sábado, 8 de dezembro de 2018

O Demolidor Otimista de Mark Waid


Demolidor, o Homem sem Medo, alter-ego de Matthew “Matt” Michael Mordock, é um personagem da Marvel Comics criado em 1964 por Stan Lee e Bill Everett, que acabou ganhando uma popularidade absurda nos anos 80 depois que um então jovem quadrinista chamado Frank Miller revitalizou o personagem em um período que a editora já pensava no cancelamento da revista por baixo consumo.  Miller não apenas conseguiu a façanha de fazer o Demolidor ser altamente vendável, mas também deu a identidade que conhecemos do personagem hoje como um herói sombrio e melancólico com estórias em tom bem mais adultas e realistas, escapando da formula de super-vilão diferente em cada mês ou publicação.

Assim, devido à enorme repercussão de Miller a frente do titulo do Homem sem Medo, muitos outros quadrinistas, que vieram posteriormente, continuaram a escrever estórias densas e urbanas com dilemas pessoais e morais. Logo o personagem se tornou um dos heróis mais sofridos na Marvel que, apesar de todas as suas tragédias e sendo literalmente massacrado por seus autores, o Demolidor acaba sempre por se reerguer de algum modo no final e vencer a vitória, mas quase sempre com um sabor amargo. Foi dessa forma que vários leitores têm compreendido o personagem durante esses anos até que veio Mark Waid para modificar o status quo do herói. 
Mark Waid iniciou sua carreira de argumentista de histórias em quadrinhos nos famigerados anos oitenta em pequenas editoras em mercado mais underground, mas logo conseguiu trabalho na DC Comics escrevendo, entre outras, Origens Secretas. Entretanto rapidamente se envolveu com o projeto de Legião dos Super Heróis do qual, diz, que o influenciou muito.  Fez sucesso logo depois à frente do título The Flash que o fez ser chamado a trabalhar pela concorrente Marvel Comics no título Capitão América. Aclamado por ambos, em 1996 produziu, junto com o renomado Alex Ross, o que viria a ser considerada sua obra prima; o Reino do Amanhã. Chegou a trabalhar como editor da Patrulha do Destino na renomada passagem de Grant Morrison pelo título e hoje é considerado um dos maiores quadrinistas da atualidade.

Waid nos trouxe um Demolidor que apesar de ter um passado carregado de tragédias horrendas ainda tem uma visão otimista e até ingênua. Pode parecer uma mudança sem sentido, mas é muito mais compreensivo que Matt consiga enfrentar tanta tristeza e desastres na sua vida tendo uma personalidade inabalável do que sendo alguém deprimido e que não consegue encontrar um sentido positivo em frente aos seus problemas. Um personagem assim também acaba por ser ainda mais atrevido diante dos perigos, o que acaba combinando bem com o termo do nome original do heróis em inglês, o Daredevil.
Claro que para uma mudança nesse aspecto não deveria contar apenas com a estória produzida pelo argumentista, os desenhos deveriam sair do estilo sombrio e por vezes Noir para algo mais vibrante. Para isso tivemos, em toda a fase do Waid, os desenhistas Paolo Rivera em parceria com o arte finalista Joe Riveira; que realizaram o inicio do arco, e Chris Samnee junto a Tom Palmer; que assumiram a arte do título até o final, além de alguns colaboradores como Kano, Khoi Pham e Emma Rios. O estilo mais limpo e cartunizado desses artistas colaboraram com o tom mais leve e otimista proposto por Mark Waid, mas deve-se destacar, para uma maior justiça com a todos envolvidos, os coloristas Javier Rodrigues, Laura Allred e Matthew Wilson que com suas cores chapadas e novos painéis com uma palheta bem mais colorida reafirmando o tom que Waid queria para essa fase do Homem sem Medo.

Toda essa alteração estética também pode ser facilmente explicada narrativamente devido à mudança do Demolidor para São Francisco, uma cidade bem mais vibrante o colorida do que a melancólica e sombria Nova Iorque onde Matt viveu toda sua vida.
Assim sendo, não temos apenas um Demolidor mais otimista, mas a própria vida do personagem dá uma trégua em toda profusão de tragédias que ele sempre está envolvido. Tornando as estórias com um ar mais leve também, apesar dos traumas de Matt sempre estarem presentes. Talvez o melhor exemplo dessa narrativa de Waid esteja representada na personagem Kristin McDuffie, a assistente da procuradoria e nova namorada de Matt que além de ser uma personagem extremamente positiva a estória acaba quebrando a máxima que toda namorada do Demolidor sofre na mão de seus arquiinimigos. McDuffie é forte e determinada sempre saindo de situações perigosas com inteligência a despeito do medo do Demolidor que algo lhe aconteça.

Logo Mark Waid faz toda uma revolução drástica de como o Demolidor encara o mundo, mas com total respeito aos quadrinistas que vieram antes dele. Os problemas e tragédias passadas continuam a permear o herói e o mundo continua a tentar puxá-lo para as sombras, mas agora sua positividade causa um novo gás ao enfrentamento de seus inimigos e dilemas pessoais.
Vale ressaltar aqui a doença terminal que o personagem Franklin “Foggy” Percy Nelson acaba contraindo na estória e a forma que Matt se torna otimista, pois agora ele tem que ser positivo para ajudar na recuperação do melhor amigo.
Entretanto, alguns leitores reclamaram muito dessa visão mais otimista do Homem sem Medo, principalmente por ter sido seqüência da fase em total estilo Noir de Alex Malleev, Brian Michael Bendis e Ed Brubacker. Ora, o tom melancólico, realista e sombrio já eram características definidoras do Demolidor agora e Mark Waid poderia ter descaracterizado o personagem em sua fase. No entanto, devemos refletir bem sobre essas afirmações.
Apesar do tom da revista ser mais leve Waid não deixou de lado os dilemas pessoais do Demolidor e os mesmos ainda perturbam o herói. Tudo que foi feito antes é reaproveitado em sua fase e apenas Matt toma uma atitude diferente diante seus problemas. O quadrinista muda o personagem, mas com respeito ao que foi feito e sem ignorar nada do passado do Homem sem Medo.

Aliás, aqui temos novamente o talento argumentativo do quadrinista que faz Matt, e até seu amigo Foggy, refletir profundamente sobre seu passado na forma de uma auto-biografia que o personagem se propõe a escrever a certa altura da estória.
Outra critica recorrente é que Mark Waid volta, de certa forma, a usar a fórmula de super-vilão do mês trazendo desde vilões clássicos, mas também considerados ridículos como o Coruja e o Garra Sônica; outros vilões pouco conhecidos como o Mancha e os Filhos da Serpente; e até novos vilões como os filhos do  Homem Púrpura, tirando o foco de antagonista que quase sempre ficava para o Rei do Crime, Wilson Fisk. No entanto, essa é uma analise preguiçosa, pois claro que Waid se vale de tramas obscuras, mas condutoras que trazem esses vilões apenas como distração ao Demolidor e homenagens ao passado do título.
Está justamente aqui outra genialidade do quadrinista.
Mark Waid volta as origens do personagem pré Miller e traz muitos elementos germinados por Stan Lee e Bill Everett que tinham já um tom mais positivo e otimista para o Demolidor. Por vezes ate mais engraçado como eram as histórias em quadrinhos naquela época áurea da Marvel Comics. Assim Waid não apenas respeita os quadrinistas que desenvolveram o lado soturno do herói, mas também trás elementos da origem do titulo combinando visões tão diferentes do personagem de forma impar e nunca vista antes. Agora teríamos um Demolidor completo que tem na bagagem simplesmente tudo que foi feito ao personagem de forma coerente, mas principalmente muito divertida e instigante de se ler.

Claro que essa fase tem seus altos e baixos, principalmente por ser um titulo mensal, que tem prazos muito apertados influenciando muito a qualidade em que as estórias são produzidas, mas podemos notar um inicio de arco absurdamente empolgante e um final simplesmente espetacular que não vamos entrar em detalhes para não estragar a experiência de quem não leu ainda.
Existe até uma genial e corajosa reviravolta bem no meio da fase de Mark Waid que além de abalar as estruturas e de como concebemos o personagem o autor mostra todo seu brilhantismo em mostrar as repercussões de tal revelação e não perde o ritmo narrativo de forma alguma, muito pelo contrario.
Talvez o maior mérito de Waid com seu otimismo para o personagem tenha sido não apenas nos proporcionar a incrível sensação que, depois de acompanhar as revistas por anos, poder ver um Matt sorrindo em frente às ameaças. Mas com isso também reforçar que o Demolidor é o verdadeiro paladino da Marvel que se firma inabalável a toda sua profusão de problemas. Um cavaleiro urbano que desafia o perigo audaciosamente e encara o inimigo com uma atitude atrevida que só é possível graças a uma confiança que apenas os maiores heróis possuem.


Mark Waid conseguiu escrever uma fase única do personagem que justifica as premiações que recebeu e trazendo elementos tanto novos como resgatando o que já havia sido esquecido do Demolidor. Com certeza esse arco ficará marcado como um dos melhores estórias do Homem sem Medo. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O Lobo Solitário


            Sempre temos certa dificuldade em analisar uma obra clássica, seja pelas emoções envolvidas ou por buscar a sensibilidade de perceber sua repercussão entre seus leitores mais fieis ou até mesmo ao grande público. O Lobo Solitário com certeza é uma dessas obras cujo seu impacto foi sentido não somente no Japão, onde foi concebido, mas também no ocidente. Ultrapassando as fronteiras orientais sendo aclamada junto a outras obras primas da nona arte em todo o ocidente influenciando também o cenário da cultura pop mundial. 
            Lobo Solitário (Kozure Ôkami) é um mangá (histórias em quadrinhos japonesas) ou, mais especificamente, um gekigá (quadrinhos mais complexos e dramáticos voltados para adultos) que foi publicado em 1970 na revista de antologias Action e seu enredo se passa na Era Edo (1603 à 1868). Criado pelo argumentista Kazuo Koibe e pelo artista Goseki Kojima que narra a estória do Rônin (Homem onda ou à deriva, ou seja, um samurai sem mestre) chamado Okami Itto (notem que seu sobrenome se parece com Ôkami, ou seja, lobo em japonês) que perdeu seu prestígio, perante o shôgun (comandante militar), e tendo toda a sua família desgraçada por um plano do clã rival, Yagyû, para obterem sua posição de Kogi Kaishakunin (oficial da morte ou carrasco).



            A Era Edo, também conhecida como Tokugawa Bakufu, marca um período dramático do Japão onde temos a ultima resistência dos japoneses à grande abertura ao mundo ocidental que ocorrerá na Restauração Meiji (Era seguinte). O Período Tokugawa é caracterizado pela unificação do Japão, que antes era dominado por vários daimyô (senhores feudais) fraguimentando o país, gerando quase uma guerra civil por disputas territoriais e diminuindo o poder do Imperador. Logo no inicio do século XV, depois de várias revoltas e golpes centralizadores, o shôgun Tokugawa Ieyasu derrotou seus rivais se tornando o líder militar absoluto e unificando o Japão, embora ainda minando o poder do Imperador que era na melhor das hipóteses, seu refém.
            Tokugawa coloca em prática seu plano de fechar o Japão para toda influencia estrangeira (provocando até perseguições religiosas, como a que sofreram os Jesuítas e Budistas, no arquipélago) e acabam pondo fim as disputas territoriais gerando uma paz relativa e frágil em seu país. É nesse período que temos o crescimento da imagem dos samurais (guerreiros na nobreza feudal japonesa que seguiam um forte código de ética chamado Bushidô) que, sem ter utilidade clara nos conflitos, acabam viajando pelo império em busca de desafiar outros mestres em duelos de esgrima. Talvez este seja o auge das técnicas de espada japonesa (Kenjutsu e, posteriormente, Kendô) que são ministradas em academias por todo o mundo.



Também temos na Era Edo a proliferação dos Rônin ou samurais que, por algum motivo, não tinham mais um mestre para seguirem. Assim acabavam que por muitas vezes vagando quase como andarilhos que hora são marginalizados e hora são temidos pela população.
            Ogami Itto, o protagonista de Lobo Solitário, é justamente um desses Rônin, mas que viaja pelo Japão como assassino de aluguel a fim de levantar recursos para sua vingança contra a família Yagyû que o colocou em desgraça junto com seu filho e único sobrevivente dos Ogami, o pequeno Daigoro, que dá um toque todo especial na narrativa dentro e fora do enredo. Ogami abandonou o Bushidô (Caminho do Guerreiro) e agora segue o famigerado Menfumadô (Caminho Errante do Mundo dos Mortos) e trilha com seu filho em uma estrada cheia de ódio e violência provocando ótimas cenas de ação e combates com uma beleza gráfica que mostram todo o talento de seus mangaká (autores de histórias em quadrinhos japonesas).



            Koike Kazuo é um dos mais premiados criadores de quadrinhos, justamente por causa de seu trabalho em o Lobo Solitário. Autor de contos, textos teatrais e poesia assim como alguns roteiros de filmes chegando a escrever as seis adaptações cinematográficas da saga de Ogami Itto a partir de 1972, que lhe abriu as portas como roteirista de filmes no futuro, mostrando sua famosa versatilidade. Logo, por exemplo, acabou criando o mangá Crying Freeman com o artista Ikegami Ryoichi e cuidou da sua versão cinematográfica nos Estados Unidos. Atualmente Koibe leciona em um curso universitário criado por ele mesmo chamado Gekiga Sonjuku onde já estudaram vários famosos produtores de histórias em quadrinhos japoneses como Takahashi Rumiko criadora de Ranma e Inu-Yasha.
            Koibe usa todo esse contexto histórico como pano de fundo para contar a sua história ficcional, pois apesar de ter bases em registros antigos do Japão (onde muitos historiadores usam como ferramenta de estudo o Lobo Solitário, principalmente pelo seu fiel retrato da sociedade japonesa na Era Edo), ainda é uma ficção com personagens inventados e caminhos diferentes da História. Assim temos um Ogami Itto que nunca existiu deste modo, mas temos um clã Ogami que realmente caiu em desgraça em 1655 e a ascensão da família Yagyû em contrapartida. Justamente para reforçar essa verossimilhança que o argumentista traz um dos desenhistas mais realistas e dedicados que tinha em seu alcance. 



            Kojima Goseki é um artista autodidata que, logo após terminar o colegial, ganhava a vida pintando cartazes de filmes, iniciando seus trabalhos nos quadrinhos somente em 1950 em um Japão em crise pela Segunda Guerra Mundial. Assim realizou muitos trabalhos menores até finalmente alcançar o seu primeiro mangá de grande visibilidade chamado Dojinki em 1967, mas se consagrou apenas com a expansão do mercado japonês na década seguinte trabalhando arduamente no Lobo Solitário.
            O mangaká Kojima, apensar de ser um novato na época, já havia trabalhado em um conhecido mangá de samurai chamado Kubikiri Asa quando foi chamado para fazer o Lobo Solitário. Tinha um talento para desenhos realistas que estavam na proposta de Koibe com combates quase cinematográficos e com traços visuais detalhistas que impressionam até os dias atuais. A dupla teve uma iteração impar conciliando perfeitamente o texto ao desenho e trazendo uma narrativa dinâmica e integrada. O sucesso foi tanto que chegaram a receber o titulo de “dupla de outro”. A partir dos anos 90 Kojima se dedicou a realizar adaptações dos filmes do consagrado cineasta Akira Kurosawa para os mangás, tarefa ao qual se empenhou até janeiro de 2000 quando infelizmente chegou a falecer.



            Logo, um personagem tão profundo como Ogami Itto em um contexto historicamente rico que apenas engrandecem uma narrativa complexamente envolvente e que ainda conta com desenhos impecáveis, acabam tornando o Lobo Solitário uma história em quadrinhos de enorme sucesso no Japão gerando vários filmes para o cinema e influenciando toda uma geração de mangaká posteriores tanto na narrativa gráfica como em enredos.
Não era de se espantar que o mangá acabasse conquistando inexoravelmente o mundo ocidental, impressionando seus leitores e sendo cultuado por quadrinistas europeus e estadunidenses. Sua influencia na cultura pop pode ser sentida até os dias de hoje nos filmes, livros e quadrinhos que trazem uma “orientalização” não apenas dos temas, mas também das formas narrativas. Talvez o maior exemplo desse impacto esteja no estilo e traço do famoso argumentista e desenhista Frank Miller.



            Frank Miller é um dos mais cultuados autores de história em quadrinhos de todos os tempos e normalmente é chamado de um dos três maiores quadrinistas, juntamente com Alan Moore e Neal Gaiman. É fácil perceber a influencia de Lobo Solitário nas obras do autor estadunidense como na novela gráfica Ronin, homenagem declarada do autor. No entanto, podemos perceber essa influencia, se olharmos bem, em seus outros trabalhos mainstrem como quando escreveu os personagens Batman (da DC Comics), Wolverine e Demolidor (ambos pela Marvel Comics).
            Todo esse sucesso comercial fez com que o Lobo Solitário se tornasse um dos mais longevos mangá chegando a impressionante marca de mais de 8400 páginas fascinantes e com um final que não se rendeu à própria fama tendo um desfecho imprevisível sendo finalizado pela decisão dos mangaká e não por falta de vendas ou perda do interesse do público por se tornar demasiadamente arrastado.



            Podemos sim concluir que o Lobo Solitário é a obra definitiva das histórias em quadrinhos japonesas e não apenas influenciou os mangá, mas também redefiniu a forma de contar histórias no ocidente seja em quadrinhos, livros ou filmes, como já mencionado, tornando a vingança e a busca por justiça de um homem contra o mundo um dos temas mais recorrentes e apreciados pela cultura pop mundial. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

Projetos para 2017


        
Toda virada de ano, geralmente, costuma a ter dois rituais característicos e cíclicos que demonstra muito sobre a nossa noção de como se passa o tempo.  É natural nessa época e faz parte da cultura ocidental e talvez até mundial. O ano novo é um momento de reflexão e de renovação, ou seja, é um momento que paramos um pouco para contemporizar sobre o passado e também é um período de fazermos os projetos para o futuro, usando o primeiro de janeiro como um marcador para mudanças que queremos ou gostaríamos de realizar.      
Um divisor entre o antigo e o novo.
O ano de 2016 foi, com certeza, um ano bem atípico, onde muitos até o consideram “ruim” esperando com alegria a mudança anual. Particularmente o primeiro semestre desse ano foi cheio de problemas em todas as esferas, mas acabou por concretizar uma máxima que aprendi na publicidade...
Problemas são sinônimos de oportunidades!
O segundo semestre, para mim, foi uma profusão de reviravoltas que somadas em um contexto final foram bem mais positivas que a negatividade do inicio do ano e isso se refletiu muito no projeto desse blog.
Houve um ressurgimento na execução do Contador de Histórias e uma mudança temática clara de textos e ensaios literários e reflexivos livres para resenhas e discussões temáticas sobre Histórias em Quadrinhos.
Mudanças sempre são bem vindas e nunca fez parte ter um blog preso a uma só temática buscando não apenas diversidade nos temas, mas também termos formas mais ecléticas de como expor e produzir conteúdo.
Assim como primeira “reflexão sobre o passado” para uma melhor “projeção do futuro” podemos entender que o Contador de Histórias deve fazer mais isso... contar histórias. Seja como resenhas, poemas, contos e críticas sempre propondo questionamentos e reflexões sobre assuntos atuais e da cultura pop sem ser limitado pelos temas trabalhados ou pela temporalidade.
Claro que depois de contemporizar sobre esse ano temos muitos projetos para 2017 que estão entre novos projetos e a manutenção dos que se manterão após a virada do novo ano.
Continuaremos com o Guia Definitivo de Leitura dosX-Men analisando cada fase importante da equipe mutante dos quadrinhos em seu contexto histórico e com informações extras dos bastidores das publicações bem como seus responsáveis e a receptividade do público.
Teremos uma retomada dos contos e poemas que eram dominantes nos primeiros anos do blog em diversos temas e formas como era característico aqui. Assim poderemos apreciar material totalmente próprio bem como as reflexões livres que ainda fazem a maior parte dos textos do Contador de Histórias.
Continuaremos a produzir e publicar análises temáticas sobre quadrinhos (e séries) propondo reflexões sobre temas atuais e pertinentes como foi o caso da ”Jessica Jones e os relacionamentos Abusivos” e o “Homem Animal e o ativismo ecológico”. Alguns desses textos já estão sendo elaborados como o “Justiceiro do anti-heroísmo à psicopatia” que deve discutir sobre a geração cultural de contestação das leis no combate à criminalidade nos anos 70 e 80 bem como a insatisfação da opinião pública estadunidense sobre a Guerra do Vietnã. Logo depois também teremos um texto que levantará questionamentos sobre a homossexualidade sendo retratada nas histórias em quadrinhos dos X-Men principalmente no tocante da personagem do Homem de Gelo.   
Também teremos novos projetos como o “Lendo...” que discutirá, edição por edição, uma mensal importante da arte seqüenciada como Miracleman, que virá no inicio do ano e o mangá Lobo Solitário que virá logo depois e ambas com o devido tratamento de contextualização histórica. Futuramente também entrará nesse projeto a aclamada Watchmen que será analisada cada uma das 12 edições. Esse projeto é bem diferente do Guia de Leitura, pois visa cobrir todos os aspectos da obra e não apenas resenhar para guiar o leitor a buscar novas revistas para ler.
Finalmente é uma meta possível (e não são todos os projetos de virada de ano?) que apareçam resenhas criticas não apenas de Histórias em quadrinhos, mas também de livros e filmes que não tem super heróis com tema expandindo ainda mais o blog Contador de Histórias e suas discussões.
Por fim agradecemos a todos que leram e opinaram sobre os textos publicados nesse ultimo semestre de 2016, pois o blog cresceu muito e desejamos um ótimo 2017 para todos e que todos os projetos, nossos e de vocês se realizem plenamente.

Obrigado e Feliz Ano Novo!

sábado, 3 de dezembro de 2016

Gênese Mutante - Parte 01 do Guia dos X-Men



Análise da primeira parte do Guia Definitivo dos X-Men que compreende toda a fase inicial dos mutantes escrita por Stan Lee,  publicada nos Estados Unidos nas revistas The X-Men do número 01 ao 19, durante o período de 1963 à 1966. Teve Jack Kirby como desenhista nos números 01 ao 11; Alex Toth na edição 12 e Werner Roth a partir da 13. Foi publicada no Brasil na integra na coleção Biblioteca Histórica Marvel – Os X-Men volumes 1 e 2 e em partes na Coleção Histórica Marvel – Os X-Men volumes 1,2,3 e 4; ambas pela editora Panini.



Chegava, em setembro de 1963, nas bancas de revistas e lojas especializadas dos Estados Unidos a mais nova história em quadrinhos da editora Marvel Comics.  Os “mais incomuns super heróis de todos” faziam sua estréia na revista The X-Men 01 (posteriormente rebatizada de The Uncanny X-Men) e já contava com o “argumento sensacional” de Stan Lee e os “desenhos dinâmicos” de Jack Kirby, os criadores da equipe mutante e já aclamados pela Casa das Idéias.
Jack Kirby era chamado de “o arquiteto do impossível”! Um verdadeiro gênio e visionário entre os desenhistas da arte seqüenciada que lhe rendeu a alcunha merecida ou o apelido carinhoso de “O Rei”. O quadrinista definiu o gênero dos super heróis para sempre, instituindo os padrões artísticos das histórias em quadrinhos estadunidenses posteriores e fazendo seu legado permanecer vivo até os dias de hoje, tornando-se uma referencia para os artistas da atualidade.
Stan Lee talvez seja o nome mais importante da indústria dos comics e criador da maioria dos principais super heróis como Homem Aranha, Hulk, Quarteto Fantástico e boa parte dos Vingadores. Lee é a escarnação da fórmula ou estilo Marvel, ou seja, além da narrativa diferenciada e diálogos afiados, também temos uma maior caracterização dos personagens que, apesar de representar o bem e o super heroísmo, também tinham seus problemas pessoais e humanos, fazendo com que os leitores se identificassem mais com eles do que com os protagonistas, quase deuses, da editora concorrente. Stan Lee escreveu os X-Men desde a primeira revista até o número dezenove que formam exatamente a fase analisada nesse texto.
Hoje podemos dizer que os temas mais importantes abordados pelas revistas dos filhos do átomo sejam o racismo e a inclusão de alguns indivíduos (minorias) na sociedade, mas embora estivesse sutilmente presente desde o primeiro quadrinho, Lee e Kirby não tinham elaborado esses questionamentos com mais profundidade em suas criativas mentes ou simplesmente não colocavam de forma tão direta.
Inicialmente os mutantes seriam apenas um facilitador para se explicar a origens dos poderes de novos heróis e vilões. Logo teríamos a existência de uma nova raça no Universo Marvel, o homo superior (termo pseudocientífico criado por Stan Lee), que já nasceriam com habilidades extraordinárias e que, geralmente, se manifestariam na puberdade. Logo, não mais precisariam de explicações mágicas como Thor e Dr. Estranho; científicas como Homem de Ferro e Capitão América; ou acidentais como o Homem Aranha, para as origens dos super poderes.
Entretanto, é justamente quando seus autores refletiram sobre como as pessoas receberiam esses novos personagens e sensíveis as discussões que estavam ganhando força no contexto dos Estados Unidos nos anos 60 é que perceberam que tinham criado personagens realmente “diferentes de todos os outros” e que questões quase nunca abordadas pelas histórias em quadrinhos até então. Agora poderiam ser centrais com os fabulosos X-Men.



Justamente está nesse contexto o movimento de luta pelos direitos civis que marcou a década de 1960 gerando repercussões sociais até hoje na cultura americana ocidental. Impulsionados pela situação em que os afro-descendentes se encontravam nos Estados Unidos e que, afinal, não tinha melhorado muito desde o final da escravidão, esses movimentos sociais estavam explodindo. Talvez influenciados pelos pioneiros da busca pela igualdade racial como o intelectual W.E.B. DuBois que escrevia sobre a “condição de casta subordinada” em que os negros viviam no inicio do século XX e se tornou o primeiro afro-americano a ganhar o título de PHD pela Universidade de Harvard.
Muito se criticou sobre a segregação que havia nesses cem anos após a Guerra de Secessão (ocorrida entre 1861 a 65), mas foi na década de 1960 que os movimentos sociais cresceram em número e se tornaram influenciadores de toda uma geração que buscava melhores condições para minorias oprimidas pela sociedade estadunidense, incluindo os negros que uma vez ameaçados nas regiões agrárias do Sul dos Estados Unidos, acabavam fugindo por melhores condições no Norte do país, mas encontravam se não perseguições e assassinatos, uma forte resistência social e racista que os separava das comunidades brancas reservando ao afro-americano a uma categoria de piores empregos e quase nenhuma ascensão econômica e social.
As leis estadunidenses reforçavam essa separação que rebaixava o cidadão afro-descendente em uma espécie de “apharteid americano” que muito incomodava as comunidades oprimidas e eclodiu nos movimentos sociais dos anos 60 em várias vertentes, pacifistas ou violentas, mas que buscavam o mesmo objetivo de igualdade e influenciariam não apenas aos negros, mas também teria repercussões em muitas culturas do continente americano e, posteriormente, quase todo o ocidente. 
Foi com esse olhar sensível para essas lutas e percebendo a mudança na sociedade que seria gerada por esse momento histórico que Stan Lee e Jack Kirby plantaram a semente da reflexão sobre o racismo e inclusão, ou reclusão, das minorias na sociedade que viria a ser tão presente nas estórias dos pupilos do professor Charles Francis Xavier e colocaria os X-Men em um patamar muito além de simples super heróis dos quadrinhos, chegando a ser o sucesso editorial mais expressivo da Marvel Comics nos anos 80 e 90.
Claro que hoje podemos ver influências diretas e indiretas desse período nas revistas dos mutantes bem como as atitudes conciliadoras do Professor X que simulavam os discursos de Martin Luther King Jr, um líder pacifista do movimento de luta pelos direitos civis e seguidor dos ideais de Desobediência Civil, criada por Henry David Thoreau e cujo o pioneiro em prática teria sido Mahatma Gandhi que também inspirou a criação e desenvolvimento de Charles Xavier, mas este em aspecto físico (Xavier e Gandhi tem, ambos, uma mente brilhante, mas são fisicamente frágeis) além de espiritual.
 Até mesmo os vilões são associados aos discursos e ideais da época, como Erik Magnus Leinsher, também chamado de Magneto (pois possuía poderes magnéticos), o principal antagonista dos X-Men. Magnus tem como sua contraparte histórica o ativista Malcolm X, também um líder afro-americano do movimento pela luta dos direitos civis, mas que tinha um caráter mais radical que Luther King. No entanto, posteriormente nos faz refletir sobre a legitimidade do uso da violência no contexto de revoltas e revoluções e se Magneto realmente seria um vilão.
Interessante perceber que, se o Mestre do Magnetismo teve sua narrativa cada vez mais se aproximando a Malcolm X, talvez sua Irmandade de Mutantes possa ter se assemelhado, na mesma proporção, com o movimento dos Panteras Negras, um grupo que teve como inspiração o líder radical negro. Logo, mais uma vez podemos ver o embate de como esses movimentos se articulam e que método seria mais “correto” a se fazer, o pacifismo do Professor X ou o radicalismo de Magneto uma discussão muito real e pertinente para os anos 60 de lutas e movimentos de Luther King e Malcolm X.
Obviamente nos primórdios dos fabulosos X-Men essas referencias eram eclipsadas por estórias de ação ingênua e aventuresca bem típica da Era de Prata das histórias em quadrinhos que tinham peso mais de entretenimento do que consciência social, pois muitas questões eram perigosas de serem abordadas devido ao famigerado Comics Code Autority que censurava os comics e não permitia que temas mais pesados fossem abordados em revistas ditas para os jovens e as crianças da época.



O código surgiu muito impulsionado pelo livro Seduction of the Innocent em que o psiquiatra Frederic Wertham expõe sua tese sobre como os quadrinhos dos Estados Unidos fugiam muito da noção moralidade e ética da sua época e que influenciava sua juventude à delinquência.
Assim as primeiras aventuras dos “adolescentes mais incomuns de todos os tempos” tinham a narrativa já clássica de ter um vilão novo a cada revista e gerando, ao mesmo tempo, antagonistas esquecíveis como o teleportador Vanisher ou Unus o Intocável, mas também firmou ícones da vilania das revistas mutantes como Blob, O Fanático Cain Marko e a Irmandade dos Mutantes com seu emblemático e poderoso líder Magneto que se tornaria um dos principais personagens de toda a franquia dos filhos do átomo.  São esses últimos que quebravam a narrativa de “vilão do mês” tendo uma profundidade maior em sua caracterização e que sempre voltavam mais fortes ou com planos melhores para atormentar a vida dos pupilos do professor Xavier.



Ao mesmo tempo, podemos perceber que apesar do código de censura, Stan Lee foi introduzindo temas mais profundos, mesmo que sutilmente, nas caracterizações mais densas dos personagens que tinham problemas reais como a auto-estima afetada de um Henry “Hank” McCoy que não gostava de ser chamado de “Fera” ou Ciclope, que era o órfão Scott Summers, e que era também assombrado pelo perigo de suas rajadas ópticas. Logo, eram personagens ingênuos como era exigido, mas com uma complexidade além do comum que formam o alicerce para as estórias futuras sem tanta censura e que poderiam abordar enredos mais delicados de maneira mais explicita.
Curioso perceber que o mesmo ocorreu com a equipe de super heróis Patrulha do Destino da editora concorrente, a National Comics (ancestral da DC Comics) que tinham a mesma abordagem inicial de “heróis mais estranhos de todos” e, por isso mesmo, desajustados, mas que tinham estórias mornas no inicio até alcançarem toda uma reviravolta posteriormente com o “afrouxamento” do Comics Code Autority e roteirizados pelas mãos de Grant Morrison.
Justamente sob a batuta de Stan Lee temos a, talvez, maior genialidade, dos primórdios dos X-Men em traçar uma linha delicada e tênue entre o espírito aventuresco de uma época que se exigia histórias em quadrinhos que “não seduziriam os inocentes”, como sugeria o psiquiatra Werthan em seu livro, ao mesmo tempo em que estavam conectados ao contexto e questões que explodiam nos Estados Unidos naquela década de forte repressão e luta por igualdade de direitos.
Assim o grande mestre da Marvel Comics aprofundava a personalidade de seus personagens até onde podia, trazendo temas mais pesados com uma narrativa pontual e de sensibilidade impar, condizente a sua genialidade. Somos mostrados a um Magneto terrível e claramente maligno trajando roupas vermelhas com “pequenos chifres” em seu elmo querendo dominar a raça humana que ele enxerga como inferior, bem como temos um amadurecimento do antagonista revelando seu ódio pelo racismo a medida que a estória evolui tornando-se mais densa a medida que chegam mais revistas dos mutantes nas bancas.



Um ótimo exemplo dessa profundidade pontual se mostra na oitava revista dos X-Men quando o Homem de Gelo e o Fera estão nas ruas de Nova Iorque e encontram uma criança em perigo encima da caixa d’água de um prédio. Com o infante podendo cair a qualquer momento, Hank McCoy, ignorando até mesmo sua identidade secreta, decide usar seus dons mutantes para subir pelas pareces do edifício e salvar o garoto. A população acompanhando tudo o que acontecia pelas ruas deduz corretamente que Hank seria um mutante e decide atacá-lo movidos pelo ódio ao diferente e ao desconhecido. É demais para o intelectual McCoy que, indagando os motivos da equipe estar tão disposta a salvar justamente aqueles que os odeiam e questionando o sonho de Charles Xavier em uma coexistência pacifica entre mutantes e humanos, acaba (não por muito tempo, é verdade) abandonando seu grupo mutante.



Stan Lee mostra cada vez mais suas intenções com os jovens superdotados trazendo não apenas questões sociais da época (que por si só já destacariam muito suas estórias), mas também vários temas “na moda” do período como ficção cientifica, medo nuclear, aventura de exploração em paraísos selvagens perdidos e, claro, a eterna luta do bem contra o mal.
Outro contexto histórico recorrente nas histórias em quadrinhos da editora Marvel e claramente presente nos primórdios dos X-Men é a da Guerra Fria (1947 a 1991). Ora, não é um paralelo ao período tendo um Professor X preocupado não apenas em localizar mutantes para fazê-los compreender seus poderes e assim, quem eles são, mas também buscando recrutá-los para sua equipe antes que Magneto os convoque para a Irmandade dos Mutantes. Logo, uma referencia obvia aos “países estratégicos” que eram financiados pelos Estados Unidos capitalistas para que não se tornassem comunistas e, assim, aliados à União Soviética. Uma corrida armamentista e, as vezes, intelectual que foi responsável por encontrar e financiar cientistas e estudiosos para cada eixo que tinha um duplo objetivo. Atrair mais para sua ideologia e não permitir que a outra tivesse controle sobre aquele local específico ou descoberta científica.
Inexoravelmente não demoraria muito para a narrativa inocente e clichê fossem dando espaço para um aprofundamento das estórias e dos próprios personagens, heróis ou vilões, como o ótimo exemplo do arco do antagonista Lúcifer. Um antagonista até esquecível que seria mais um “vilão do mês” se não fosse pela narrativa de suspense bem orquestrada por Stan Lee que vai introduzindo o super vilão aos poucos e revelando seu passado ligado ao líder mutante Charles Xavier de forma intrigante e permanente. A mesma idéia é repetida poucas edições depois com o dito meio irmão (na verdade irmão adotivo) rancoroso do Professor X chamado Cain Marko, o Fanático, que se tornou um dos oponentes mais interessantes e imbatíveis dos X-Men até os dias atuais.
O Fanático traz ainda narrativas diferenciadas como uma desculpa para mostrarem um pouco da origem do professor Xavier, mostrando sua trágica infância com o meio irmão (fazendo jus a escolha dos autores pelo nome Cain) e esse arco aproveita para introduzir melhor os X-Men no Universo Marvel com aparições singelas do Demolidor e mais importantes como o Tocha Humana do Quarteto Fantástico. Claro que essas aparições combinadas já haviam ocorrido antes, como o caso da revista Tales of Suspense 49 em que o X-Man Anjo (Warren Worthington III) encontra o Homem de Ferro (Antonny “Tonny” Stark) e na própria revista dos mutantes The X-Men 09 com o surgimento dos Vingadores, mas não tinha sido tão bem trabalhado como agora contendo não apenas personagens, mas elementos das outras publicações da Casa das Idéias, como as famosas Faixas de Cyttorak (entidade presente nas estórias do Dr. Estranho) trazendo os elementos de crossover que fazem tão reconhecível a fórmula Marvel não quadrinhos e mais recentemente no cinema.
Também devemos destacar o clima colegial nas estórias da equipe mutante, onde os pupilos de Xavier são alunos de sua escola para jovens superdotados sendo treinados e até, eventualmente, se formando com direito a beca e diploma. Charles faz às vezes de professor exigente e “linha dura”, apenas da aparência frágil, que “não tolera atrasos” e testa constantemente seus estudantes chegando muitas vezes a abalar o limite emocional dos X-Men quando finge perder os poderes ou desaparece de vez em quando deixando os filhos do átomo perceberem que já podem caminhar sozinhos, e sem sua tutela constante, explorando a qualidade de Ciclope como líder de campo da equipe.
Próximo ao final da fase de Stan Lee temos os melhores representantes do amadurecimento da narrativa dos “jovens mais estranhos de todos”, o advento dos Sentinelas. Robôs de combate autoconscientes criados pelo antropólogo Bolivar Trash para conter a ameaça mutante que o próprio alardeou nos jornais sendo responsável pela histeria ante-mutante. Temos novamente todo um clima de Guerra Fria com um paralelo aos comunistas e ao macarthismo gerando, pelas palavras do próprio Professor X, uma caça as bruxas aos homo superior. Os Sentinelas representam, também, mais um exemplo da influencia da ficção cientifica nas estórias dos X-Men, principalmente quando se rebelam contra seu criador e chegam a conclusão lógica que para proteger os humanos dos mutantes deveriam governar o mundo e escravizar à todos. 



Estão nesses fatores; como trazer heróis e vilões com dilemas humanos e assim cultivar uma identificação maior com os leitores no melhor estilo Marvel, por abordar temas delicados e tensos em uma época de proibição e censura e por nos fazer refletir sobre questões que estavam em evidência no período e no contexto em que foram lançados; é que fazem dos fabulosos X-Men um diferencial importante para as histórias em quadrinhos e que se não tinham toda a popularidade e vendas nessa primeira fase como teriam bem posteriormente, temos aqui toda a base daqueles que seriam alguns dos super heróis mais aclamados não apenas pelos leitores de quadrinhos, mas por toda uma cultura pop que gerou filmes, desenhos, livros e uma verdadeira legião de fãs em todo o mundo.




Aguardem a segunda parte do Guia Definitivo dos X-Men: Ascensão Mutante!

domingo, 20 de novembro de 2016

Luke Cage e a Questão da Representatividade Negra


                Luke Cage é o terceiro personagem da Marvel Comics a ganhar uma serie própria da Netflix e, como foi nas revistas dos anos 70, é o primeiro personagem negro de histórias em quadrinhos a ter um título próprio. Esse fator, por si só, já faz a série se destacar entre os demais, junto com as musicas, o Harlem e um pouco da cultura Afro-americana, fazem com que Luke Cage tenha como tema principal não os super-heróis fantasiados, mas a representatividade negra em vários espectros narrativos.
            A série retrata a vida fictícia de Carl Lucas (Lucas Grant nas HQs originais e ambos alter-egos de Luke Cage) um ex-presidiário que passou por uma experiência cientifica na ilha-penitenciária de Seagate em troca da redução de sua pena, mas algo dá “errado” e Luke, interpretado por Mike Colter que já havia aparecido em Marvel’s Jessica Jones, acaba adquirindo poderes de super força, certo grau de regeneração e o mais marcante, pele invulnerável a quase qualquer tipo de ferimento.
            Entretanto, Cage não quer se tornar um super herói, principalmente devido à morte de sua amada Reva Connors, interpretada por Parisa Fita-Henley, e que também já havia aparecido na série da Jessica Jones. Assim ele foge da prisão e volta para o bairro do Harlem em Nova Iorque tentando, infrutiferamente, levar uma vida pacata trabalhando em uma famosa barbearia do parente da falecida Reva chamado de Henry Hunter, ou carinhosamente “Pop”, interpretado pelo excelente ator Frankie Faison.
            A série marca mais uma parceria do canal de streaming Netflix com a editora Marvel Comics e agora tendo o brilhante Cheo Hodari Coker como desenvolvedor, roteirista e showrunner.
Assim como nas séries anteriores, Luke Cage também é um personagem de Histórias em Quadrinhos e foi criado em 1971 por Archie Goodwin, George Tuska e John Romita sobre as idéias inovadoras de Stan Lee que queria “entrar na onda” dos filmes do inicio da década de 70 que tinham agora personagens negros, escritos para um publico negro por diretores e roteiristas negros.
Esse era o contexto do chamado Blaxsploitation.
A expressão veio da junção das palavras Black que significa preto ou negro e Exploitation que significa exploração, ou seja, Exploração Negra, mas no sentido de priorizar a comunidade negra dos Estados Unidos como consumidor principalmente de filmes, mas depois também de séries, livros e até histórias em quadrinhos. Esse se tornou um movimento com grande apelo e importância, pois os afro-americanos além de não se sentirem representados pelo cinema da época, os produtores viram uma chance de explorar toda uma cultura que ainda não tinha sido mostrada a contento.


Assim esse inovador estilo já contava com expoentes filmes como Sweet Sweetback de Melvin Van Peebles e Shaft de Gordon Parks, ambos também lançados em 1971 tendo como inspiração os antigos Race Films e indo na contra mão da industria hollywoodiana que na época raramente colocava negros como protagonistas em filmes ou, se colocava, era algo bem longe da realidade em que viviam os afro-americanos nesse período. Pouco depois o Blaxsploitation passou por uma fase antropofágica, muito semelhante a escola literária modernista brasileira, que visava pegar filmes já existentes e colocar protagonistas negros como foi Blácula (1972) de William Crain, The Black Godfather (1974) de John Evans e O Mágico Inesquecível (1978) de Sidney Lumet que, esse último, fez muito sucesso na época por contar com a participação especial de Michael Jackson e era praticamente o Mágico de Oz com personagens negros.
Entretanto, a questão não era apenas trazer personagens negros como protagonistas ou buscar atores, autores e diretores afro-descendentes para ter uma melhor caracterização dessas criações, mas também buscar toda a cultura afro-americana como contexto e enredo para que assim a comunidade negra finalmente pudesse se sentir representada no cinema, televisão ou qualquer outra mídia cultural.
Logo a Marvel Comics, que sempre tentava se manter atualizada as questões de seu contexto, trouxe na primeira revista de história em quadrinhos com um negro como personagem principal e tentou não apenas ter um personagem afro-descendente, mas levar como pano de fundo a cultura negra dos afro-americanos. Na verdade a empresa já tinha inovado com o primeiro personagem negro das HQs, o Pantera Negra, mas este, até então, aparecia como coadjuvante nas revistas do Quarteto Fantástico e por ser africano não havia uma identificação direta com os leitores dos Estados Unidos.
Assim Luke Cage vive no Harlem, bairro da cidade de Nova Iorque que nos anos 70 estava abandonado a degradação pelo Estado e embora vivesse no meio de as gangues criminosas e com criminalidade alarmante. Muitos bairros da periferia novaiorquina passavam pelos mesmos problemas como o caso do Bronx que também foi palco de explosões culturais que iniciaram um movimento artístico-cultural genuinamente afro-americano como o Hip Hop que acabou trazendo um pouco de paz aos jovens que tentavam fugir da violência e drogas que os cercavam de todas as maneiras, da mesma maneira que, tardiamente, se buscou reconstruir o Harlem.


O Harlem também seria explorado pela série da Netflix quase como um personagem próprio. A identidade do bairro novaiorquino é trazida de forma ainda mais marcante que foi trabalhada nas antigas HQs do personagem nos anos 70 e, embora tenha sido atualizada para os dias de hoje, trás antigas questões como a reconstrução do bairro e uma apologia a sua própria cultura.
Tudo isso novamente se entrelaça com o blaxploitation que a série parece trazer de volta com tantos atores, produtores e diretores negros bem como trazendo a cultura afro-americana representada pelo Harlem de maneira natural e sem muitos estereótipos não “denegrindo” ou romantizando demais os personagens negros que na série figuram tanto como heróis e vilões.
Talvez esteja na trilha sonora e nas músicas os melhores exemplos da cultura afro-americana sendo explorada na série, onde cada capítulo é dedicado a uma música ou álbum famoso que passa por alguns espectros da musica negra estadunidense sendo representada não apenas pelo Rap, como geralmente acontece nesses casos, mas também com o Soul, Blues e Jazz. A música não figura apenas como trilha, mas os cantores e bandas acabam realmente aparecendo na série, principalmente se apresentando no Harlem’s Paradise, a boate do vilão Boca de Algodão.
Todos esses detalhes trazem uma melhor imersão à narrativa da série e faz com que seja considerada uma das melhores, em termos de produção, desenvolvida pela Netflix para os super heróis da Marvel Comics. São músicas que não apenas embalam a cenas de drama e ação ou que são apresentadas apenas de forma comumente reduzida e até banalizada, como é recorrente em muitos filmes e séries. Em Luke Cage as músicas são apresentadas evidenciando que a cultura negra dos Estados Unidos é incrivelmente rica e diversificada. 
Assim sendo, a série da Netflix acaba tendo uma importância enorme e se tornando muito mais que apenas uma adaptação de super heróis das histórias de quadrinhos da Marvel Comics. Sua importância se mostra na representatividade, pois não apenas um garoto negro poderia se identificar melhor pelo personagem ser de sua etnia, como o Pantera Negra, por exemplo, mas mais que isso, Luke Cage era da periferia dos Estados Unidos e isso o trazia bem mais próximo do público.
Era um negro do Harlem vestido com moletom e capuz, que a mídia e a sociedade o colocaria como estereótipo de bandido, mas aqui Luke era um herói ou parafraseando o vilão da série, era o Capitão América do Harlem.
Na mesma forma que os quadrinhos dos anos 70 buscaram uma maior representatividade negra, a série da Netflix também vai pelo mesmo caminho buscando além das referencias quadrinísticas, mas tendo a sensibilidade de entender como esse tema estava em foco nos dias de hoje, recriando e modernizando a representatividade do blaxsploitation junto a temas mais atuais, talvez esperando ter o mesmo efeito ocorrido no passado. Um garoto negro pode muito bem sair do cinema tendo o Capitão América como herói, mas agora poderia ter um herói muito mais parecido com o jovem também, um protagonista que, como ele, poderia ser preconceituosamente confundido com um marginal comum andando pelas ruas.


Assim Luke Cage se torna a alma do Harlem e, apesar de todos os esforços do Boca de Algodão em desmoralizá-lo, o bairro se identifica com Luke fazendo os episódios da segunda metade da série sejam vibrantes e servindo como uma alegoria perfeita para a intenção dos produtores em mostrar a importância e atualidade da série de modo muito semelhante ao contexto do lançamento dos quadrinhos originais.
A busca do proprietário do Harlem’s Paradise e vilão Stokes, brilhantemente interpretado por Maharshala Ali, em destruir a imagem moral do herói pode ser a única resposta que o antagonista tinha de derrotar um Luke indestrutível e muito mais poderoso que ele mesmo. Faz parte da narrativa construída pelas séries da Netflix onde cada vilão parece ter um foco de ataque, como Fisk atacou a imagem do Demolidor ou Killgrave agredia psicologicamente a Jessica Jones, mas no caso do Boca de Algodão o ataque moral se encaixa perfeitamente na idéia de representatividade e evidencia os preconceitos e tentativa quase impossível de alguém da periferia viver alheio ao meio de ilicitude e buscar um caminho mais honesto.
A representatividade realmente é o foco da série, como deveria ser, e mesmo tendo um protagonista mulherengo, e assim sendo, de narrativa muitas vezes machista, temos várias mulheres fortes sendo representadas quase sem os clichês do gênero. Temos, como exemplo de heroína, uma policial chamada Misty Knight, interpretada pela Simone Missick, que é honesta em uma corporação corrupta e de sexualidade bem resolvida; bem como temos a vilã manipuladora e política Mariah Dillard que encontrou na atriz Alfre Woodard uma interpretação perfeita.
Estão em todos esses esforços; a música e o tema buscando e modernizando suas origens bem como toda a homenagem a cultura afro-americana, o que fazem Luke Cage estar entre as melhores séries da Netflix e, se não tem uma estória tão envolvente como as outras da parceria com a Marvel, está é a de melhor produção sem dúvidas. Uma importância social que amarra todo o enredo da mesma forma que fizeram em Jessica Jones, mas em uma produção ainda mais bem trabalhada e acertada.
Infelizmente vários aspectos dos quadrinhos foram esquecidos como fato de Luke ter sido um Herói de Aluguel, ou seja, oferecendo sua ajuda por um preço. Temos pequenas referencias a isso na série, mas Luke não chega a atuar como tal. Este fator pode muito bem ter ocorrido devido à busca pelo foco da representatividade, mas é triste ver o quanto o personagem poderia ter crescido durante os episódios se partisse do ponto de cobrar pelo seu auxilio e talvez perto do final ser um herói sem essas amarras ou apenas nunca exigir pagamento das pessoas do Harlem como nas HQs. Poderia ser um desenvolvimento que tornaria a primeira metade da série menos parada e buscaria já uma referencia com a próxima série do Punho de Ferro, pois esse era o parceiro de Luke nas estórias dos Heróis de Aluguel.


No entanto, talvez tenhamos que parabenizar e agradecer que os produtores não tenham usado todas as referencias dos quadrinhos e passado bem longe da fase da Marvel Max do personagem. Embora tenha sido escrito pelo brilhante roteirista Brian Azzarello, Luke Cage do selo adulto da Marvel não teve poucas edições a toa. Arcos cheios de preconceitos de uma periferia estereotipada que nos traz estórias fracas e com nenhuma intimidade ou reconhecimento com as comunidades negras estadunidenses. Foi à contramão de tudo que tinha sido construído com o personagem e devidamente esquecida em revistas posteriores. Quem sabe a série ter bebido da fonte blaxsploitation e colocado produtores não apenas negros, mas que entendem da realidade do Harlem e a revista buscar um ótimo roteirista, mas de outra realidade, não nos faz refletir ainda mais sobre a importância da representatividade?
Finalmente temos mais uma ótima série baseada em histórias em quadrinhos; se não pelo roteiro, mas pela produção e importância; que nos traz bem mais do que combates e referencias super heróicas, mas questionamentos importantes que tinham tanto significado nos anos 70 e continuam até hoje martelando sobre a importância da representatividade e os espaços que os negros têm na cultura pop.