Análise da primeira
parte do Guia Definitivo dos X-Men que compreende toda a fase inicial dos mutantes
escrita por Stan Lee, publicada nos
Estados Unidos nas revistas The X-Men do número 01 ao 19, durante o período de
1963 à 1966. Teve Jack Kirby como desenhista nos números 01 ao 11; Alex Toth na
edição 12 e Werner Roth a partir da 13. Foi publicada no Brasil na integra na
coleção Biblioteca Histórica Marvel – Os X-Men volumes 1 e 2 e em partes na
Coleção Histórica Marvel – Os X-Men volumes 1,2,3 e 4; ambas pela editora
Panini.
Chegava,
em setembro de 1963, nas bancas de revistas e lojas especializadas dos Estados
Unidos a mais nova história em quadrinhos da editora Marvel Comics. Os “mais incomuns
super heróis de todos” faziam sua estréia na revista The X-Men 01 (posteriormente
rebatizada de The Uncanny X-Men) e já
contava com o “argumento sensacional” de Stan Lee e os “desenhos dinâmicos” de
Jack Kirby, os criadores da equipe mutante e já aclamados pela Casa das Idéias.
Jack
Kirby era chamado de “o arquiteto do impossível”! Um verdadeiro gênio e
visionário entre os desenhistas da arte seqüenciada que lhe rendeu a alcunha
merecida ou o apelido carinhoso de “O Rei”. O quadrinista definiu o gênero dos
super heróis para sempre, instituindo os padrões artísticos das histórias em
quadrinhos estadunidenses posteriores e fazendo seu legado permanecer vivo até
os dias de hoje, tornando-se uma referencia para os artistas da atualidade.
Stan
Lee talvez seja o nome mais importante da indústria dos comics e criador da maioria dos principais super heróis como Homem
Aranha, Hulk, Quarteto Fantástico e boa parte dos Vingadores. Lee é a
escarnação da fórmula ou estilo Marvel, ou seja, além da narrativa diferenciada
e diálogos afiados, também temos uma maior caracterização dos personagens que,
apesar de representar o bem e o super heroísmo, também tinham seus problemas
pessoais e humanos, fazendo com que os leitores se identificassem mais com eles
do que com os protagonistas, quase deuses, da editora concorrente. Stan Lee
escreveu os X-Men desde a primeira revista até o número dezenove que formam
exatamente a fase analisada nesse texto.
Hoje
podemos dizer que os temas mais importantes abordados pelas revistas dos filhos
do átomo sejam o racismo e a inclusão de alguns indivíduos (minorias) na
sociedade, mas embora estivesse sutilmente presente desde o primeiro quadrinho,
Lee e Kirby não tinham elaborado esses questionamentos com mais profundidade em
suas criativas mentes ou simplesmente não colocavam de forma tão direta.
Inicialmente
os mutantes seriam apenas um facilitador para se explicar a origens dos poderes
de novos heróis e vilões. Logo teríamos a existência de uma nova raça no Universo Marvel, o homo superior (termo pseudocientífico criado por Stan Lee), que já
nasceriam com habilidades extraordinárias e que, geralmente, se manifestariam na
puberdade. Logo, não mais precisariam de explicações mágicas como Thor e Dr.
Estranho; científicas como Homem de Ferro e Capitão América; ou acidentais como
o Homem Aranha, para as origens dos super poderes.
Entretanto,
é justamente quando seus autores refletiram sobre como as pessoas receberiam
esses novos personagens e sensíveis as discussões que estavam ganhando força no
contexto dos Estados Unidos nos anos 60 é que perceberam que tinham criado personagens
realmente “diferentes de todos os outros” e que questões quase nunca abordadas
pelas histórias em quadrinhos até então. Agora poderiam ser centrais com os fabulosos
X-Men.

Justamente
está nesse contexto o movimento de luta pelos direitos civis que marcou a
década de 1960 gerando repercussões sociais até hoje na cultura americana
ocidental. Impulsionados pela situação em que os afro-descendentes se
encontravam nos Estados Unidos e que, afinal, não tinha melhorado muito desde o
final da escravidão, esses movimentos sociais estavam explodindo. Talvez
influenciados pelos pioneiros da busca pela igualdade racial como o intelectual
W.E.B. DuBois que escrevia sobre a “condição de casta subordinada” em que os
negros viviam no inicio do século XX e se tornou o primeiro afro-americano a
ganhar o título de PHD pela Universidade de Harvard.
Muito
se criticou sobre a segregação que havia nesses cem anos após a Guerra de Secessão (ocorrida entre 1861
a 65), mas foi na década de 1960 que os movimentos sociais cresceram em número
e se tornaram influenciadores de toda uma geração que buscava melhores
condições para minorias oprimidas pela sociedade estadunidense, incluindo os
negros que uma vez ameaçados nas regiões agrárias do Sul dos Estados Unidos,
acabavam fugindo por melhores condições no Norte do país, mas encontravam se
não perseguições e assassinatos, uma forte resistência social e racista que os
separava das comunidades brancas reservando ao afro-americano a uma categoria
de piores empregos e quase nenhuma ascensão econômica e social.
As
leis estadunidenses reforçavam essa separação que rebaixava o cidadão afro-descendente
em uma espécie de “apharteid
americano” que muito incomodava as comunidades oprimidas e eclodiu nos
movimentos sociais dos anos 60 em várias vertentes, pacifistas ou violentas, mas
que buscavam o mesmo objetivo de igualdade e influenciariam não apenas aos negros,
mas também teria repercussões em muitas culturas do continente americano e,
posteriormente, quase todo o ocidente.
Foi
com esse olhar sensível para essas lutas e percebendo a mudança na sociedade
que seria gerada por esse momento histórico que Stan Lee e Jack Kirby plantaram
a semente da reflexão sobre o racismo e inclusão, ou reclusão, das minorias na
sociedade que viria a ser tão presente nas estórias dos pupilos do professor
Charles Francis Xavier e colocaria os X-Men em um patamar muito além de simples
super heróis dos quadrinhos, chegando a ser o sucesso editorial mais expressivo
da Marvel Comics nos anos 80 e 90.
Claro
que hoje podemos ver influências diretas e indiretas desse período nas revistas
dos mutantes bem como as atitudes conciliadoras do Professor X que simulavam os
discursos de Martin Luther King Jr, um líder pacifista do movimento de luta
pelos direitos civis e seguidor dos ideais de Desobediência Civil, criada por Henry
David Thoreau e cujo o pioneiro em prática teria sido Mahatma Gandhi que também
inspirou a criação e desenvolvimento de Charles Xavier, mas este em aspecto
físico (Xavier e Gandhi tem, ambos, uma mente brilhante, mas são fisicamente
frágeis) além de espiritual.
Até mesmo os vilões são associados aos
discursos e ideais da época, como Erik Magnus Leinsher, também chamado de
Magneto (pois possuía poderes magnéticos), o principal antagonista dos X-Men.
Magnus tem como sua contraparte histórica o ativista Malcolm X, também um líder
afro-americano do movimento pela luta dos direitos civis, mas que tinha um
caráter mais radical que Luther King. No entanto, posteriormente nos faz
refletir sobre a legitimidade do uso da violência no contexto de revoltas e
revoluções e se Magneto realmente seria um vilão.
Interessante
perceber que, se o Mestre do Magnetismo teve sua narrativa cada vez mais se
aproximando a Malcolm X, talvez sua Irmandade de Mutantes possa ter se
assemelhado, na mesma proporção, com o movimento dos Panteras Negras, um grupo
que teve como inspiração o líder radical negro. Logo, mais uma vez podemos ver
o embate de como esses movimentos se articulam e que método seria mais “correto”
a se fazer, o pacifismo do Professor X ou o radicalismo de Magneto uma
discussão muito real e pertinente para os anos 60 de lutas e movimentos de
Luther King e Malcolm X.
Obviamente
nos primórdios dos fabulosos X-Men essas referencias eram eclipsadas por
estórias de ação ingênua e aventuresca bem típica da Era de Prata das histórias em quadrinhos que tinham peso mais de
entretenimento do que consciência social, pois muitas questões eram perigosas
de serem abordadas devido ao famigerado Comics
Code Autority que censurava os comics
e não permitia que temas mais pesados fossem abordados em revistas ditas para
os jovens e as crianças da época.
O
código surgiu muito impulsionado pelo livro Seduction
of the Innocent em que o psiquiatra Frederic Wertham expõe sua tese sobre como
os quadrinhos dos Estados Unidos fugiam muito da noção moralidade e ética da sua
época e que influenciava sua juventude à delinquência.
Assim
as primeiras aventuras dos “adolescentes mais incomuns de todos os tempos”
tinham a narrativa já clássica de ter um vilão novo a cada revista e gerando,
ao mesmo tempo, antagonistas esquecíveis como o teleportador Vanisher ou Unus o
Intocável, mas também firmou ícones da vilania das revistas mutantes como Blob,
O Fanático Cain Marko e a Irmandade dos Mutantes com seu emblemático e poderoso
líder Magneto que se tornaria um dos principais personagens de toda a franquia
dos filhos do átomo. São esses últimos
que quebravam a narrativa de “vilão do mês” tendo uma profundidade maior em sua
caracterização e que sempre voltavam mais fortes ou com planos melhores para
atormentar a vida dos pupilos do professor Xavier.

Ao
mesmo tempo, podemos perceber que apesar do código de censura, Stan Lee foi
introduzindo temas mais profundos, mesmo que sutilmente, nas caracterizações
mais densas dos personagens que tinham problemas reais como a auto-estima
afetada de um Henry “Hank” McCoy que não gostava de ser chamado de “Fera” ou
Ciclope, que era o órfão Scott Summers, e que era também assombrado pelo perigo
de suas rajadas ópticas. Logo, eram personagens ingênuos como era exigido, mas
com uma complexidade além do comum que formam o alicerce para as estórias
futuras sem tanta censura e que poderiam abordar enredos mais delicados de
maneira mais explicita.
Curioso
perceber que o mesmo ocorreu com a equipe de super heróis Patrulha do Destino
da editora concorrente, a National Comics
(ancestral da DC Comics) que tinham a
mesma abordagem inicial de “heróis mais estranhos de todos” e, por isso mesmo,
desajustados, mas que tinham estórias mornas no inicio até alcançarem toda uma
reviravolta posteriormente com o “afrouxamento” do Comics Code Autority e roteirizados pelas mãos de Grant Morrison.
Justamente
sob a batuta de Stan Lee temos a, talvez, maior genialidade, dos primórdios dos
X-Men em traçar uma linha delicada e tênue entre o espírito aventuresco de uma
época que se exigia histórias em quadrinhos que “não seduziriam os inocentes”, como
sugeria o psiquiatra Werthan em seu livro, ao mesmo tempo em que estavam
conectados ao contexto e questões que explodiam nos Estados Unidos naquela
década de forte repressão e luta por igualdade de direitos.
Assim
o grande mestre da Marvel Comics
aprofundava a personalidade de seus personagens até onde podia, trazendo temas
mais pesados com uma narrativa pontual e de sensibilidade impar, condizente a
sua genialidade. Somos mostrados a um Magneto terrível e claramente maligno
trajando roupas vermelhas com “pequenos chifres” em seu elmo querendo dominar a
raça humana que ele enxerga como inferior, bem como temos um amadurecimento do
antagonista revelando seu ódio pelo racismo a medida que a estória evolui
tornando-se mais densa a medida que chegam mais revistas dos mutantes nas
bancas.

Um
ótimo exemplo dessa profundidade pontual se mostra na oitava revista dos X-Men
quando o Homem de Gelo e o Fera estão nas ruas de Nova Iorque e encontram uma
criança em perigo encima da caixa d’água de um prédio. Com o infante podendo cair
a qualquer momento, Hank McCoy, ignorando até mesmo sua identidade secreta,
decide usar seus dons mutantes para subir pelas pareces do edifício e salvar o
garoto. A população acompanhando tudo o que acontecia pelas ruas deduz
corretamente que Hank seria um mutante e decide atacá-lo movidos pelo ódio ao
diferente e ao desconhecido. É demais para o intelectual McCoy que, indagando os
motivos da equipe estar tão disposta a salvar justamente aqueles que os odeiam
e questionando o sonho de Charles Xavier em uma coexistência pacifica entre
mutantes e humanos, acaba (não por muito tempo, é verdade) abandonando seu
grupo mutante.

Stan
Lee mostra cada vez mais suas intenções com os jovens superdotados trazendo não
apenas questões sociais da época (que por si só já destacariam muito suas
estórias), mas também vários temas “na moda” do período como ficção cientifica,
medo nuclear, aventura de exploração em paraísos selvagens perdidos e, claro, a
eterna luta do bem contra o mal.
Outro
contexto histórico recorrente nas histórias em quadrinhos da editora Marvel e
claramente presente nos primórdios dos X-Men é a da Guerra Fria (1947 a 1991).
Ora, não é um paralelo ao período tendo um Professor X preocupado não apenas em
localizar mutantes para fazê-los compreender seus poderes e assim, quem eles
são, mas também buscando recrutá-los para sua equipe antes que Magneto os
convoque para a Irmandade dos Mutantes. Logo, uma referencia obvia aos “países
estratégicos” que eram financiados pelos Estados Unidos capitalistas para que
não se tornassem comunistas e, assim, aliados à União Soviética. Uma corrida
armamentista e, as vezes, intelectual que foi responsável por encontrar e
financiar cientistas e estudiosos para cada eixo que tinha um duplo objetivo.
Atrair mais para sua ideologia e não permitir que a outra tivesse controle
sobre aquele local específico ou descoberta científica.
Inexoravelmente
não demoraria muito para a narrativa inocente e clichê fossem dando espaço para
um aprofundamento das estórias e dos próprios personagens, heróis ou vilões,
como o ótimo exemplo do arco do antagonista Lúcifer. Um antagonista até esquecível
que seria mais um “vilão do mês” se não fosse pela narrativa de suspense bem
orquestrada por Stan Lee que vai introduzindo o super vilão aos poucos e
revelando seu passado ligado ao líder mutante Charles Xavier de forma
intrigante e permanente. A mesma idéia é repetida poucas edições depois com o dito
meio irmão (na verdade irmão adotivo) rancoroso do Professor X chamado Cain
Marko, o Fanático, que se tornou um dos oponentes mais interessantes e
imbatíveis dos X-Men até os dias atuais.
O
Fanático traz ainda narrativas diferenciadas como uma desculpa para mostrarem
um pouco da origem do professor Xavier, mostrando sua trágica infância com o
meio irmão (fazendo jus a escolha dos autores pelo nome Cain) e esse arco
aproveita para introduzir melhor os X-Men no Universo Marvel com aparições singelas do Demolidor e mais
importantes como o Tocha Humana do Quarteto Fantástico. Claro que essas
aparições combinadas já haviam ocorrido antes, como o caso da revista Tales of Suspense 49 em que o X-Man Anjo
(Warren Worthington III) encontra o Homem de Ferro (Antonny “Tonny” Stark) e na
própria revista dos mutantes The X-Men 09
com o surgimento dos Vingadores, mas não tinha sido tão bem trabalhado como
agora contendo não apenas personagens, mas elementos das outras publicações da
Casa das Idéias, como as famosas Faixas
de Cyttorak (entidade presente nas estórias do Dr. Estranho) trazendo os
elementos de crossover que fazem tão
reconhecível a fórmula Marvel não quadrinhos e mais recentemente no cinema.
Também
devemos destacar o clima colegial nas estórias da equipe mutante, onde os
pupilos de Xavier são alunos de sua escola para jovens superdotados sendo
treinados e até, eventualmente, se formando com direito a beca e diploma.
Charles faz às vezes de professor exigente e “linha dura”, apenas da aparência
frágil, que “não tolera atrasos” e testa constantemente seus estudantes
chegando muitas vezes a abalar o limite emocional dos X-Men quando finge perder
os poderes ou desaparece de vez em quando deixando os filhos do átomo perceberem
que já podem caminhar sozinhos, e sem sua tutela constante, explorando a
qualidade de Ciclope como líder de campo da equipe.
Próximo
ao final da fase de Stan Lee temos os melhores representantes do amadurecimento
da narrativa dos “jovens mais estranhos de todos”, o advento dos Sentinelas.
Robôs de combate autoconscientes criados pelo antropólogo Bolivar Trash para
conter a ameaça mutante que o próprio alardeou nos jornais sendo responsável
pela histeria ante-mutante. Temos novamente todo um clima de Guerra Fria com um
paralelo aos comunistas e ao macarthismo gerando, pelas palavras do próprio
Professor X, uma caça as bruxas aos homo
superior. Os Sentinelas representam, também, mais um exemplo da influencia
da ficção cientifica nas estórias dos X-Men, principalmente quando se rebelam
contra seu criador e chegam a conclusão lógica que para proteger os humanos dos
mutantes deveriam governar o mundo e escravizar à todos.

Estão
nesses fatores; como trazer heróis e vilões com dilemas humanos e assim
cultivar uma identificação maior com os leitores no melhor estilo Marvel, por
abordar temas delicados e tensos em uma época de proibição e censura e por nos
fazer refletir sobre questões que estavam em evidência no período e no contexto
em que foram lançados; é que fazem dos fabulosos X-Men um diferencial
importante para as histórias em quadrinhos e que se não tinham toda a
popularidade e vendas nessa primeira fase como teriam bem posteriormente, temos
aqui toda a base daqueles que seriam alguns dos super heróis mais aclamados não
apenas pelos leitores de quadrinhos, mas por toda uma cultura pop que gerou
filmes, desenhos, livros e uma verdadeira legião de fãs em todo o mundo.
Aguardem a segunda
parte do Guia Definitivo dos X-Men: Ascensão Mutante!