dead sem compreender as novas abordagens da editora na época e principalmente sem acompanhar a trajetória do próprio autor. 


 

Robert Kirkman é um quadrinista estadunidense que saiu do meio undergrond para o mainstream, ou seja, fez com que seus trabalhos autorais nos quadrinhos ganhassem a grande mídia e teve boa repercussão com isso, pois teve total liberdade como uma grande aposta da Image Comics. Sua estreia foi com Battle Pope, seu trabalho que teve menor reconhecimento, mas logo vieram vários os sucessos, além de The Walking Dead, do qual também seria aclamado. 

Entre eles estão: sua história em quadrinhos de super-heróis chamada Invincible; o título de terror Outcast, que também virou série televisiva e Haunt com o fundador da editora chamado Todd MacFarlane. 

Image Comics passava por uma fase, também conhecida como segunda geração da editora, que para recuperar as ótimas vendas que esteve apenas em sua gênese, trouxe quadrinistas mais autorais e dando uma maior liberdade criativa para que os mesmos possam desenvolver trabalhos diferenciados e que se destaquem no mercado mainstream das histórias em quadrinhos. Essa estratégia já tinha dado certo com a editora Dark Horse anos antes e ocorreu o mesmo com a Image consagrando-a como uma das maiores dos Estados Unidos. 

Assim boa parte dos autores de quadrinhos que estavam descontentes com as amarras das grandes como a Marvel e a DC Comics puderam migrar para a Image na aposta da editora de seus próprios trabalhos e assim Kirkman decidiu colocar toda sua atenção e criatividade na época em The Walking Dead. 



Talvez a primeira coisa que podemos notar ao ler as histórias em quadrinhos é o amadurecimento gradual do autor durante a passagem das edições das revistas. Robert Kirkman era ainda muito novo quando elaborou o projeto no início dos anos 2000 para agora ser uma das melhores narrativas gráficas que temos no grande mercado dos quadrinhos. É interessante ver como a complexidade as histórias, o refinamento dos diálogos, a expansão do universo e as mudanças do seu personagem central, vão evoluindo gradativamente e junto com seu autor em arcos cada vez melhores. 

The Walking Dead em uma primeira leitura inicia com histórias bem obvias e de personagens sem muito aprofundamento e quase superficiais. O enredo desenvolve muito rápido com acontecimentos quase atropelados o que pode causar uma estranheza em quem está lendo, principalmente para quem já assistiu a série da AMC. No entanto, quando o universo vai se expandindo em quadrinho após quadrinho, temos um aprofundamento incrível dos personagens que vão se revelando cada vez mais interessantes à medida que as histórias tomam enredos mais bem elaborados e com sutilizas beirando a filosofia e crítica social impactantes. O ápice de toda essa melhora de narrativa do autor está bem catalisada no personagem principal, o policial de uma pequena cidade do Kentucky. 

O oficial Rick Grimes. 



O protagonista de The Walking Dead e o personagem que mais evoluiu nessas histórias em quadrinhos, tendo um início que, apesar de tenso, mostra todo seu bom caráter em que podemos vê-lo quase que como vítima das circunstâncias trazendo certa ingenuidade e fragilidade do personagem. Ao passar do tempo (e das edições) Rick tem um verdadeiro embrutecimento de sua personalidade fazendo-o tomar atitudes que jamais imaginávamos no início da história. Seu senso de moral se torna cada vez mais cinza ao ponto em que praticamente podemos interpretá-lo como vilão nas revistas mais recentes. Alguém em que os horrores de um mundo pós-apocalíptico foram moldando o policial aos poucos de uma maneira tão bem executada que dificilmente percebemos essas alterações ou, se percebemos, não sabemos exatamente quando isso ocorreu dando um realismo absurdo a narrativa e cumprindo brilhantemente a proposta original do quadrinista Kirkman. 

Rick Grimes amadurece na história à medida que o autor amadurece em sua narrativa que cada vez mais refinada e complexa expandindo esse mundo tomado pelos mortos vivos. Tudo interligado de uma maneira brilhantemente impar tornando o nome de Robert Kirkman em destaque entre os melhores autores de histórias em quadrinhos do seu tempo e deixando um legado de alta qualidade da nova arte para a editora Image Comics. 


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Assim o autor cumpre muito bem o que se propôs a fazer, uma narrativa gráfica diferenciada em um mundo pós-apocalíptico cheio de uma profusão de zumbis, mas que em nenhum momento deixa que as pessoas “vivas” sejam o foco da sua história.  Os momentos de heroísmo ou os atos mais cruéis e abomináveis de The Walking Dead são protagonizados pelos sobreviventes daquele mundo derradeiramente arrasado e desolado por um vírus fatídico. 

E quantos acontecimentos horrendos ocorrem nas páginas dessa história em quadrinhos... 

Somos transportados a quase presenciar e refletir sobre até onde a humanidade é capaz de cometer atrocidades em nome da sobrevivência selvagem em não apenas em cenas viscerais e escatológicas, mas também em acontecimentos que precisaram de uma coragem única de Kirkman para narrar não poupando nem o mais inocente dos personagens e nem o próprio protagonista Rick Grimes. 

Todos sofrem na mão de seu autor para que possamos questionar os valores da nossa própria humanidade e em que rumo queremos que a sociedade como um todo caminhe para o futuro refletindo o nosso próprio papel como cidadão e, principalmente, como ser humano nessa caminhada inexorável do tempo. 


 

A filosofia sutilmente implícita em The Walking Dead com uma crítica social bem equilibrada em uma narrativa cada vez mais espetacular faz com que seja uma das melhores histórias em quadrinhos da atualidade atraindo uma legião de leitores sendo muito bem sucedida em outras mídias como series televisivas, livros e ao que tudo indica agora, também em formato de filme em longa-metragem. 

As histórias em quadrinhos de The Walking Dead são recomendadas tanto para aqueles que nunca viram a série da AMC como aos que assistiram, desde que entendam a mudanças necessárias de mídia e compreendam a estranheza que o enredo pode causar nas primeiras leituras. Afinal, a série e a revistas estão praticamente em dois universos diferentes com personagens com histórias bem distintas ou exclusivos de cada veículo previamente apresentado. 


 

Uma narrativa gráfica que mostra a importância de dar liberdade criativa para seus quadrinistas não impondo muitas restrições editoriais dando aos autores todas as condições de escrever e desenhar boas histórias em quadrinhos atraindo mais público e engrandecendo ainda mais a nona arte.   




sexta-feira, 8 de março de 2019

Capitã Marvel e a Representatividade Feminina


Carol Susan Jane Danvers é uma personagem fictícia criada pelos quadrinistas Gene Colan e Roy Thomas para a editora Marvel Comics em 1967. A heroína teve várias encarnações e nomes diferentes em suas várias fases bem confusas e com grande diversidade de roteiristas e artistas, mas inicialmente ela surgiu para ser apenas uma coadjuvante nas revistas do Capitão Marvel e logo acabou  se tornando o par romântico de Mar Vell capitão e membro da raça alienígena Kree.
Nesse início Carol não passava de parte de um triângulo amoroso entre ela, o Capitão Marvel e outra personagem chamada Una. Aqui Danvers ainda não tinha super poderes, mas era renomada major da Força Aérea dos Estados Unidos, sendo inclusive exímia piloto, chegando a trabalhar para C.I.A.  (Central Intelligence Agency) ao lado de personagens famosos da editora como o Wolverine. No entanto, foi em um trabalho posterior como chefe de segurança da N.A.S.A. (National Aeronautics and Space Administration), em uma instalação no Cabo Canaveral, que a personagem conheceu o Capitão Marvel e assim figurando o título do herói alienígena.
Entretanto com o fortalecimento da Segunda Onda do Feminismo (iniciada ainda nos anos 60 e mais evidenciada nos anos 70) os editores da Marvel Comics, principalmente Stan Lee, viram uma oportunidade de atrair mais leitoras para as histórias em quadrinhos. A Casa das idéias sempre foi relacionada por ter enredos de vanguarda e por destacar os movimentos sociais à medida que ocorriam nos EUA e no mundo ao seu redor. Logo era esperado que cedo ou tarde a editora buscasse criar uma forte personagem feminina como ícone, aos moldes da Mulher Maravilha heroína da concorrente DC Comics.


Essa postura da Marvel sempre é vista como ideológica e, por vezes de viés doutrinador, mas, na verdade, está muito mais relacionada simplesmente com as vendas da revista, buscando sempre novos leitores em grupos de pessoas que normalmente não lêem quadrinhos, aumentando exponencialmente os lucros da editora. Logo se entendeu que era necessária, pelo contexto da época, a criação de verdadeiro símbolo feminino para ser a nova super heroína da Casa das Idéias.
Assim Mary Skrenes ficou responsável por dar forma a uma nova personagem que seria uma garçonete chamada Loretta Petta que se transformava em super-heroína, ou seja, uma personagem totalmente original. No entanto, a idéia foi recusada pela editora que incumbiu a outro roteirista a uma nova proposta.  Gerry Conway então resgatou a modesta coadjuvante Carol Danvers transformando-a em não mais que versão feminina do Capitão Marvel, chamada de Miss Marvel, que teria ganhado seus poderes pelas ações do vilão Yon-Rogg, um outro alienígena da raça Kree. Na ocasião, Carol tinha sido seqüestrada pelo inimigo ( o que geralmente acontecia com as namoradas SOS heróis) e durante a explosão, causada pelo facínora com seus raios Psico Magnitron, o Capitão Marvel tentaria protegê-la com o próprio corpo, mas a radiação acabou misturando seu DNA Kree com o da Carol concedendo a ela parte de seus poderes.


Surgia então Miss Marvel (primeira encarnação heróica de Carol Danvers) que, pelas mãos de Gerry Conway e John Buscema ganhava um título próprio em 1977. Uma das primeiras super-heroínas dos quadrinhos, mas que falha como representação feminina ao elaboraram uma origem totalmente dependente de um patrono homem, sendo apenas sua versão mulher, e com roteiros no mínimo desastrosos que a personagem sofreria nessa primeira fase.
Uma integrante sem muito destaque dos Vingadores, Miss Marvel teria dupla personalidade no inicio (Carol humana comum e a Miss Marvel super-heroína Kree) que geravam vários problemas. No entanto, talvez o pior arco de histórias da personagem seja quando ela foi abusada sexualmente por um vilão chegando inclusive a engravidar e sendo levada para se casar com seu estuprador. Uma história tão mal construída onde, em Avengers 200, nem mesmo os Vingadores foram colocados para ajudar a amiga abduzida pelo seu algoz, que a levou para o Limbo, uma outra dimensão.
Entendemos assim que apesar da Marvel Comics ter tido a iniciativa de criar uma super-heroína para sua editora, a Casa das Idéias não soube bem como trabalhar com uma personagem feminina e, provavelmente, buscando toscamente eliminar Miss Marvel jogando-a literalmente no limbo. Mas logo o, já aclamado roteirista dos Fabulosos X-men, Chris Claremont resolve, no inicio dos anos 80, resgatar Carol Danvers trazendo justiça a uma heroína tão maltratada, inclusive fazendo-a confrontar os Vingadores mostrando sua hipocrisia ao deixá-la nas mãos de tão vil algoz.


Agora Miss Marvel apareceria nas revistas dos Filhos do Átomo sendo bem melhor trabalhada como apenas o quadrinista de um título que tratava sobre preconceito poderia escrever.  Nessa fase Carol se transformaria na heroína chamada Binária (sua segunda encarnação) pelos desenhos de Dave Cockrun iniciada na Uncanny X-Men 164 de 1982, ampliando seus poderes como nunca e fazendo parte de aventuras cósmicas como integrante do grupo espacial Piratas Siderais.  
A popularidade da personagem foi crescendo aos poucos e no final dos anos 90 a editora percebeu que já era hora da Carol voltar de suas aventuras no espaço e figurar mais uma vez aos Vingadores, agora em sua terceira encarnação heróica chamada de Warbird pelas mãos do aclamado George Pérez e Kurt Busiek na que seria uma das melhores fases dos assim chamados Heróis mais Poderosos da Terra.
Carol Danvers cada vez mais foi ganhando maior destaque com uma editora cada vez mais empenhada em torná-la a super-heroína principal da Marvel Comics e uma adversária digna para a concorrente da DC Comics, Mulher Maravilha. Foi sendo elaboradas histórias mais profundas, e com dilemas humanos e sofrendo conseqüência de seu passado ao melhor estilo Marvel, como quando ela tem que lidar com alguns transtornos devido a confusão mental que sua encarnação de Binária acarretou, chegando ate mesmo ao alcoolismo. Ela venceu com ajuda de amigos como Tony Stark (Homem de Ferro) que também tinha sofrido com o mesmo problema de excesso com bebidas alcoólicas.
A idéia de fazer dela, apesar de humana, uma melhor representação feminina que foi tomando forma, mesmo que vagarosamente. Foi ficando cada vez mais claro que a personagem deveria crescer ainda mais para ser um destaque não apenas nos quadrinhos, mas também em outros projetos da Marvel.


Foi então que em 2012, Carol passaria por mais uma e derradeira mudança. Por conselhos de ninguém menos do que o Capitão América, a personagem passaria a assumir o manto do herói que a inspirou adotando o nome de Capitã Marvel (sua última encarnação. Trazida pela quadrinista Kelly Sue Deconnick com titulo próprio, já que não há mais um Capitão Marvel na editora (vale salientar que o título em inglês, Captain Marvel,não tem gênero).  
Agora a Carol Danvers estaria na frente de importantes sagas da Casa das Idéias sendo uma das personagens principais da Marvel Comics visando uma representação feminina mais respeitosa e condizente com o contexto atual, mas ainda falhando com algumas decisões editoriais, como sendo colocada praticamente como vilã em na saga Guerra Civil II, por exemplo.


Entretanto, não se pode negar a importância do papel da Capitã Marvel para a representatividade feminina mesmo com tantas histórias controversas em seus altos e baixos. A personagem é praticamente indispensável para uma análise de como a mulher tem sido representada nas histórias em quadrinhos de super-heróis nas ultimas décadas e nos mostra como os leitores ainda reagem a uma protagonista feminina que, principalmente, não se encaixa mais no padrão de mulher hiper sexualizada tão comum nas histórias em quadrinhos.
A Capitã Marvel hoje raramente é representada em posições constrangedoras e usa um uniforme mais pratico (e mais condizente com seu histórico militar) que não, necessariamente, evidencia suas curvas. Ela é uma personagem que prova seu valor por ser heróica e não por ser um desejo sexual. Até mesmo sua origens sofreu mudanças para retirar o total Complexo da Costela de Adão gerado pela heroína ter recebido os poderes acidentalmente de uma figura masculina.  
Carol vence e alcança lugares onde tradicionalmente apenas os homem conseguiam chegar e o faz mostrando muita força e personalidade sendo reconhecida pelos seus colegas como uma igual e não sendo inferiorizada momento algum por ser mulher e nisso, devemos reconhecer, a Marvel Comics tem acertado muito.
Entretanto, por um lado temos uma personagem extremamente importante que levanta temas muito relevantes da nossa sociedade, em quase uma auto critica, mas por outro lado temos historias quase sempre ruins de roteiro em sua trajetória que acabaram acarretando em ainda mais preconceito com a imagem das mulheres no meio quadrinístico, seja por pura implicância machista de alguns leitores ou seja simplesmente por arcos mal escritos que gerava um protagonismo forçado da super heroína em uma elaboração raza demais para ser crível.  
Talvez a maior importância das histórias em quadrinhos da Capitã Marvel é perceber claramente que boas histórias não são feitas apenas por colocar superficialmente determinados personagens levantando uma bandeira sem qualquer profundidade ou conhecimento de causa, mas sim de boas histórias que podem sim ter suas criticas sociais. No entanto, essas questões devem ser construídas com seriedade e principalmente com bons quadrinistas que realmente se dediquem a contar, além de ótimas histórias, enredos que ainda traga importantes reflexões sobre nossa sociedade.
É assim que se constrói uma boa narrativa gráfica.
Temos ainda, infelizmente, uma legião de fãs que parecem não terem entendido que o público algo da personagem não são necessariamente eles, mas sim leitores de quadrinhos diferentes do usual e não há problema nenhum com isso, pois estes sempre tiveram uma profusão de personagens para se sentirem representados. Carol Danvers (agora Capitã Marvel) foi desde o inicio criada para conversar e se identificar mais com o público feminino que ainda não tinham muitas opções de representatividade. Tudo isso traz uma maior diversidade de leitores e mostrando perspectivas cada vez mais diferentes evoluindo todo o contexto narrativo da Nona Arte.



A Capitã Marvel, em todas as suas encarnações, quase nunca retratada da maneira correta, mas teve um esforço quase louvável de atrair garotas para as histórias em quadrinhos onde elas possam se sentir finalmente representadas em um meio repleto de preconceitos e machismos, que não é nada mais de um micro reflexo de nossa própria sociedade. Talvez essa seja a verdadeira importância da personagem na atualidade, pois ao mesmo tempo que nos faz refletir como pessoas, também busca uma melhor representatividade feminina no real cenário de cultura nerd e pop. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O Exorcista de William Peter Blatty


Livro do gênero de ficção de terror estadunidense escrito por William Peter Blatty e publicado em 1972. O Exorcista também teve sua versão para filme em 1973 sendo adaptado para o cinema de forma muito fiel, pois contou com o trabalho do próprio autor que também é roteirista. O livro foi reformulado por Blatty para uma edição comemorativa de 40 anos e essa resenha é uma critica justamente a essa versão traduzida pela Carolina Caires Coelho. 
            O escritor se baseou em uma matéria jornalística “real” sobre um garoto de 14 anos cuja família alegava que o mesmo esteve sofrendo de possessão demoníaca. Essa história do garoto real também é relatada no livro do Thomas B. Allen chamado O Exorcismo que também narra como os eventos serviram de inspiração para Blatty.


William Peter Blatty é um escritor e roteirista nova-iorquino aclamado principalmente por essa obra, mas foi autor de outros livros como A Nova Conspiração de 1978 e O espírito do Mal de 1983.  Ganhador de um Oscar por sua fiel adaptação ao filme de 1973 dirigido por William Friedkin e também trabalhou no roteiro de outros filmes pouco conhecidos como Lili, Minha Adorável Espiã de 1970, dirigido por Blake Edwards e chegando a dirigir O Exorcista III em 1990, baseado em outro de seus romances chamado Legião de 1983.
O Exorcista conta a história da atriz em ascensão Chris MacNeil e o drama com sua filha de 11 anos Regan que tem mudanças bruscas físicas e psicológicas, bem como também narra a trajetória do padre Damien Karras que recentemente teria perdido sua mãe acreditando ter negligenciado ela e não mais consegue se conectar espiritualmente com seus afazeres para com a Igreja Católica.
Embora o próprio autor diz ter “caído do gênero de terror por acidente nessa obra” temos claros momentos de tensão que vão crescendo angustiantemente com uma letargia aterradora gerando no leitor um clima de suspense que toma conta de forma horripilante em seu desfecho final que mais causa choque do que medo propriamente dito. No entanto, até o clímax, somos perturbados por coincidências estranhas e situações inquietantes.


Uma narrativa muito bem estruturada que não declara, até seus momentos derradeiros, se realmente se trata de uma possessão demoníaca ou alguma enfermidade ou desvio psicológico. Blatty é brilhante ao instigar dúvida no leitor utilizando de elementos críveis como todos os médicos e psiquiatras que tentam, sem sucesso, tratar a pequena Regan. Para deixar tudo bem amarrado o autor abusa de termos técnicos da psiquiatria e teorias discutidas em boa parte da obra.
Alguns leitores podem acabar se irritando com toda uma a construção dos médicos examinando e apesar da clara competência que os personagens parecem ter, não conseguem resolver muito e passando para outra teoria só para ser mais uma vez quebrada pelos exames submetidos à inocente Regan. Mas essa narrativa é totalmente compatível com o ateísmo de Chris MacNeil e com a descrença da era moderna que o autor tanto critica tornando a história mais plausível.
Entretanto, ao mesmo tempo que temos um ceticismo presente, principalmente na mãe de Reagan, temos vários elementos narrativos no mínimo medonhos acontecendo na casa reforçados paralelamente por profanações acontecidas em uma igreja próxima bem como a presença quase reveladora de uma médium Mary Jo Perrin que, em pouco que aparece, tem falas que aumentam ainda mais a tensão da história.


Essa forma que a tensão vai preenchendo a narrativa nos dá a impressão que cada vez mais alguma entidade está, aos poucos, dominando a garota e ganhando cada vez mais força. Tudo isso descrito com bastante calma pelo autor, mas sem perder em momento algum a expectativa do leitor que fica totalmente preso às páginas e acontecimentos habilmente narrados.
William Peter Blatty usa do mais refinado de sua escrita em O Exorcista construindo um enredo sólido e conseguindo caminhar no limiar do real cético e do horror sobrenatural, sem entregar levianamente seu inexorável final. A habilidade que ele dispõe os elementos narrativos é impressionante dando uma sensação única no leitor que sente medo, estranheza, emoção e até nojo na hora certa devido a ótima capacidade de descrição de cenas pelo autor.
O final tem alguns dos diálogos mais perturbadores que já li colocando definitivamente essa obra como gênero de terror com momentos até escabrosos, mas principalmente com um apelo psicológico sombrio e inteligente que nos faz temer por todos os personagens envolvidos, não apenas pela inocente Regan.
O autor trabalha com esses personagens e enredo para nos mostrar como estamos distante da fé e da moralidade cristã ignorando a espiritualidade de Deus e a existência real do mal encarnado representado pelo demônio. Assim Blatty constrói o enredo de forma a corroborar com sua proposta de forma cativante e que faz uma profunda reflexão do quanto os valores da modernidade podem estar perdidamente deturpados e o quanto isso afeta intimamente a humanidade.



Finalmente O Exorcista é recomendado para todos aqueles que gostam de terror e suspense sendo uma obra prima do gênero. Uma narrativa aterradora que é muito imitada por autores posteriores, mas muito raramente trabalhada com tanta genialidade como por William Peter Blatty.


Essa resenha faz parte do projeto #DesafioLiteratureSe2019 do mês de janeiro com o tema "Uma história muito conhecida, mas nem tanto pelo livro" da booktuber Mell Ferraz.
Veja a baixo o vídeo em que ela expõe o desafio...


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Conan, O Bárbaro retorna à Marvel Comics


Finalmente, depois de décadas, Conan retorna a sua editora de origem oficial nos quadrinhos, a Marvel Comics. Feito com muito alarde e propaganda, essa pode ser marcada como uma nova era ao personagem revitalizando seu universo e, como muitos fâs esperam, talvez traga seu retorno em várias mídias como o cinema.
Algumas vezes, determinados acontecimentos parecem vir em uma espécie de onda nos dando a impressão que todo um universo está conspirando para que aquilo realmente aconteça. Bem, estamos em uma onda de retorno às histórias de “Espada e Feitiçaria” bem como Conan à frente desse movimento.
Temos lançamentos do personagem por editoras de quadrinhos na Europa e até no Brasil com tentativas de relançar suas revistas clássicas bem como os contos do próprio autor original, mas primeiramente devemos entender como foi a origem de Conan na literatura, bem como a popularização de um gênero e como todo esse universo foi parar nas histórias em quadrinhos. Assim podemos compreender bem exatamente o que está retornando.
Espada e Feitiçaria foi um gênero literário que fez muito sucesso no inicio do século XX devido à popularidade de suas histórias em revistas pulp com suas capas belissimamente ilustradas por artistas que fizeram carreira como capistas.


Robert E. Howard foi um dos mais famosos e aclamados escritores e criador do bárbaro Conan e do rei Kull de Atlântida, bem como do universo que o cerca, sobretudo a “Era Hiboriana”. Autor recorrente da revista Weird Tales, Howard fez sucesso rápido e suas histórias popularizando, junto com outros nomes como Clark Ashton Smith, Fritz Leiber e Michael Moorcock, o gênero de Espada e Feitiçaria dando até outros frutos como a fantasia. Se existe um Tolkien escrevendo O Senhor dos Anéis, é porque antes existiu um Howard escrevendo Conan.
Todo esse sucesso chamou a atenção de Roy Thomas, que viria a se tornar dos maiores nomes editoriais da Marvel Comics. Thomas estava envolto a uma idéia de adaptar personagens da literatura para os quadrinhos em busca de histórias diferentes do que estavam acostumados a fazer na Casa das Idéias.


Foi com muita dificuldade que Thomas se juntou ao artista Barry Wilson Smith lançam Conan The Barbarian em 1970. A idéia original era para chamar o aclamado quadrinista John Buscema, mas não foi possível devido ao seu alto custo, no entanto, isso seria corrigido mais tarde com o lançamento posterior da The savage Sword of Conan. A revista teve um inicio com muito sucesso e a Marvel Comics iria repetir a formula adaptando outras obras e produções também de sucesso como a franquia Star Wars por exemplo.
Entretanto, a editora não consegue mais lidar bem com o personagem Conan e suas histórias nos anos 90 que acaba refletindo nas vendas e o cancelamento das duas revistas. O cimério acaba indo para outra editora, a Dark Horse que também tem um inicio auspicioso, mas logo acaba tendo baixas de vendas. Assim recentemente a Casa das Idéias conseguiu os direitos do personagem novamente, podendo relançar a revista Conan The Barbarian pelo selo Marvel Comics.
O quadrinista Jason Aaron é chamado para fazer esse roteiro de retorno e o artista Mahmud Asrar fica a cargo das ilustrações. Muitos duvidaram do desenhista, mas Asrar surpreende um traço competente para retratar Era Hiboriana embora, claro, pode ter rejeição dos mais saudosistas aos desenhos clássicos de Barry Wilson Smith ou principalmente do aclamado quadrinista John Buscema.


Talvez seja importante destacar que a maioria dos leitores tem uma arte em preto e branco como referencia as estórias de Conan, mas esta abordagem era principalmente usada na Espada Selvagem de Conan com um formato diferenciado dirigido mais ao público adulto. Conan, O Bárbaro era, digamos, um quadrinho mais ao estilo da Marvel Comics e essencialmente colorido.
A Casa das Idéias chega nessa retomada com uma abordagem padrão da fase “Legado” de suas publicações. Embora tenha o número 1 na capa, temos em menor destaque o número 276 que seria referente à continuação do título clássico, sendo uma decisão editorial que é transmitida também na estória, pois logo nas primeiras páginas temos homenagens aos artistas anteriores do personagem mostrando que tudo que ocorreu antes (pela Marvel) deve ser considerada no enredo daqui para frente.


Jason Aaron é um fã confesso de Conan tendo totais condições para escrever uma revista do cimério, não apenas como conhecedor do personagem, mas como ótimo roteirista, principalmente em personagens de estilo mais rústico ou até mitológico, como podemos acompanhar na sua elogiada fase com outro personagem da editora, Thor o Deus do Trovão.
Provavelmente foram suas estórias para o Filho de Odin que influenciaram a Marvel Comics à chamá-lo para a tarefa. Todo o tom mitológico, e até profético, que Aaron usou em Thor o torna uma promessa para escrever Espada e Feitiçaria.
Assim o roteirista tem um inicio bastante promissor usando linhas temporais como fez em Thor, o que dividiu muitos leitores, mas combina incrivelmente bem com a narrativa de Howard que não tinha linearidade temporal ao escrever seus contos sobre o bárbaro da Ciméria. Aaron convoca o Rei Conan logo no inicio (referencia tríplice aos contos, histórias em quadrinhos, mas principalmente ao filme de mesmo nome estrelado por Arnold Schwarzenegger em 1982), mas paralelamente também mostra o personagem mais jovem ao que tudo indica enfrentando a mesma ameaça em duas linhas temporais em um título de arco aterrador de A Vida e Morte de Conan.


O retorno de Conan, O Bárbaro para a Marvel Comics ainda não pode ser avaliado totalmente na leitura de apenas sua primeira revista, mas que teve um trabalho muito competente até aqui e que os quadrinistas tem total capacidade de produzir material digno do Rei da Aquilônia, temos certeza disso! Entretanto nos resta aguardar como o personagem vai se desenrolar pela Casa Das Idéias daqui para frente.

Em resenhas posteriores pretendo tratar arco por arco concluído dessa nova fase do Cimério na Marvel Comics e também fazer alguns comentários sobre A Espada Selvagem de Conan que já estreou agora em fevereiro pela mesma editora.


quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O Renascimento do Universo DC Comics


Agora com mais de dois anos depois e culminando em seu final, já está mais que na hora de analisar toda a fase do DC Renascimento, tanto em sua estória como na repercussão para compreender se essencialmente esse período de publicações da editora realmente cumpriu a proposta e se essa estratégia funcionou refletindo nas vendas. 
O DC Renascimento foi uma iniciativa da editora em frente à baixa de vendas que estava sofrendo com a estratégia anterior, o chamado Novos 52. Nessa antiga fase, na tentativa de atualizar seus super heróis, a editora muda não só o ritmo das estórias, alterando as equipes criativas, mas acaba exagerando nas novas definições modificando a essência de seus personagens. O resultado é que os antigos leitores ficaram muito insatisfeitos com o fato que não mais reconheciam os seus heróis que cresceram amando e os novos não acharam as estórias tão boas para continuarem lendo.
Os Novos 52 foram um fracasso de publico e vendas, logo o DC Renascimento viria para arrumar a casa literalmente.
Para deixar bem claro a estratégia da editora é lançada a revista em oneshot, ou seja de uma única edição, chamado Universo DC Renascimento que, unido a uma ótima campanha publicitária, mostra aos leitores para o que veio indicando enredos que serão trabalhados até o final da fase. Com uma narrativa emocionante de Geoff Johns que respeita todo o legado da editora, mas principalmente seus leitores, o quadrinho foi um sucesso tremendo emocionando os leitores antigos e empolgando os novos para ler toda a fase interessados no que viria pela frente.


Assim a primeira análise que podemos fazer do período é que a iniciativa Dc Renascimento cumpriu o que havia se proposto a fazer, ou seja, que os heróis voltassem as suas personalidades aclamadas e tivesses suas identidades novamente reconhecidas pelos leitores que há muito os acompanhavam. Ainda trouxe leitores novos devido à enorme campanha publicitária e a boa qualidade das estórias. Tudo isso sem alterar a cronologia não caindo na estratégia batida de mais um reboot, que tantos sempre reclamavam que acontecia muito no universo das histórias em quadrinhos.
A campanha publicitária acertada e a qualidade das estórias são peças fundamentais, e pouco analisadas, do sucesso da iniciativa. Comparando com sua rival, a Marvel Comics, que praticamente na mesma época colocou em prática sua nova iniciativa chamada Totalmente Diferente Marvel, não tivemos no DC Renascimento algo da qualidade da revista Visão do Tom King, mas também não tivemos uma enxurrada de tantos títulos sofríveis também, como acabou sendo feito pela editora concorrente. O resultado disso refletiu nas vendas que inverteu o quadro colocando a DC Comics à frente em praticamente todo esse período.
A qualidade dos títulos do DC Renascimento se mostraram bons, em uma maioria quase absoluta, tendo poucos títulos ruins que mesmo assim não são um total desastre. Logo devemos fazer aqui um apanhado das principais revistas mostrando suas características em linhas gerais para podermos analisar esse período com um maior senso de criticidade. Posteriormente poderemos analisar mais profundamente os títulos da editora, incluindo s não comentados aqui, para compreender melhor qual exatamente foram os pontos de acertos da iniciativa.


Os títulos que envolvem o Super Homem, e seus personagens relacionados, foram o que mais tiveram que sofrer mudanças e acertadamente a editora não teve medo de fazer tais alterações radicais. Para trazer o personagem de volta aos eixos devíamos buscar do passado toda aquela mística heróica messiânica que envolvia o herói e para isso a DC Comics trouxe de volta o aclamado Dan Jurgens, que já havia trabalhado com o personagem em uma de suas melhores fases, para assumir o título Action Comics com a missão de trazer de volta o Super Homem clássico de ideais elevados enquanto Peter J. Tomasi ficaria com o título Superman trabalhando a relação do herói com sua família, a esposa Lois Lane e o filho Jonathan Kent.
Ambos os títulos são da melhor qualidade tendo a Action Comics um sucesso de critica absurda em estórias de muita ação (fazendo jus ao título do quadrinho) e com toda aquela atmosfera heróica do bem contra o mal exaltando o bom mocismo do Super Homem como Jurgens já tinha feito entre os anos 80 e 90. No entanto, apesar de não ter sido recebida com tanto alarde, acredito que o trabalho de Tomasi a frente do título Superman tenha sido no mínimo de igual qualidade, pois ao invés de apelar a estórias mirabolantes e vilões poderosos e caricatos, temos uma trama muito mais intimista, desde o primeiro arco da revista, que mexe muito com o psicológico do Super Homem e faz uma trama mais pessoal e profunda que apenas um quadrinho de pura ação não trabalharia. Ao acompanhar um Super que além de lidar com um mundo que não é dele, tem que ajudar sua família a fazer o mesmo, além de criar um filho que, quer se tornar um herói como o pai, mas não controla os poderes instáveis que possui.  


Já nos títulos do Batman (e da chamada “bat-família”) temos ainda mais qualidade em roteiro e desenho. O histórico título Detective Comics inicia com os roteiros de James Tynion IV que cria uma estória intrigante fazendo o Homem Morcego criar uma equipe para resolver assuntos que ele mesmo não pode resolver passando a liderança para a Batwoman; que é trabalhada nesse título tão bem quanto em sua própria revista, e as relações entre os personagens do improvável grupo são ótimas como todo o enredo dessa fase da revista. 
O título Batman fica por conta do agora famoso (ou infame por alguns) Tom King, que trás um Homem Morcego essencialmente humano, mas com toda a inteligência e genialidade característica do personagem. Tendo a estória dividida em arcos e ciclos bem planejados podemos acompanhar que o extraordinário do Batman é justamente o heroísmo máximo de que alguém sem poderem pode fazer mesmo em um universo de uma profusão de meta humanos. Temos um forte tom investigativo e uma ótima exploração dos vilões como se exige nas revistas do herói. Talvez esse seja o melhor título mensal de toda a fase do DC Renascimento.


A Mulher Maravilha já tem um tratamento todo diferenciado nessa fase comandada por Greg Rucka, que tem a brilhante idéia de dividir as estórias iniciais da personagem em dois arcos tendo um reestruturando o passado da personagem. Para isso ele intercala as edições e os desenhistas para dar uma identidade visual a cada estória, passado e presente. Temos a incrível Nicola Scott  e Romulo Fajardo Jr. na arte de “Ano Um” e Lian Sharp e Laura Martin na arte de “Mentiras”.
Esses primeiros arcos do título da Princesa de Themyscira são empolgantes tanto em roteiro como visualmente e sua alternância e a ligação entre as duas estórias é um show a parte, arquitetado pelo competente argumentista.  Assim somos levados a imaginar o quanto será fenomenal essa fase da personagem, pois a editora teve todo um cuidado em fazer um trabalho competente, principalmente devido ao sucesso do filme Mulher Maravilha, mas infelizmente as estórias perdem um pouco a qualidade com o tempo o que pode decepcionar alguns. No entanto, continuam sendo ótimas estórias com tramas interessantes de se acompanhar.


O título Flash parece iniciar com uma premissa simplória e até infantil, pois na estória gira entorno de uma tempestade que acaba proporcionando o dom da força de aceleração a quase toda a população de Central City. No entanto, o roterista Joshua Willianson soube trabalhar brilhantemente essa premissa escrevendo um quadrinho envolvente e muito divertido. A arte de Carmine di Giandomenico só reforçam o estilo e atmosfera suave que a história em quadrinhos quer proporcionar.
A qualidade da revista só melhora com as edições até chegar ao bem executado arco “O Bótom” ao lado do título do Batman, que, apesar de não ter revelado todo o mistério, deixa um ótimo enredo para a saga final do “Relógio do Juízo Final”. Logo, Flash é um dos títulos mais importantes dessa nova iniciativa e por isso muito bem executado pela DC Comics.


Aquaman chega as mãos de Dan Abnett com a inglória tarefa de superar a elogiada fase dos Novos 52 (diferente da maioria dos títulos) trazendo um dos mais antiquados e ridicularizados personagens da DC Comics para os holofotes, talvez devido a sua participação nos filmes da produtora Warner Bros. O argumentista acerta muito em não querer relacionar Arthur Curry com sua contraparte interpretada pelo ator Jason Momoa, mas acaba entregando uma narrativa não tão boa quanto o aclamado arco “O Trono de Atlantida” do próprio Geoff Johns. 
Entretanto, temos uma estória muito bem executada no arco inicial “O Afogamento” tendo altos e baixos nas estórias seguintes do personagem. Abnnet é muito acertado em mostrar um Aquaman tendo que superar as desconfianças e indiferenças que sofre tanto dos povos aquáticos como dos da superfície. Trabalha bem não apenas as questões psicológicas do herói, mas também as políticas chegando a fazer ótimas criticas ao governo estadunidense e a forma que se relacionam com os estrangeiros. Uma narrativa que trabalha bem o passado, não caindo sempre na facilidade do recurso intensivo de flashback, que aqui são pontuais e bem colocados.


O universo do Lanterna Verde aparece em dois títulos; o Lanternas Verdes do argumentista Sam Humphries que mostra as estórias de Simon Baz e Jessica Cruz onde, ambos, foram indicados como protetores da Terra; e a revista Hal Jordan e a Tropa dos Lanternas Verdes roterisada por Robert Verditti voltada mais a estórias espaciais focada no Lanterna Jordan. Talvez esteja aqui minha maior surpresa (juntamente com Esquadrão Suicida) em toda essa fase do DC Renascimento, pois ambos os quadrinhos tem uma qualidade bem acima da média me fazendo ter simpatia por personagens novos ou que nunca tinha gostado muito.
São estórias envolventes que sabem utilizar muito bem o universo dos Lanternas respeitando e ao mesmo tempo inserindo elementos novos de maneira as vezes arriscada, mas quase sempre muito acertada. Os arcos vão ficando cada vez mais interessantes com dozes de piada e ação na medida certa. O desenvolvimento de Baz e principalmente da Cruz são incríveis e raramente podemos ver Hal Jordan tão bem representado como um herói de ideais elevados unido a uma experiência que fazem toda a diferença na estória.


Falando das equipes temos  Liga da Justiça que talvez seja minha única decepção em uma iniciativa tão boa como o DC Renascimento. Bryan Hitch não consegue roterizar estórias empolgantes como deveria, talvez preso a responsabilidade de escrever enredos grandiosos e apocalípticos. Não consegue desenvolver bem a relação dos personagens, embora saiba trabalhar cada personalidade de forma convincente. Apesar disso o quadrinista tem uma narrativa relativamente coesa e que melhora um pouco com o tempo.
Christopher Priest assume o título na edição 17 (ou 34 nos EUA) trazendo o arco “O Povo Contra a Liga da Justiça” onde o argumentista trabalha a relação das pessoas comuns com a Liga depois de alguns eventos problemáticos. Priest tem uma narrativa mais convincente elevando bem a qualidade do quadrinho acertando praticamente todos os problemas de seu antecessor para poder entregar a entregar a revista ao quadrinista Scott Snyder posteriormente.  


Outra grande surpresa, positivamente, do DC Renascimento para mim foi a revista Esquadrão Suicida, principalmente depois de um filme que não agradou todos os fãs das histórias em quadrinhos. Como acontece com o Lanterna Verde eu nunca apreciei muito esses personagens, mas Rob Willians, juntamente com o ótimo artista Ivan Reis, soube trabalhar os anti-heróis de maneira bem mais crível que sua contraparte cinematográfica trazendo estórias com ótimo ritmo e idéias excelentes.
Rapidamente surge dessas duas equipes a primeira grande saga do DC Renascimento chamada Liga da Justiça VS Esquadrão Suicida comandada pelo roterista Josha Willianson que poderia ser bem melhor trabalhada, mas entrega satisfatoriamente bem o embate entre esses grupos onde já havia tido mostrado tensões entre os personagens principalmente pelo Batman. A editora decide aqui trabalhar com cautela ao invés de promover uma mega saga mirabolante entregando uma boa estória com repercussões comedidas para não se arriscar muito.


Tendo o risco de me alongar demais, quero destacar alguns títulos como o Arqueiro Verde. Havia muita promessa para esta fase do Arqueiro escrita por Benjamin Percy, pois a maioria dos leitores esperavam algo bem diferente do esquecível período do personagem nos Novos 52, ou melhor, uma parte dessa fase e sua torpe aproximação com a série de TV. Logo, a expectativa era a volta do velho Arqueiro, um Herói da Justiça Social, ao estilo do arco de estórias com o Lanterna Verde nos anos 70 comandado pelo Denis O’Neil e Neal Adams. No entanto, talvez seja justamente por isso que o quadrinho do DC Renascimento não atente a tão alta expectativa.
A estória é ótima, mas muito pouco desenvolvida e quando você acha que teremos mais profundidade; (como quando a Canário Negro mostra toda a hipocrisia de um herói que diz defender os desvalidos e necessitados, mas é um dos homens mais ricos do mundo); o argumento não atinge a reflexão necessária e, torna uma estória de ótimas idéias, bem superficial. Os desenhos de Otto Schimidt pioram as coisas por, apesar de bem executados, tem um estilo todo “teen” de desenhos animados que não combina com a estória sombria desenvolvida por Percy, melhorando levemente quando Juan Ferreira assume a arte. Resumindo, Arqueiro Verde tem ótimas idéias e sombrias como o personagem pede, mas não tem o desenvolvimento que certamente merecia.


Quero destacar também o título Exterminador que sempre foi um daqueles vilões de tanto os leitores gostarem acabou tendo suas motivações e carismas tão desenvolvidos até virar um anti-herói. Confesso que nunca gostei do personagem nos quadrinhos preferindo até sua adaptação em outras mídias como vídeo games e séries de TV. No entanto, fiquei muito satisfeito com a história em quadrinhos do Exterminador no DC Renascimento!
O argumentista Christopher Priest faz uma estória de espionagem brincando com os clichês do gênero e por vezes pervertendo muitas soluções fáceis geralmente encontradas em quadrinhos de super heróis. Logo temos uma estória bem executada de muitas reviravoltas e que ainda tem tempo para desenvolver mais o personagem deixando o Exterminador mais dentro dos tons cinzentos entre o bem e o mal criando uma identificação ainda maior pelo personagem onde com certeza ele não é um herói, mas você torce por ele mesmo assim.


Por último quero também me dedicar ao Asa Noturna, pois havia uma maior empolgação da minha parte por ler seu título, devido a ótima dele na fase dos Novos 52, principalmente quando Tom King assume o personagem. Assim Tim Seeley parte daí com um Dick Grayson que foi dado como morto e tenta voltar a ser o Asa Noturna enquanto se infiltra no, agora, Parlamento das Corujas. Seeley trás ainda mais humanidade ao personagem que quer destruir uma organização criminosa global por dentro e ainda assim não se corromper ou literalmente cruzar a linha que separa heróis de vilões.
O autor se utiliza ainda os novos vilões do Batman, a Corte das Corujas e avança ainda mais sua mitologia tornando-a bem maior que anteriormente. Fiquei bem satisfeito com o primeiro arco chamado “Melhor que o Batman”, mas senti falta de mais detalhes sobre o Parlamento das Corujas e mais informações sobre seus agentes, os garras, algo que eu também tinha sentido quando Scott Snyder os criou.


Resumindo a DC Renascimento foi uma excelente iniciativa da editora que acertou muito ao ouvir seus fãs e entregar exatamente o que eles estavam pedindo. A qualidade das estórias se mantêm em um bom nível, mesmo as que não desenvolveram tão bem e infelizmente talvez a única exceção seja mesmo o título da Arlequina que teve os roteiros, escritos pela dupla Amanda Conner e Jimmy Palminotti, sofríveis o suficiente para me fazer abandonar a revista. No mais, temos títulos muito bem trabalhados e que principalmente soube respeitar seus fãs antigos e ainda atraindo novos leitores para a editora se consolidando à frente da concorrente tanto em crítica quando em vendas. Uma estratégia de marketing muito bem empregada e com uma ótima base em ter ótimos profissionais criando de forma competente e produzindo um resultado muito bem executado.