quinta-feira, 29 de julho de 2021

The Walking Dead: Segurança Atrás das Grades


Terceiro arco (e encadernado) da história em quadrinhos elaborada e escrita por Robert Kirkman com desenhos de Charles "Charlie" Adlard e arte final de Cliff Rathburn, publicado pela editora Image Comics. Temos uma continuação direta dos volumes anteriores em que acompanhávamos o drama do Rick Grimes liderando a saída dos sobreviventes do acampamento em busca de um novo abrigo enfrentando um inverno desesperador em um caminho marcado pela fome e a presença sempre constante dos mortos vivos. Agora, finalmente, parece que encontraram o local ideal, mas nem tudo será tão fácil assim... 

Se você quiser saber mais sobre como The Walking Dead foi criado nos quadrinhos, sobre seu idealizador e suas inspirações; aproveite para ler também nossa resenha anterior sobre este material. Também é possível acompanhar nossa análise do primeiro volume chamado Dias Passados e da sua segunda edição Caminhos Percorridos. No entanto, se quiser saber mais sobre este terceiro encadernado continue lendo por aqui. 

Em Segurança Atrás das Grades temos o início do primeiro arco a ganhar muita notoriedade entre os leitores de quadrinhos... a prisão.  

O local parecia perfeito para os sobreviventes conseguirem se fixar em uma morada. Grades e muros fortes que deteriam a entrada dos mortos vivos. Um grande campo entre cercas para plantar o que comer. Era a esperança estabelecida e a oportunidade de, a partir dali, reconstruir uma sociedade ou ao menos viverem em paz. E as coisas pareciam ainda melhores quando eles descobrem os estoques absurdos de comida enlatada que poderiam sustenta-los por muito tempo...  

Pareciam... 



Aqui a publicação se volta para o tema que será sempre recorrente no enredo de Robert Kirkman. Por pior que sejam os mortos... os vivos conseguem ser ainda mais cruéis. Como acontece na maioria das produções cinematográficas de George A. Romero (diretor e autor que muito inspirou The Walking Dead) as pessoas vivas são sempre o pior em qualquer tipo de distopia pós apocalíptica. Assim sento, na segurança atrás das grades, temos outro caçador à espreita matando os sobreviventes um a um causando ainda mais terror.  

O clima de tensão causado é trabalhado de maneira muito eficaz, embora muito rápido. Talvez a resolução tenha sido às pressas devido a verdadeira trama que o autor queria trabalhar. O questionamento do que fazer se alguém cometer um crime entre os sobreviventes, ou melhor, o que fazer com um assassino entre eles? Restabelecer algum contrato social de convívio se faz incrivelmente necessário tão rápido quanto conseguiram se estabelecer em algum lugar. Deve existir regras, mas como elabora-las e quem deve ter autoridade sobre as mesmas? Ou melhor ainda... o que fazer agora que temos um verdadeiro serial killer? 

Temos diálogos afiados sobre a questão de justiça e autoridade contemporizando qual é o limite que estão prontos para chegar em busca da segurança de todos e do bem comum. Principalmente no que se refere à pena de morte. É incrível a rápida evolução que temos no enredo de um encadernado para outro quando a busca simples pela sobrevivência muda para os dilemas de como construir uma sociedade em meio a todo esse caos.  Além de termos toda essa discussão, ou início dela, em meio a narrativa sobre o quão cruel o homem pode ser em condições extremas e o qual será a linha que poderá definir o certo do errado depois de toda essa desolação causada pelos mortos.  



Kirkman ainda nos presenteia com mais desenvolvimento dos personagens onde fica cada vez mais claro e reconhecível suas personalidades e motivações, como também apresenta figuras novas que vão rapidamente mostrando sua própria importância na narrativa e enredo principal. Tais significados e desenvolvimentos começam a mostrar o que parece ser o melhor da escrita do autor. A gradual mudança que os eventos vão causando aos personagens devido aos impactos sentidos e as decisões difíceis que eles se veem obrigados a tomar.  

Focando no protagonista, já conseguimos ver, de forma bem clara, a diferença de Rick Grimes como aquele tranquilo policial da primeira edição de The Walking Dead do que ele é agora. É possível, sem muita dificuldade, para o leitor sentir também seus dilemas e a responsabilidade que o protagonista toma para si mesmo. Grimes evolui junto com o enredo apresentado em um recurso narrativo que faz com que possamos acompanhar a estória como se também a estivéssemos vivenciando ao virar de cada página, adentrando em um universo arruinado em preto e branco. 



A arte de Charlie Adlard continua muito eficaz ajudando incrivelmente na narrativa com seu foco nas excreções e caracterização de cada personagem. Aqui, possivelmente, não pode ser encontrado mais resquício algum daquela incomodação da mudança do artista, visto que os traços do ilustrador interagem bem demais com a estrutura de roteiro de Kirkman mesclando arte com texto de forma tão fluída que dá a impressão aos leitores que são ambas produzidas pela mesma pessoa. Essa sincronia se faz extremamente importante, pois as relações entre personagens são o maior foco dessa edição, e ao bem dizer um dos temas principais ao longo de toda a publicação deste título. Tudo isso poderia ser perdido com um traço inabilmente simplório ou demasiadamente caricato. 

Aqui temos vários pontos em que a narrativa está por conta totalmente dos desenhos cujos detalhes, se percebidos, podem dar muito informação do que está prestes a acontecer e ajudam muito a absorver mais as motivações e reações dos personagens na trama. O ambiente da prisão parece ser limpo e bem menos claustrofóbico do que deveria, mas provavelmente deve ser por representar a renovação da esperança aos sobreviventes e um contraponto com o ambiente destruído e apodrecido do “além muros”. Isso se mostra perceptível na curta sequência de ataque do serial killer que os quadros são levemente mais próximos e com muito uso do preto para dar o tom mais escuro. Tais recursos também podem ser vistos em cenas no interior da prisão, principalmente nas celas, mas de alguma maneira, no momento do ataque, ficou ainda mais sombrio.  



Logo, é perceptível uma evolução narrativa, seja textual ou artística, a cada arco proposto de forma constantemente crescente. A qualidade parece melhorar a cada edição fazendo a leitura ser agradável ao mesmo tempo que começa a tratar de certos temas mais profundos. The Walking Dead é uma obra de fácil assimilação pelo leitor, mas que o faz, depois, refletir sobre o que lhe foi apresentado gerando uma sensação mais permanente de busca pela continuidade da leitura, bem mais do que faria as reviravoltas e revelações no final de cada encadernado. No entanto, também temos muito disso em cada arco, mostrando que todo o enredo foi muito bem planejado pelos autores e está, até agora, sendo brilhantemente executado com muita maestria e competência.  


Leia também a resenha do próximo volume... 

terça-feira, 27 de julho de 2021

Arqueiro Verde: Os Caçadores


Minissérie da DC Comics publicada de agosto a outubro de 1987 em três edições escrita e desenhada por Mike Grell com a assistência de Lurene Haines e as cores de Julia LacQuemetOs Caçadores narra a perseguição de Oliver Queen à um serial killer enquanto sua namorada está investigando os traficantes de drogas ilícitas de sua cidade. Logo temos o super herói em uma temática mais profunda e adulta onde os vilões são substituídos por senhores do crime das ruas e por políticos corruptos. No entanto, existe outro caçador que tem uma habilidade com arquearia comparável ao protagonista, mas não tem suas convicções morais e éticas. Assim a minissérie eleva as histórias do personagem à um patamar mais sombrio e verossímil com pertenço realismo que, embora não tenha sido abordado desta forma pela primeira vez, traz aqui uma carga bem mais madura do herói que deve lidar não apenas com criminosos bem reais, mas também como dilemas cotidianos de sua vida ordinária de um homem comum que já sente o peso e as responsabilidades dos anos em suas costas. 

Muito inspirada na abordagem de Denny O’Neil e Neal Adams em 1960 quando eles colocam o Lanterna Verde e o Arqueiro Verde em uma viagem pelo interior dos Estados Unidos mostrando todas as mazelas e incoerências de um país forjado por guerras e desigualdade social em que ainda estava longe de ser a democracia perfeita que tanto fazia parte de sua propaganda nacionalista. Oliver Queen era o guia desta roadtrip onde o personagem estava se estabelecendo não mais como um simples rico que ajudava os pobres (inspiração obvia em Robin Hood), mas que era um ativista envolvido em questões sociais, ao mesmo tempo que um homem falho, que tinha também seus próprios preconceitos e dúvidas internas de como deveria ser realmente um super herói. 



Entretanto em Os Caçadores damos mais um passo de profundidade à essa camada “mais realista ou adulta”. Agora não seria mais focada, apenas, na visão diferenciada de Arqueiro Verde para com os outros super heróis, mas com o Oliver Queen totalmente imergido nos meandros da criminalidade das ruas ao tempo que persegue os representantes de um Estado corrupto que não apenas amplia a desigualdade social e a miséria em sua volta, mas também como parece enriquecer com a manutenção desse círculo vicioso. Logo, o protagonista se vê em dilemas morais de como deve agir diante de tão perversos oponentes e sistema, bem como encontra uma contraparte sua bem menos idealista que fora vítima de tais opressores e agora busca sua vingança fria utilizando de qualquer meio necessário.  

A busca por histórias mais realistas também fica claro em pequenas, mas significativas, mudanças no universo do personagem, como, por exemplo, a alteração da sua cidade de atuação, a fictícia Star City para a real Seatle. Assim fica mais evidente a verossimilhança da história sendo narrada dando ao leitor um sentimento de um enredo mais possível e menos fantasioso.  

O Arqueiro Verde também se torna mais profundo e maduro mostrando a relação que tem com sua namorada, Dinah Lance, e as problemáticas de pessoas comuns sendo também grandes obstáculos para o protagonista como o envelhecimento e suas contemporizações sobre seu tão incerto futuro. Logo temos um Oliver que deseja levar seu relacionamento ao próximo nível, mas encontra, pela visão de Dinah, a problemática de tais relações com a vida extremamente perigosa de vigilantismo. Aliás a abordagem da Canário Negro aqui é incrível, pois fica claro o quanto ela é apaixonada pelo Arqueiro Verde ao mesmo tempo que ela é uma mulher muito independente e que, ambos, sabem muito bem respeitar suas individualidades. Chegam até a serem meio individualistas em algumas questões, principalmente na forma que cada um leva o combate ao crime.  

Claro que também temos ação e aventura dignas de estórias de super heróis, mas aqui vemos sua melhor fase investigativa tanto como detetivesca nas ruas periféricas da cidade, bem como de um exímio rastreador em florestas, talvez devido ao seu passado como um sobrevivente de áreas selvagens. Temos assim um caçador nato tanto em ambiente urbano como em ambiente natural. E, quanto a isso, uma mudança no personagem foi fundamental... o abandono de parafernálias tecnológicas e flechas com mil habilidades, enfocando agora mais em sua inteligência a precisão com a arquearia. Tal mudança deixou o personagem ainda mais humano e crível, o que era claramente o objetivo.  



Os desenhos de Mike Grell casam tão bem com esse clima soturno quanto seus próprios roteiros. Fruto de um quadrinista experiente em obras autorais como Jon Sable Freelance e Starslayer, bem como outras obras na DC Comics, sobretudo o título Super Boy e a Legião dos Super Heróis onde teve muita notoriedade. Ele mesmo já tinha experiencia com o personagem no renascimento do título de Lanterna Verde/Arqueiro Verde em 1976 junto com Denny O’Neil que obviamente inspirou Os Caçadores. Os desenhos de Grell aqui são muito ao estilo noir (como seu roteiro) em ângulos mais desafiadores do que é comum em quadrinhos de super heróis. Utiliza muito de closes em detalhes importantes para sua narrativa (como mostrar em destaque a ponta da flecha antes de um disparo ou os olhos do arqueiro trazendo tensão) bem como passadas de quadros muito arrojadas e dinâmicas dando velocidade a cenas de ação. As cores executadas por Julia LacQuemet complementam o clima sombrio que o autor busca nessa publicação dando um acabamento refinado a esse material. 

Essa união de roteiro e arte fez com que o Arqueiro Verde deixasse de ser visto como não mais que um parceiro do Lanterna Verde, emplacando o personagem para um maior destaque na editora chegando a concorrer a prêmios importantes como o Eisner. Isso garantiu a contratação de Mike Grell como quadrinista principal para as mensais de Oliver Queen, tornando sua restruturação do protagonista ainda mais permanente sendo revisitado até as histórias em quadrinhos atuais. O artista mudou e aprofundou o personagem definindo não apenas o Arqueiro Verde, mas como boa parte do seu universo chegando a criar coadjuvantes marcantes, como a arqueira asiática Shado, que se tornaram fundamentais em sua mitologia.  



Assim Mike Grell foi fundamental para estabelecer o Arqueiro Verde ao que ele é hoje, popularizando o personagem e o tornando ainda mais importante no Universo da DC Comics. Os Caçadores ainda é um dos melhores materiais sobre Oliver Queen sendo fundamental para sua mitologia e uma das principais referências para publicações futuras do mestre da arquearia e defensor dos mais oprimidos.  

domingo, 25 de julho de 2021

Thor: O Último Viking


Arco das histórias em quadrinhos que marca o início da fase de Walter Simonson no título do Poderoso Thor pela Marvel Comics sendo reconhecida como um dos melhores materiais do personagem desde a era Stan Lee e Jack Kirby, seus criadores originais. Aqui temos um conto épico em escala cósmica que redefiniu o Deus do Trovão gerando um legado sentido até hoje em suas revistas. Nunca a junção dos temas de super herói, ficção cientifica e mitologia nórdica foi entrelaçada de forma tão orgânica e funcional em sua narrativa.  

Temos aqui a criação de um dos mais importantes, e queridos, personagens do universo do herói asgardiano, o extra terrestre ciborgue chamado Bill Raio Beta, que representa exatamente essa mistura de ópera espacial com alta fantasia. Um ser vindo dos confins espaço que tem uma horrenda forma alienígena cibernética e, ao mesmo tempo, possuidor de um coração tão puro que é capaz de levantar o mjolnir sendo tão, ou mais, digno que o próprio Thor.  



Justamente utilizando desta mistura que o quadrinista Walter “Walt” Simonson fez seu nome na indústria tanto como escritor e, bem como, desenhista também. Simonson já era grande fã do personagem bem antes de ter seu primeiro contato com o título de Thor como seu ilustrador anteriormente. Seu primeiro quadrinho que leu em vida foi justamente do Deus do Trovão pelas mãos de seus criadores Lee e Kirby tendo os traços desse último como grande influenciador de sua arte, mas é aqui que o fã amadurece e começa a trilhar seu próprio caminho.  

Apesar dos seus roteiros beberem muito da fonte do que tinha sido estabelecida anteriormente, Simonson traz a mitologia nórdica como uma forte inspiração nunca tão bem representada antes. Nessas páginas, aos poucos, o super herói vingador Thor vai se tornando cada vez mais o lendário deus Thor. Essa mitologia vai ganhando cada vez mais peso no enredo quando outras figuras asgardianas vão tendo uma participação cada vez maior no título e até alguns contos mitológicos acabem ganhando sua versão quadrinistica aqui. Assim temos uma relação mais próxima do personagem dos quadrinhos com o deus mitológico dando um certo tom de fábula as suas narrativas e tramas elaboradas.  



Talvez os interesses pessoais de Simonson com História e Arqueologia tenham sido fundamentais para essa construção narrativa, bem como o fato de ser leitor de quadrinhos, especialmente fã do poderoso Thor. No entanto, nada disso teria tanto significado se não fosse sua própria habilidade de escrever boas estórias tanto como força criativa de personagens e ideias como um bom desenvolvedor de tramas capaz de narrar de forma coesa ao decorrer do avanço do enredo. 

A sua incrível criatividade e habilidade para urdir temas tão distintos em um mesmo enredo também se faz igualmente capaz de enredar tramas diversas em uma mesma narrativa sequencial contínua. Mesmo nesse início temos, em um mesmo arco, um antigo dragão que ameaça Nova Iorque, alienígenas vindos do além espaço, os maquiavélicos planos de Loki, o último descendente dos Viking, entre outras estórias em meio ao inexorável retorno de Surtur. Tudo muito bem amarrado e nem um pouco exagerado ou confuso dando importância não apenas ao protagonista, mas a uma profusão de personagens coadjuvantes que conseguem enriquecer demais a trama principal deixando o universo do Deus do Trovão mais vivo e, até crível, do que nunca fora sequer imaginado.  



A habilidade narrativa de Simonson é comparável apenas a sua própria arte que está especialmente magnifica nessas páginas trazendo a mesma ligação orgânica nas estórias de super heróis, espaciais e mitológicas. Tudo é estranho e ao mesmo tempo que uma conversa muito bem com a outra. O leitor pode achar absurdo a ideia de um Thor que viaja pelo espaço na velocidade da luz em uma biga conduzida por dois bodes mágicos, mas que aqui, por algum motivo, isso parece plausível ou, ao menos, condizente ao universo ali criado.  

Assim o autor acaba reconstruindo as bases do personagem que ao invés de altera-las levianamente ou ignora-las, Simonson simplesmente as expande dando um sentido único a toda aquela profusão de temas ao mesmo tempo que consegue deixar sua marca como escritor e desenhista que é, até hoje, reverenciada e reconhecível pelos leitores contemporâneos e posteriores. São contos de aventura e muita ação para o divertimento, mas que ganha também certa notoriedade no aprofundamento e significância dos seus personagens bem como algumas questões pertinentes levantadas no desenrolar do enredo.



Tudo culmina nesse arco com o personagem ancião Eilif, o Ultimo Viking, que nomeia esse material trazendo uma carga emocional para fechar com chave de ouro esse início de publicação, buscando o heroísmo e a coragem em uma melancolia derradeira de sacrifício na tentativa de se alcançar os tão desejados salões sagrados, quase que como um paralelo ao próprio Simonson, que buscava alcançar sua importância no título do seu personagem preferido ao mesmo tempo que queria deixar um legado da sua arte e escrita ao universo das histórias em quadrinhos. Sendo assim tanto personagem como seu autor acabam por conquistar sua entrada ao Valhalla e seu lugar de direito entre os maiores campeões desse universo.